Eu nunca imaginei
que um dia iríamos dormir juntos
sobre o mesmo poema,
masculino e feminino,
substantivos que se atraíam…
E jamais imaginei que os nossos corpos
de textos distantes
não viriam a ser mais
que um sonho pontuado de excitação…
Nunca quis acreditar
que as nossas dermes morreriam
da morte perene que há nas folhas de papel,
caindo no abismo das palavras…
E tudo isso porque eu não sabia
que as nossas bocas, morrentes da sede
dos Trópicos, iriam tremer, perante
a doçura de cada escrito…
E tudo porque eu desconhecia
que cada frase deposta
sobre a cama de favos de mel
viria a eclodir virgem de vírgulas,
numa antevisão suspensa
da respiração ofegante do fim…
Eu não sabia que o sorriso
dos parágrafos ficaria esquecido
nas entrelinhas da humidade dos olhos,
nem que haveria uma sílaba
capaz de partir a memória das letras…
Eu não sabia que o silêncio
da inspiração se iria transformar
em plural de um género concreto, solitário…
Nem sabia que o poema vazio
se iria abrir mais cruel
que as reticências errantes
à aridez do tempo…
Mas, descobri o baú do tesouro
guardado de fábulas
e escondi-o no precipício do oceano
novamente
para que o abandono não fosse
acertar de novo no coração da vertigem!
Agora sou só miragem
na transcrição fonética de um grito mudo
e o deserto é tudo quanto a terminologia
do amor subentende no meu entardecer.
Agora és só lirismo nos versos
(in)subordinados
num poema em voz passiva.
Rosa Alentejana Felisbela
01/12/2015
(imagem da net)