segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Já não te espero


Como o rio de cimento
que corre p’los tijolos
em silêncio

confundo o muro
confundo o tudo
que tivemos

e a metamorfose
é banco, é branco
é ocre que invento
p’ra não transparecer

e vou morrendo
e vou crendo

que um dia
deixo
de ser

fantasia

num qualquer seixo
de rio
a correr…

Rosa Alentejana Felisbela
11/12/2017
(brad spencer brick sculpture)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Vem...

Vem murmurar as palavras doces
que o mel guardou no pensamento
da tua companhia...
Dar-me o beijo que a poesia promete
nas nervuras da madeira...
Entregar-me o abraço
que libertaste na despedida
que um dia virá...
Sou-te banco de jardim
aguardando o pássaro
que fugiu do ninho do meu coração...
Amo-te nas asas da imaginação!

Rosa Alentejana Felisbela
(escultura de Jesus Curiá Pérez)

Consciência

Quando a consciência se senta
no baloiço da ilusão,
muitas palavras ecoam,
muitas ternuras se suspedem,
e tantas razões voam
pela boca do coração!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Pousar palavras

Queria pousar as palavras sobre a paisagem de inverno, como ave planando sobre as nuvens que o caramelo lambeu por dentro, ou sobre as árvores que o breu assumiu colheita sua, ou sobre os torrões como crânios carecas onde nasceram pequenas cânulas amareladas. Mas não me recordo do cheiro da terra molhada para poder fazê-lo. Perdi as gotas algures entre um fardo pejado de bafo poeirento, ou nas fendas abertas da cortiça ressequida. Pelo ar um vento bravio bordeja as folhas das azinheiras curtidas pela imensidão. E o sabor a cal penetra nas paredes, numa tentativa de cobrir a caliça desabotoada, folha a folha, da casa. Sento-me no poial desgastado de cimento, onde as inscrições do ano em que foi feito esmorecem a cada dia que passa. Ouço a toada dos cães ao longe e julgo, por momentos, escutar o som de passos…Mas não, foi só a garra do tempo arranhando um pouco mais de recordações.

08/12/2017
Rosa Alentejana Felisbela

(imagem de Filomena Janes Semedo)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Tenho saudades


Tenho saudades! Admito que errei muitas vezes, mas também acertei muitas outras. Sei que não sou perfeita. Mas quem o é? Podem passar dias, meses, anos, que nunca me esquecerei. O olhar, a voz, o sorriso, as palavras, as gargalhadas e um mundo de recordações. Às vezes ficam mais "frescas" e alvejam-me a memória, provocando as lágrimas. Às vezes ficam a brincar-me no pensamento e nasce-me o sorriso nos lábios. Grávida de ternura, abraço o abraço e fico assim, apenas sozinha na panaceia que me tolda o coração. Sou humana e quero acreditar.

Rosa Alentejana Felisbela

Valorizar


Valorizar o próximo é, no mínimo, embaraçoso para quem tem um ego do tamanho do mundo! Quantas vezes precisamos de um incentivo para continuar, mas negam-nos o "protagonismo" para não se acharem inferiores? Quantas vezes nos olham de lado por dar a mão a quem tem lágrimas nos olhos? Quantas vezes nos acham "seres estranhos" por dizermos "obrigada pela ajuda"...Quantas vezes percebemos que não somos desejados por perto, mas enquanto "fazemos falta", ali somos mantidos? A questão está em não desistir. Continuar de cabeça erguida e teimosamente de sorriso no rosto. Amanhã será um novo dia, pleno de novas conquistas!

Rosa Alentejana Felisbela

Relojoeiro louco


E a brisa veio
despentear as horas
desgrenhar os minutos
como pente sem dentes
ou com eles gretados

E a brisa
desalinhou os ponteiros
desafinou as roldanas
como números sobrepostos
passando desafinados

E a brisa
desmontou todas as peças
uma a uma,
como relojoeiro louco
comendo o tempo (tão pouco)
de um simples beijo –apaixonado!

Era a corda
do mostrador partida
caindo na rotação
incerta do coração
parando
num último suspiro
destroçado

Rosa Alentejana Felisbela
03/12/2017
(imagem da net)

sábado, 2 de dezembro de 2017

Taça de fragas


Beber goles generosos
de sol e mar
em conchas solitárias
de areia

neste varal
onde se suspende
um beijo

é mergulhar no paraíso
de prata
a pique

onde as sombras
das profundezas
brincam ao brilho

-instante eterno-
de vagas

onde te revelas
e vais
a cada momento

e não me sais
do pensamento

nesta taça
feita de fragas

Rosa Alentejana Felisbela
02/12/2017

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Onde?


Onde está a manta feita
de grossas gotas de chuva?
E o perfume perdido
da terra molhada?
Nas tuas mãos,
meu soalho bendito
que me encanta...
Meu sobreiro maduro
de caule enrugado...

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Ser feliz


Meu amor,
eu tento…

proteger
os olhos de cisne
do vagar triste das águas

voltando as asas
num rumo lento

apagando o piar profundo
do poente

mas tu demoras

e a luz solvente amarra-me
amara-me, entendes?

e à boca do monte acendo
o grito da liberdade

onde me sento

numa busca silente

é vago o vulto
quase quente

daquela hora em que foste
embora presente…

murmuro a privação
e tento

meu amor
ser feliz
novamente

Rosa Alentejana Felisbela
29/11/2017
(imagem da net)

domingo, 26 de novembro de 2017

Aurora nascente


Sou raio de luz
apagado

entre pedras
numa solidão
de nascente

Acende-me a voz
na paz corrente
do som do teu nome

e faz com que o lume
que reluz no sonho

sintetize
o hálito doce
de um dia
apaixonado

Rosa Alentejana Felisbela
26/11/2017
(imagem da net)

sábado, 25 de novembro de 2017

Da brandura


Não há pudor
no esquecimento

só uma incoerência
taciturna na memória

uma desmesura
na ausência

e uma dor, um pavor
que tortura

e o colo do adiamento
um dia

recebe nos braços
o corpo inerte

da brandura

Rosa Alentejana Felisbela
25/11/2017
(imagem da net)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

vida


A vida exige de nós
a capacidade de recuperar
após as adversidades
e nunca perder o sorriso
perante a beleza!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Atual


O homem da sociedade atual
vive amarrado à terra,
mas de cabeça nas nuvens.
Quem o pode criticar?
A "imagem" é a imposição
de ser feliz na rede...
Mas na sua mente,
um mundo inteiro impede-o
de enlouquecer.
São os sonhos
que o levam a sorrir!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Vazio


Padrão que se repete

verso vírgula
lembrete

- poesia da solidão -

transcende os poros
- falsete -

corrobora a canção

homenagem ao vazio

desaparecido
sem explicação

perpetua-se a palavra
em pedra polida

- mármore -
sobre o chão

abraço que devora
esquecido?

Não.

Rosa Alentejana Felisbela
22/11/2017
(imagem da net)

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Piada do dia:


Hoje desloquei-me à Bomba de Gasolina onde habitualmente abasteço o meu carrito e aconteceu algo inusitado. Costumo pagar antecipadamente para não ter que estar com o cuidado de ver se não ultrapassa o montante que quero. Cheguei e apresentei os cartões e descontos que se utilizam nestas situações, e o senhor perguntou-me o que queria. Eu respondi o montante que queria de gasolina. Ele perguntou-me se era da simples ou da especial, e eu disse pretender da especial. Fiz o pagamento e saí. Momentos depois, fui buscar a “pistola” (não sei se é o nome correto rs) e…não funcionava. Voltei a coloca-la no lugar e tirei novamente. Nada. Gesticulei para o senhor e ele gesticulou para mim. Nada entendi. Voltei a tentar e nada. Entretanto, a loja tinha lá uns 4 senhores a pagar que foram saindo e olhavam para mim com um sorrisinho estranho. Comecei a ficar incomodada. O senhor da Bomba veio então cá fora e disse:
Senhor - A senhora está a tirar gasolina!
Eu - Sim!
Senhor – Mas não me pediu gasóleo?
Eu – Não…Recorda-se que até me perguntou se eu queria normal ou especial?
Senhor (aflito) – Ah desculpe! Foi erro meu!
E lá foi mexer “onde deveria” para eu poder abastecer.
Quando terminei estava um bocadinho irritada e um bocadinho divertida. Então os senhores que iam saindo estavam certamente a pensar “coitada, é mulher…nem sabe o que pediu ou não sabe ler”…Nenhum teve a amabilidade de me dizer absolutamente nada!
Acham normal????rsrsrsrs


sábado, 18 de novembro de 2017

Preconceitos


Vamos colocar a questão
De um prisma diferente
Se todos temos coração
Qual é a diferença na gente?

Se num RX o esqueleto
Fica exatamente igual
Quer seja branco ou preto
Qual a diferença afinal?

Se nas análises ao sangue
Vemos que tem a mesma cor
Queres que não me zangue
Quando há distinções com rancor?

Se todos têm progenitora
E um pai dá a sua semente
Porque deixámos outrora
Existir estratos na gente?

Se as lágrimas displicentes
Dos olhos de qualquer pessoa
São todas transparentes
Digam-me qual é má ou boa…

Cada um possui sua raça ou etnia
E ninguém deve ser segregado
Pela sua religião, sexo ou cidadania
Cada um é igual e deve ser civilizado

Mas começa pelo berço
A moldar a mente a teus filhos
Ou podes rezar 20 terços
Que sempre haverá sarilhos…

E lá está o ADN a comprovar
Que somos todos uma família
Igualmente devemos tratar
E não criar qualquer quezília

Rosa Alentejana Felisbela
18/11/2017
(imagem da net)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Chuva


Encontro-te no lugar
de sempre

é final de dia
e o horizonte irrompe
no seu latejar
de nostalgia

ali está o mar de sementes
cansadas de tanta sede
na sua palidez
desmesurada

atraca novamente
a saudade no porto
que esconde o teu nome

e as amarras
de arame farpado
ferem o barro esgotado
das minhas mãos

vejo cair o crepúsculo
numa folha de outono
e uma papoila morre
sem conhecer o teu rosto

parte novamente uma cegonha
carregada de beijos meus

quem sabe se um dia
chegará ao destino?

quem sabe se as nuvens
se emocionam com o perfume
das minhas lágrimas?

Rosa Alentejana Felisbela
17/11/2017
(imagem da net)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Altruísmo


Coloca-te no lugar
de quem tens na frente
antes de tomar qualquer resolução.
Há palavras que ferem
e outras que beijam...
Prefiro o beijo da natureza
que é sempre acolhedora!
Sê abraço e não espinho!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Tempo


Tanto tempo passado
e a noite chega
como abraço reconciliado
numa esperança
única...

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Procuras


Julgas conhecer
todo o meu vocabulário
e que já não há palavra
para demover o teu silêncio

mas acredita que cada verso
polido e arbitrário
confere ao meu discurso
a fluência
que têm as lágrimas obscuras

e que a sombra
produzida pelo verbo aceso
é alternativa clara
que sustenta a cal pura
do muro aberto aos dedos
de quem se revê na ternura

e a brisa espalha sílabas
de pedras lisas que se empilham
num equilíbrio de pontes
de palavras futuras

deixo-as cair
sobre a página regularmente
num baile anunciando
a inocência do rodopio
do rio que procuras

Rosa Alentejana Felisbela
15/11/2017
(imagem da net)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sós na pluralidade da guerra dos outros


Protejo a bala abraçando a arma porque a tua voz, retornada, me alucina o pensamento. O medo em barda defende-me o peito, atento ao movimento dos dedos destemidos… Choro a lágrima da criança alheia à miséria, debatendo o tom do choro conforme a fome de alimento, ou amor, ou calor. Cerro os dentes como quem guerreia pela posição mais exata de cometer o crime da gula pelo aconchego. Mas a roupa colada ao corpo enregelado já perdeu o rumo na escuridão. Não conhece a cor do chão entranhado até à mácula da alma. Porque nenhum músculo compreende a suavidade de uma cama macia. Nem um único olhar consegue descortinar a raça da pele rasgada. Os pés correm ao movimento dos canaviais cravados até às moléculas infernais do sofrimento. Haverá um arco-íris por trás do monte da noite? Haverá uma voz que diz “anda, aqui ficas segura” no final da linha escrita a fogo e balas com sabor a limão verde e a suco gástrico coberto da neblina fria de fuga? Somos tão sós na pluralidade das guerras dos outros…

Rosa Alentejana Felisbela
13/11/2017
(imagem da net)

domingo, 12 de novembro de 2017

Cozinhar sonhos


Cozinhar sonhos
pode ser uma tarefa perigosa:
mesmo que a delicadeza
crie a melhor massa,
se faltar o condimento
do amor verdadeiro,
o sabor pode sair
bastante amargo.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 11 de novembro de 2017

Ponto branco


Sigo o rasto, o veio
da madeira branda
de azul

Afago, torneio
deslizando na demanda
no meu sul

meço com cautela
o traço e pinto
e cego e recuo

nasce o branco
num ponto
pregado celeste

quando o círculo
rodeia o aro
nu

Rosa Alentejana Felisbela
11/11/2017
(imagem da net)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O império da saudade


Há um equilíbrio perfeito
nas notas da canção
que a circunstancia suspende
no timbre da voz

essa que perdeste reverbera
essa que perdeste entoa
a solidão
atroz

mais do que um cântico
perpendicular à terra
ressoa na chuva
cadente…

e a saudade
simplesmente impera,
se a sentires nas nervuras
da mão…

Rosa Alentejana Felisbela
09/11/2017
(imagem da net)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Da fonte à doçura


Há um crescente
de sede fresca
aceso entre os juncos

altar de pedra
de fonte abundante
onde bebo
o teu nome

tento não o secar
de avidez

percorres as duras fissuras
que a terra abunda
em fuga abrupta

e o músculo do desejo
tonto
recebe a ternura verdejante
e pura

e eu beijo a pedra
que venero

fortifico o ventre
floresço

e frutifico o amor
plena de pomos
de doçura

Rosa Alentejana Felisbela
08/11/2017
(imagem da net)

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Nome


Bailam-me abismos
à beira da boca

nuvens de nadas
nidificam-me nos olhos

chávenas de chuvas
num choro louco

leques calando
o calor do colo

e a sorte lançada
é lança que balança

o corpo, a cal da casa
no incómodo caminho da fome

não me cales, não te cales
voa nas asas da alma

chama o meu nome!

05/11/2017
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

domingo, 5 de novembro de 2017

Os teus poemas


Guardo tudo o que sinto.

As lembranças borboleteando
na almofada perfumada
de eucalipto e alfazema dos teus poemas…

Os cabelos desajeitados
da tarde quente cobrindo-me os olhos
de fonemas, nos teus poemas…

Os corpos amarrotados, sedentos de consoantes,
ajoelhados sobre os lençóis de folhas
mergulhadas em morfemas dos teus poemas…

O chuveiro desarrumando os corpos
inventados de dilemas,
entre o ficar e o partir…dos teus poemas…

A cumplicidade das gargalhadas proscritas
e as escritas exaustas de amor,
como fitas de cinema…nos teus poemas…

A verdadeira mentira da saliva misturada,
por sistema, nos beijos
entre terra e mar das fabulações dos teus poemas…

E aquele abraço e o pedaço
levado para o grafema gravado…nos teus poemas…

Guardo tudo o que sinto e tudo
é tão puro como cada verso calado…do meu poema!

05/11/2017
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 4 de novembro de 2017

Ferida


Limpa-me a ferida
que a farpa desenhou
na minha pele

enxuga-me o sangue
lambe
se necessário for

corrigindo o trajeto
da pressa que a compressa
percorreu

revelando a dor
que o teu hálito
antissético teceu

quero que saibas
que o penso rápido
não cura, mas procura

a fissura para vedar
a forma ímpar
que temos
de nos entender
e amar

Rosa Alentejana Felisbela
03/11/2017
(imagem da net)

Perpetuado


Estudei milimetricamente
a voz do teu corpo
sazonado

como se assim pudesse
achar o perfume
dos nossos peitos sincopados

movidos a certezas lentas
em quartos de lua
que a memória reinventou

e recriou num manso roçar
de lábios, num suave
crepitar dos dedos hábeis

mas não encontrou
o argumento
por dentro dos abraços

que nos descrevesse
como atores ímpares
do filme que nos foi
furtado

e recorri ao rasto
dos fios e linhas que nunca
foram quebrados

e inventei as fitas
coloridas das metáforas
e fiz laços

assim continuaremos
ligados
pelo amor às entrelinhas

num final feliz
que se alinha no poema
eternamente perpetuado

Rosa Alentejana Felisbela
04/11/2017
(imagem da net)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Até já, meu amor


Pretendo matar o poema
da memória:
disparo vogais, à queima roupa
e pronto, fim
da história

mas a sílaba silente e rouca
fica latejando num frenesim
dentro do peito
e tolda-me a visão
escorre-me pelo leito
da boca, onde bombeia
o coração

de súbito renasce a guerra
acesa pelas letras arrumadas
no gatilho da tua mão
murmurando o meu nome
- Perdão!

E eu, soldado raso do amor
deixo fugir a nudez
a alma pura na palidez
exangue de versos
mas plena de abismos
maiores, de solidão

e sopro para longe a ausência
e abraço-te longamente
no perfume de um cravo
que te coloco na lapela
como se te vestisse de mim
uma vez mais
e tu dizes:

- És um caso sem solução!
E sorrindo atiras-me
um beijo
por trás do portão…

Rosa Alentejana Felisbela
03/11/2017
(imagem da net)

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Renovo


Reitero o caminho
bruxuleante das sombras
fálicas, fendidas
fascinantes

emergentes
contidas nos orgasmos
das sementes

lascivamente
deitadas nas poças
na entrada das casas

correndo p’los regatos
p’los corpos
e p’lo cio dos gatos

por cima do fumo
do usufruto
das lareiras

cismando no ronronar
a gemer sem parar
dos telhados

ao ritmo dos rastos
deixados em cada ventre
a florescer

Rosa Alentejana Felisbela
01/11/2017
(imagem da net)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Depois das cinzas


Fumega-me a brasa
da palavra
– a chave –
de encontro à boca

e se a míngua
toca
na língua
advoga a incandescência
do palato

-o vibrato-

do ventre
que verde
por dentro é palha
que ainda acende
só por te ver!

Rosa Alentejana Felisbela
01/11/2017
(imagem de milkmycoconuts)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Perfume a maçã madura

Há um perfume
à flor da macieira
na pele madura
do teu corpo:
amo o poema saboroso
que me fica na boca!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 28 de outubro de 2017

Por ti esta cegueira das palavras


Quantos Cupidos amorosos e setas
gastas nas costas das nossas mãos,
se as palavras ficam cegas
quando me lês e me tocas fundo no coração…

Para quê escrever histórias
ao compasso ultrapassado do tempo
se são as nossas memórias as mais lindas que invento?

Desfio o fio da vida pelas linhas interrompidas
e recolho as afrontas de que me arrependo
como se o espelho tivesse o alento de apagar as despedidas…

Se és digno e meritório e somos simples mortais
desconheço a mudança desta hora
de queda de folhas outonais…

Os ponteiros do relógio devem estar sincronizados
e a contagem decrescente deve iniciar o momento
em que estamos frente a frente, seguindo depois lado a lado!

Rosa Alentejana Felisbela
28/10/2017
(imagem da net)

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Abissal


Sinto o sabor
da verdade
coalhada

e a cal
doce e ardente
indiferente
na amurada

o aroma
da chuva
movendo a pena
mordendo a pele
arrepiada

os dentes
da solidão
presos na pressa
como presa
de animal

e a gula pelos beijos
a sede sem pejos
e a fome infernal

buscando o corpo
amado
numa saudade
abissal

Rosa Alentejana Felisbela
27/10/2017
(imagem da net)

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Rasgarias tu o poema?


Sabes, sonhei em rasgar o poema. Rasgaria em fitas ou faria foles para acender o pavio dos desabafos. Rasgaria, à cautela, todas as letras, vogais vagas e consoantes consoante o burburinho formado, precavendo a resolução final. Só guardava uma palavra, para saborearmos juntos, à beira do beijo largo. E com o som soberbo do afago da lira embriagada à nossa volta. Então, fluiriam palavras bailarinas num “plie” ofegante de cópulas, tudo feito pela procriação de um poema decente aos olhos atentos da dança…Depois? Descansarias nos meus braços, embalado pela letargia da ternura, adormecendo cansado da volúpia do mito que criaria à nossa volta. Voariam os restos ao sabor da brisa dos verbos abertos. Precipitar-se-iam rituais de consolo pela inspiração do momento…Mas no final, rasgarias tu o poema?

Rosa Alentejana Felisbela
26/10/2017
(imagem da net)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A ti Poesia


Há um clamor
de palavras vazias
em torrente

digito a tinta

sei-a de cor

e o papel chora
vilanias em pedra

em seixos lisos
feitos de esperas
sempre a chegar

como rios rebeldes
abertos
de par em par

e a soma de todas
as letras
são poemas pobres

podres da seca
onde me vou debruçar

retomo a margem
e segredo o segredo
que a ninguém vou revelar:

- amo-te num tom rosado
safado e peculiar

mas a água arruma
o que o rumo toma
e nada altera

Todos choram algum dia
toda a pedra desaparece
todo o rio corre
até chegar à Foz
e desaguar

E as palavras?

São rios, são pedras
são silêncios e vícios
crescendo nas margens
da memória
sem lugar

Rosa Alentejana Felisbela
25/10/2017
(imagem da net)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Será?

Será que te conheço?
Alguma vez te conheci?
De repente o mundo parece
tão grande e o meu "quadrado"
resume-se a um simples grão de pó...
Tenho uma gota na palma da mão,
e um pensamento disforme que me dói.
E a angústia da lâmina a cortar-me a pele...

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

domingo, 22 de outubro de 2017

Equilíbrio


Se o egoismo pagasse imposto,
muita gente já teria ido à falência.
O amor é o caminho mais simples. Acham caro?
O melhor é pagar para ver até onde vai a hipocrisia...
Seja qual for o correto,
cá estamos para mais uma semana
de "corda bamba", a tentar o equilíbrio.
Que seja, pelo menos, alegre!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Caminho de terra


Desde o caminho
de terra
bem calcado

subindo ermos
declives
picos sem ar

sobe o calor
por frestas
pequeninas

encontrando fendas
e lugares
desconhecidos
nublados

até que o orvalho
assoma
à mata de odor
maravilhada

e se solta a seta
do arco
repentina

que a prumo
se enterra
na terra molhada

Rosa Alentejana Felisbela
22/10/2017
(imagem da net)

Não prometas...

Claridade


O meu corpo
é campo
de tojo e esteva
bebendo bagas
de descaminhos
triturados pelas trevas

e toda a noite
é noiva
que me veste
espelhando tristezas
no véu bramindo
lágrimas
de ribeiros bravos
entre as pedras
do destino

mas o perfume
do orvalho é luz
que procuro
ao compor
uma aurora
mesmo antes
de um suspiro
me enlouquecer

Rosa Alentejana Felisbela
22/10/2017
(Quadro de LOUI JOVER)

sábado, 21 de outubro de 2017

Silêncio: ação!!


Cansada dos vis cartéis
tramando as vidas populares
e das corjas em contratos
de milhões
esquecendo os pobres sem lares

Cansada dos riscos máximos
só protegerem as infraestruturas
mas os seguros caros
não cobrirem as vidas mais duras

Cansada de lucros para alguns
e também das manipulações
das estatísticas e das cabalas
e de não haver concretas
decisões

Triste com os suicídios
e com a atual emigração
zangada com os políticos
que só fazem “artigos de opinião”

Triste com o levantar
das “cristas” e com o cair
das “máscaras”
porque não é só a indignação
que constrói casas
e mata fome e mágoas

Todos nós reconhecemos
a tragédia das gentes
na televisão
e de lágrimas nos olhos
todos somos condolentes

Mas quem tem bolhas nas mãos
e a única roupa no corpo
faz de fénix para a recuperação
aguardando a solidariedade
para renascer o que ficou morto

Falta tanto, falta tanto!
E a reorganização do território
nacional, e o reflorestamento
e a limpeza e o vigilante florestal…

Então e a higiene mental
e bucal e alimentar?

Que chegue a todos nós
a esperança
criando melhorias de vida
e alterando de facto
a educação
e o rumo de Portugal!

Rosa Alentejana Felisbela
21/10/2017
(imagem da net)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ermo


Suspendo o cálice
para que a sede morra
por dentro da carne

Suspendo o pão
para que a fome cesse
na masmorra do sangue

e bebo o vento
e como o cheiro a terra
molhada

na prisão
só as grades iluminam
a solidão cansada

20/10/2017
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Poema inacabado


Mais uma vez
mordo o silêncio
da falta que me fazes

és fruta madura
corpo ausente
que não trazes

filamento
aceso na luz baça
do passado

fome que não cura
choque perverso
na língua quente

sílaba dormente
em poema inacabado

Rosa Alentejana Felisbela
18/10/2017
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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Analepse


Há tanto tempo que não falamos! Passaram horas, dias, meses, anos? Não me recordo do tema da última conversa. Foi em prosa ou em verso? Trazias nas mãos uma rosa, ou um “bouquet” completo? Parece-me que fiquei com uma pétala juntinho ao coração. Era uma pétala vermelha, da cor do sangue que corre descompassado nas minhas veias sempre que te aproximas. Era uma pétala perfumada. Sim, tinha o perfume de um dia inteiro no quarto e uma vida inteira na lembrança. Era uma pétala cristalina que me deixou os olhos rasos de alegria e tantas frases nas mãos! Lembras-te das entrelinhas daqui até à lua? Era o nosso caminho feito de cassiopeias mágicas e mantos sagrados de tantos segredos. Para nós havia apenas o céu e o brilho das pedras de algodão doce que pisávamos junto à margem entre o sonho e a realidade. Sim, havia um sonho. Só não me recordo se o sonhei sozinha ou sonhávamos ambos em cores diferentes. A música permaneceu sobre a trovoada e a toada dos versos continua a encantar-me os sentidos. Ah! Agora sim, lembro-me que foram versos que me cantaste na tua voz de arco-íris, enquanto eu olhava o poente pleno de mel por trás da barragem. Se a memória não me falha, disseste “adoro-te” e beijaste-me até que escureceu. Como poderia esquecer-me do tema da conversa? Falámos sobre o universo. Aquele que conspira a favor de um amor muito maior. O meu sorriso é para ti.

Rosa Alentejana Felisbela
18/10/2017
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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Deserto de nada


Arrasto as palavras
lentamente

da poeira dos versos
bebo um trago

e das mãos calejadas
- a semente -

alimento a lembrança
do corpo - o abraço -

queria que florescesse
pelo campo

o poema renascido
da esperança

mas resta o restolho
queimado

- a dor lancinante -

e um campo deserto
de nada

Rosa Alentejana Felisbela
17/10/2017
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segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Desconcerto


Desdobra-se o calor
de norte a sul
num origami medonho

Lambem as línguas
o sangue; o verde; o azul
- sem dono -

E o céu tristonho
qual gigante Adamastor
num abraço compressor

à palha seca
à terra exangue
à impotência

E a míngua d’água
patente nos olhos rasos
da gente perdida em derredor…

Rosa Alentejana Felisbela
16/10/2017

domingo, 15 de outubro de 2017

Cidade de pedra


Na cidade vestida de frescor
procuro o caminho
de outrora

e a neblina
devagarinho
vai mordendo cada pedra

cada poro do meu corpo
- os meus olhos -
hora a hora

passo pelas pontes
acariciadas pelas mãos
do antigo escultor

e na lembrança
a fonte que não medra
perante tanta dor

descubro que a raiz
do orvalho nos meus olhos
és tu – pensamento sonhador

Rosa Alentejana Felisbela
14/10/2017
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sábado, 14 de outubro de 2017

Tons corretos


Não me fales na música
acuada de tantos orgasmos
na lombada do livro

fui eu que li
foste tu que escreveste
e ambos a escutámos

de um lado a morte
dos sentidos febris

do outro a queda
dos abismos pueris

e o banco do jardim
incomparável poema
que sorri

albergue dons tons
corretos
que devias colocar no lugar

e aquela voz
que sempre sugere o beijar…

Rosa Alentejana Felisbela
11/10/2017
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