sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Beco


É no beco que passas
e cheiras o cheiro
a urina
do chulo
da puta
da sina
dia inteiro
que assina
o preço
e que faz
o serviço
- a cadeia -

É no beco que passas
e cheiras a “passa”
do fumo
do charro
e vês a seringa
do chuto
que singra
nas veias
e odeias
odeias!
a vida
e a sida
- a cadeia -

É no beco que passas
e te assustas
com a rusga
da noite
do bafo
a bagaço
e a bófia
de um salto
assalta
o beco
e leva
a liberdade
p´rá cadeia!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

apenas um pouco de ousadia


quando estás para chegar o desassossego marca pontos nas borboletas do meu ventre como se um caçador atirasse a rede e deixasse sair o ar

é então, que os sonhos brancos sobem as paredes do quarto e fica tudo tão claro

até a janela se enche de palavras pequenas enquanto as cortinas
sussurram saudades

enfeito o chão com pétalas rosas que se abrem como lábios sedentos dos teus passos

uma jarra ajeita as tulipas brancas misturadas com sinceridades ansiando o teu olhar

a colcha de tecido macio do pêssego abre os braços para que o teu corpo, em flor, incendeie o tato

o meu vestido perde-se da pele dourada como abelha procurando os favos de mel da tua boca

e quando a porta se abre deixas a ausência presa no trinco do lado de fora: não incomodar

e tu…entras na minha fome de pão ázimo com a faca afiada num suplício manso investindo p’la noite dentro…

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Tirano


Vens com a força
que tem a trapaça
do mar

recolhes-te à duna
à doca à escarpa
e beijas com a espuma
as cordas do cais
âncoras
areais
ânsias
ais

recolhes-te ao fundo
negro
do cetro de Neptuno
onde és rei
e arrastas as metades
solitárias
num gesto profano
que nada
tem de humano
mas de vil monstro
tirano!

Rosa Alentejana Felisbela
12/08/2017
(imagem da net)

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Simplesmente sem perdão


Fome. Tanta fome nas mãos:
de gratidão,
de amor, de frontalidade…

Comem-se amargamente
as letras ensopadas
de certezas. Uma pitada
de melancolia tempera a vida
- sem sal -

O descuido transborda
na panela que consola “online”
e os “usuários” lambuzam-se
na oração que precede a refeição:
a cruz fica no rosto
em sinal de fé
- perdida -

Por fim, mais um poema
na arte peregrina
da vida.

Os joelhos ensanguentados,
as palmas das mãos doridas
de tanto tentar expiar os pecados…

E tudo justifica o silêncio
- sem perdão -

Rosa Alentejana Felisbela
06/08/2017

sábado, 29 de julho de 2017

da indiferença


E a cegonha
cega de indiferença
segue o rumo
rio acima
num retrocesso grave
e desumano

marginalizando a folha
que pensa
nos raios de sol
caídos a prumo
sobre o seu coração

exorcizando
as palavras
de amor profano

e suas asas brancas
desenrolando
sibilam uma lágrima
baixinho

pousando
na árvore da sapiência
recuperando o ninho

seus filhos cuidando

como se a sua alma
ainda tivesse salvação!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

caminho


O caminho é breve,
as pegadas apagam-se...tratemos
de caminhar em terra fime,
para evitar deslizes.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

céu da boca


Bebi uma chávena de suspiros
de uma só vez.
Depois cambaleei de emoções.
Só o perfume das nuvens
deambulou pelos meus pensamentos
e perdeu-se entre a ilusão
e a saudade.
Há sempre uma nudez premente
no céu da boca.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 24 de junho de 2017

Professor com orgulho


Em dia de exame escolar
é distribuído o serviço
Enquanto a uns cabe ir vigiar
aos suplentes, cabe o paraíso

Paraíso na sala de professores
onde existe o ar condicionado
Uns tiram fotocópias a cores
outros de computador ligado…

Ligado deve estar o par
de vigilantes, em sintonia
Mas sem telemóvel para jogar
acabam-lhes com a alegria!

Alegria era todos saberem
exatamente as suas funções
para ao secretariado pouparem
algumas tolas confusões…

Confusões não são permitidas
na escrita do nome da disciplina
no código, no horário, nas tolerâncias
tudo no quadro, com caneta fina.

Fina ou grossa que seja a voz
de quem, à porta, faz a “chamada”
Preciosa é a ajuda veloz
de quem os senta em linha “serpenteada”

“Serpenteada” e sem enganos
tal como a leitura das “advertências”:
a tinta indelével, todos os anos,
e os procedimentos para as desistências.

Desistências (ou não) preenchem o cabeçalho
com a assinatura, a fase, a versão
e por vezes é o “cabo do trabalho”
quando esquecem o cartão de cidadão!


Cidadão é agora o professor
que abre o saco com a tesoura
distribuindo o exame, sempre ao dispor,
dando esclarecimentos com brandura

Brandura característica da primeira hora
que decorre sem qualquer transtorno
Marcham ligeiros, os professores agora
sem ligar se o dia está frio ou morno

Morno que passa a quente e a descambar,
a marcha torna-se então lenta…
A ciática a doer, os rins a fraquejar
e a bexiga cheia que já “apoquenta”

Apoquenta também o calor
e a sede. A fome é já tamanha
que o som do estômago é um pavor,
mira-se uma cadeira, com manha…

Manha acobertada, acabam
por se sentar à vez
encostados ao cotovelo (já sonham)
em sair dali…que insensatez!

Insensatez a dos “moços” que ficam
mais a meia hora de tolerância
E o calor, a fome, o sono marcam
mais uma missão cumprida de vigilância!

Rosa Alentejana Felisbela
24/06/2017
(imagem da net)

domingo, 18 de junho de 2017

perda


Eu estou cheia de calor. Não tenho ar condicionado. Estou literalmente a "destilar". Mas o que dirão os Bombeiros com aquelas fardas e botas, perante a violência das chamas? Perante a temperatura da terra que pisam? 36 horas sem poderem respirar convenientemente😔 E as pessoas apanhadas nas estradas em fuga, sem fuga? E as que ficam sem casa para poderem ter algo que as refresque? Não há volta a dar...A situação é bem mais grave que os nossos umbigos. Apostar na prevenção das florestas? Sim, mas antes que a própria Natureza ou um lunático qualquer se lembre de tirar vidas...

Rosa Alentejana Felisbela

sábado, 17 de junho de 2017

adolescência


Instante adolescente
na corrente do sangue
e o pânico da dúvida
em presente hesitante

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sombra


És contorno escurecido
que me reflete sem adorno
com o sol a pique

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 14 de junho de 2017

serenata


Derrama-se a escuridão na abóbada celeste,
enquanto a lua acorda
o canto das cigarras
para a serenata
deixada pelo rasto
dos nossos corpos!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sismo


Existe um sismo
entre o meu coração e o teu
quando nos olhamos:
pedaço de adolescência
escrita a borboletas
no nosso abraço!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

terça-feira, 13 de junho de 2017

sonhar


Tomei o gosto do estio
num chá adocicado
pelo teu olhar.
Sorri e voltei a sonhar!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

vaga


Sorvo a vaga do teu sabor
quando mareio no teu amor

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

faca


Nada há mais subtilmente amoroso
que a faca que enterras no poço
da alma amada...

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

feelings


Sinto as palavras que me doas
como uma constante despedida
e dói-me...Mas quando as renovas
reconstróis-me e sinto-me rendida...
Encantada...

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

terça-feira, 6 de junho de 2017

Promessas


E sigo compreendendo que o manto de ébano da noite
sucede à manta colorida do dia...
E que os meus olhos são pirilampos
em torno da tua silhueta!
Traz-me a poalha do teu sorriso
sussurrando constelações de nenúfares...
Prometo-te a via láctea do céu da minha boca!
Ah...mas não demores,
ou corres o risco de eu adormecer
no algodão doce dos sonhos que me prometeste...

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Noiva da tua vontade


Tenho o sabor das laranjas
nos pomos dos meus lábios
tenho beijos de ti cativos
do teu néctar e ternuras ávidos

tenho o aroma das flores
prisioneiro nos meus cabelos
enternecendo as cores
que guardas nos teus anelos

na brancura do meu vestido
reflete-se a doçura do teu olhar
tão intenso e enternecido
levas-me sempre ao altar

e sinto-me noiva das lisonjas
que as tuas mãos segredam
sempre que tocas as franjas
que o meu decote veneram


Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 3 de junho de 2017

Brindemos

Silenciosa


Há um desalinho
enigmático na casa
- abandonada -
sem postigo na porta
e de tinta desgastada

só o batente ruidoso
acorda o demorado segredo
que ali existiu

o fino fio de amor
partiu-se
mesmo no centro
da sala

e gritou na sua voz
voraz
para o telhado oblíquo

- eco que a noite calou -

e as janelas, sem paz,
espreitaram o cheiro
da cal caída
e das escadas
penosas

- fugaz
porto de abrigo -

e a palavra “amor” embalou
um espelho imenso
e espesso de mudez
que olhou fixamente o quarto
onde faíscas efémeras
tomaram, outrora, palavras insanas
como tranquilizante
da insónia

- essa que a cama emana -

e mesmo a sombra
nas ombreiras salitrosas
esqueceu as teias
que as aranhas
- obreiras poderosas -
costuraram ao longo
dessa casa
silenciosa.

Rosa Alentejana Felisbela

(imagem da net)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Doce cegueira


O teu amor é doce cegueira
e tem um gosto a atrevimento
quando me passa p’lo pensamento
e me torna “A” musa feiticeira

lançando enganos ao vago vento
atiças-me nas veias a fogueira
quero a ti render-me a vida inteira
só tu me entregas nas mãos o alento

és colírio, elixir, fantasia
rima perfeita escrita ao meu jeito
nos meus olhos, ventre e poesia

que me domina a pele e recria
o meu sorriso e as formas do meu leito
numa mansa e feliz ousadia…


Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Apreensão


Riscam relâmpagos
o céu

enquanto palavras
lembrando nuvens
de breu
se encontram
no estrondoso trovão

choram gotas
pelos telhados
ao encontro
do chão

e uma poça
silenciosa
abre a boca

cheia

de apreensão!
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

terça-feira, 30 de maio de 2017

Artimanha


Vejo um’aranha qu’a teia tece
Mansamente em seu árduo labor
Assim como um amante amador
Que bem depressa se enternece

Diante das asas de um beija-flor
Que desejando beijar pudesse
A boca doce que a flor parece
Pousando nela todo o seu ardor

Porém reparo na artimanha
Lograda pela sádica aranha
Matando o seu frágil parceiro

E penso na sorte tamanha
Que é a que nos acompanha
Quando o amor é verdadeiro

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Favores


Conheço uma trova recente
Cantada p’lo vento Nordeste
Cujo som soprado e agreste
Ressoa nos muros da mente

Diz qu’as palavras que trouxeste
E que amor usaste tão sabiamente
Na verdade qu’o coração consente
São só brumas qu’a saudade veste

Tecidas por Graças e Prazeres
Maravilhando os semblantes
Tal versos de amores vibrantes

Mas não são mais que favores
Colhidos aos céus dos amantes
Efémeros, cálidos e brilhantes…

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

domingo, 28 de maio de 2017

Pretérito


Dor adormecida
- anestesia -

parto

grávida de silêncio
saudade fugida

arte

tormentoso
deserto
inocente

e perto a névoa
metamorfose
da neve

- e tudo ontem –

sigilo morto
que nos contém
parte a parte

e parte
um pretérito
de alguém…

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 27 de maio de 2017

Flashes


Na planície extensa e rasa,
mal se ouve o único lince
a caminhar, na sua demanda
por caça

aqui vinga o trigo alto
ali nasce a esteva rasteira
e o som da cigarra
na eira sempre a cantar

mesmo atrás do silvado
nidifica a perdiz
de pena parda
com o bico vermelho afiado
que escapa ao lince, por um triz

bem no cimo da única árvore
alta do descampado
poisa a cegonha branca
chegando em voo picado

ao longe ladra o cão
junto ao rebanho do pastor
que mata a sede na barragem
durante a hora do calor

por entre a vegetação
esconde-se a abetarda
castanha assustada,
que num voo curto,
o seu macho acompanha

Mas neste campo majestoso
surge um monte
como vizinho inesperado
– é o turismo –
que nos convida para
um cálice de vinho
prazeroso num recanto
encantado!

Rosa Alentejana Felisbela


Meu Alentejo


O coração do Alentejo bate ao ritmo próprio da madorna da mãe terra: um ninho fértil.
Esta terra acalenta a raiz de cada planta, dá vida ao girassol e ao rosmaninho. Produz a salsa e a hortelã. Gera o coentro e o alho. E são tantos os perfumes pela manhã, que semeia ao derredor, que não há quem não goste de saborear o que tem de melhor…inclusive o gostoso azeite na açorda!
Com o tempero do tempo torna-se no casulo perfeito para o brotar do mosto eleito, esse que nos delicia ao beber: o vinho.
E na sua extremosa metamorfose, acolhe lá bem no cimo das árvores a cegonha, encobre entre as ramagens o voo do estorninho e esconde entre a vegetação rasteira as cores da abetarda.
Mas quando sopra o vento levante, na aurora desse instante, ouve-se o “ponto” sozinho: é o cante, embelezando o som de cada fonte, matando a sede da “moda” ao caminhante, que vem descendo a ladeira do caminho. Levanta-se o pó da estrada, da cor do barro moldável, e lembra-me a “quarta” ou “enfusa,” que antes transportava a água fresquinha.
E é este sul de trigo, tão trigueiro nas faces, que mata a fome de pão e me faz criar asas…Tenho-o tatuado nas veias, num azul de céu e harmonia ao compasso do coração, batendo ao ritmo da madorna, e que nos convida à fruição.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Amor-perfeito


Ainda o sol
Mal nascia, já
O calor percorria os
Rios das minhas veias, perdidas

Parecendo
Entender o
Rio do nosso querer
Faiscando e
Envolvendo
Intensamente
Todo o corpo, inclemente como
O perfume mais que perfeito das nossas vidas!

Rosa Alentejana Felisbela

domingo, 21 de maio de 2017

Myrtilis


Sobe-nos à cabeça
o “chamado à oração”
quando o canto se derrama
p’la vila, p’la rua, p’lo coração

sobem as ruas, sem pressa
as tendas, as cores,
as peles,
as sombras,
as peças de vidro – na mão

e o odor a incenso
e a chá de “Alhambra”
murmura mil essências
aos sentidos
que ficam em contemplação

sabor a “baklava”
sabor a “kebab”
e as maravilhas do óleo
de “Argão”

descida íngreme
degrau exigente
e a gente sorri
às letras do “Alcorão”

Rosa Alentejana Felisbela
21/05/2017