segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Já não te espero


Como o rio de cimento
que corre p’los tijolos
em silêncio

confundo o muro
confundo o tudo
que tivemos

e a metamorfose
é banco, é branco
é ocre que invento
p’ra não transparecer

e vou morrendo
e vou crendo

que um dia
deixo
de ser

fantasia

num qualquer seixo
de rio
a correr…

Rosa Alentejana Felisbela
11/12/2017
(brad spencer brick sculpture)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Vem...

Vem murmurar as palavras doces
que o mel guardou no pensamento
da tua companhia...
Dar-me o beijo que a poesia promete
nas nervuras da madeira...
Entregar-me o abraço
que libertaste na despedida
que um dia virá...
Sou-te banco de jardim
aguardando o pássaro
que fugiu do ninho do meu coração...
Amo-te nas asas da imaginação!

Rosa Alentejana Felisbela
(escultura de Jesus Curiá Pérez)

Consciência

Quando a consciência se senta
no baloiço da ilusão,
muitas palavras ecoam,
muitas ternuras se suspedem,
e tantas razões voam
pela boca do coração!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Pousar palavras

Queria pousar as palavras sobre a paisagem de inverno, como ave planando sobre as nuvens que o caramelo lambeu por dentro, ou sobre as árvores que o breu assumiu colheita sua, ou sobre os torrões como crânios carecas onde nasceram pequenas cânulas amareladas. Mas não me recordo do cheiro da terra molhada para poder fazê-lo. Perdi as gotas algures entre um fardo pejado de bafo poeirento, ou nas fendas abertas da cortiça ressequida. Pelo ar um vento bravio bordeja as folhas das azinheiras curtidas pela imensidão. E o sabor a cal penetra nas paredes, numa tentativa de cobrir a caliça desabotoada, folha a folha, da casa. Sento-me no poial desgastado de cimento, onde as inscrições do ano em que foi feito esmorecem a cada dia que passa. Ouço a toada dos cães ao longe e julgo, por momentos, escutar o som de passos…Mas não, foi só a garra do tempo arranhando um pouco mais de recordações.

08/12/2017
Rosa Alentejana Felisbela

(imagem de Filomena Janes Semedo)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Tenho saudades


Tenho saudades! Admito que errei muitas vezes, mas também acertei muitas outras. Sei que não sou perfeita. Mas quem o é? Podem passar dias, meses, anos, que nunca me esquecerei. O olhar, a voz, o sorriso, as palavras, as gargalhadas e um mundo de recordações. Às vezes ficam mais "frescas" e alvejam-me a memória, provocando as lágrimas. Às vezes ficam a brincar-me no pensamento e nasce-me o sorriso nos lábios. Grávida de ternura, abraço o abraço e fico assim, apenas sozinha na panaceia que me tolda o coração. Sou humana e quero acreditar.

Rosa Alentejana Felisbela

Valorizar


Valorizar o próximo é, no mínimo, embaraçoso para quem tem um ego do tamanho do mundo! Quantas vezes precisamos de um incentivo para continuar, mas negam-nos o "protagonismo" para não se acharem inferiores? Quantas vezes nos olham de lado por dar a mão a quem tem lágrimas nos olhos? Quantas vezes nos acham "seres estranhos" por dizermos "obrigada pela ajuda"...Quantas vezes percebemos que não somos desejados por perto, mas enquanto "fazemos falta", ali somos mantidos? A questão está em não desistir. Continuar de cabeça erguida e teimosamente de sorriso no rosto. Amanhã será um novo dia, pleno de novas conquistas!

Rosa Alentejana Felisbela

Relojoeiro louco


E a brisa veio
despentear as horas
desgrenhar os minutos
como pente sem dentes
ou com eles gretados

E a brisa
desalinhou os ponteiros
desafinou as roldanas
como números sobrepostos
passando desafinados

E a brisa
desmontou todas as peças
uma a uma,
como relojoeiro louco
comendo o tempo (tão pouco)
de um simples beijo –apaixonado!

Era a corda
do mostrador partida
caindo na rotação
incerta do coração
parando
num último suspiro
destroçado

Rosa Alentejana Felisbela
03/12/2017
(imagem da net)