domingo, 17 de junho de 2018

ideias abandonadas


Passam palavras a meu lado,
sem que me toquem ou queiram...
Definitivamente,
sou ponto poente,
rasgando ideias abandonadas.

Rosa Alentejana Felisbela

sábado, 16 de junho de 2018

Junina


Solta-se a cascata
da métrica
junina

uma hora, uma data
- a tua menina -

o teu ombro
o teu avesso

num som
num verso

e o tempo a galope
tal este amor
- bravio enfoque -

abraço apertado
desassossego
desejado

espelho maduro
da sorte
- que futuro?

Rosa Alentejana Felisbela
17/06/2018

Atena

Gosto de rasgar as palavras que me dás. Sobretudo as que falam de desprezo e retidão. Quem és tu para me costurar a verdade? Agora que penso nisso creio que há uma linha ténue entre o que dizes de verdade e a verdade que sentes. Por ironia, pode existir uma sílaba coincidente, um som ambíguo, um flash de “amizade” a cintilar nos olhos. Mas, quando o contrato textual prescreve, devido a um ataque de teimosia elevada ao cubo, a barganha é vomitada e fica nua. Sim, nua, sobre a mesa. Não adiantam as rendas púdicas e brancas da toalha, ou os guardanapos a condizer. Nem as boas maneiras e palavras “caras” te valem. Chegas a ser inconveniente na forma de endereçar injúrias, no tratamento medíocre que ofereces ao teu “semelhante”. Os copos de cristal quebram-se sob o teu hálito hipócrita e os talheres dourados adquirem aquele brilho baço que não enganam a limpeza dos pensamentos. A pior perversão chama-se “vaidade” e encontra-se no espelho que Narciso te ofereceu nas festas Juninas. Bem sabes, não tens o poder das Parcas…Mas acreditas que não precisas de ninguém! Lamento informar-te, não pertences a qualquer Olimpo. Aproveita a vida, olha sinceramente nos olhos cada palavra que dizes, abraça um pôr-do-sol, colhe um fruto maduro, saboreia uma realidade, bebe palavras sãs, vai correr pelas searas e sente na pele a brisa do mar. Temos tão pouco tempo para aproveitar… Porém, ofereço-te ambrósia para te adoçar a boca, um buquê de flores-de-laranjeira e um vestido de modéstia e tule. Talvez um dia, queiras ser a Atena cheia da sabedoria que tanto apregoas.
Rosa Alentejana Felisbela
16/06/2018
(imagem da net)

terça-feira, 12 de junho de 2018

Decifra


Passeia por longínquos locais
Enleva-se a alma nos cheiros
No fim dos caminhos para
Segura momentos alheios
Agora fecha a mão num “ai”
E recorda a pele e o sabor
Murmura o que sente e mais
Mostra o que quer, amor
Inscrita no poema, no muro
Molda o caminho, por favor!

Rosa Alentejana Felisbela
12/06/2018

domingo, 10 de junho de 2018

Português


És o meu “mar português”
que me mergulha
nas ondas de prazer
da nossa nudez

Meu “vento lusitano”
que me afaga
e que me afoga de mudez
num galope bem humano

Tens na língua
a “última flor do Lácio”
que me cultiva e que me mata
do prefácio ao posfácio

de fartura
e de ternura
em cascata
na minha timidez

Cantas-me o “fado português”
ao ouvido, à beira da boca
na mente, já dormente
de insensatez

“Se fosses só três sílabas”
amava-te para sempre
na doçura permanente
da languidez:

a-bis-mo meu
meu manso herói
afortunado de erotismo
cobiçado p’las marés…

Por ti percorro
de norte a sul
todo um país encantado
de lés a lés…

Rosa Alentejana Felisbela
10/06/2018

Expressões entre aspas de: Camões, Alexandre O'Neill, Miguel Torga, Olavo Bilac e José Régio

sábado, 9 de junho de 2018

Poeta banal


Dois potes de mel na voz
e uma guitarra a tocar na garganta
Olhos com asas negras de corvos
voando círculos em “v”
Nariz de pétalas que só cheira flores
no pensamento
Boca de canário rosado
corado de tanto amor pela vida
No peito cresciam raízes
de sonhos passados
e as mãos eram conchas
desfiando a harpa da insubmissão
com todo o carinho
Embriagava-se
quando a família se ausentava
há tanto tempo
Sobre os joelhos havia uma linha
separando o passado do presente
Enquanto os sapatos lustrosos
de tanta dor passeavam
nos olhos dos transeuntes
Vestia o fato impecável
dos mendigos
E desempenhava a sua personagem
como a caneta namora o papel:
era um poeta banal…
Trazia a luz do sol às costas
e um dicionário informal
no bolso,
para alguma eventualidade.
Um dia foi flechado
pelo cupido
pelas costas, à socapa,
e considerou um crime hediondo
ter a melancolia a subir-lhe
pelas pernas.
Ficou em silêncio, fumando
o céu coberto de escamas de peixes
e as lágrimas sufocando a desilusão…
A musa não correspondia
e desabrochava nas gaivotas do mar
e ele sentou-se numa pedra
para sempre
a pensar.

Rosa Alentejana Felisbela
09/06/2018
(imagem da net)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Coragem


Ensina-me a ler
o caminho que leva
o caracol,
de cenho cerrado,
franzido,
esforçado
pela rugosidade
da árvore.

Porque leva a marca,
o visco,
no corpo mole
que se arrasta?

Porque não pega
na casca
com mãos de borrasca
e força o músculo
do busto
para chegar
ao sol?

Ele sobe e sofre
revezes
por minutos
horas, dias, meses
e nunca desiste!

Explica-me porquê
se o meu corpo
não lê
o tempo que passa…

Diz-me se dói
quando a aragem
se enlaça
e corrói
a verdade lassa…

Porque a boca
é muda
e eu…preciso de ajuda
para ter essa coragem!

Agora ensina-me
a ler
e a fazer igual
sem nada temer…

Subir, descer
e voltar
e sentir por um dia
que não há mal
na sorte tardia
que quero
receber.

Ou então amarra-me
ao tronco
da árvore
e deixa-me
morrer.


Rosa Alentejana Felisbela
08/06/2018