sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ermo


Suspendo o cálice
para que a sede morra
por dentro da carne

Suspendo o pão
para que a fome cesse
na masmorra do sangue

e bebo o vento
e como o cheiro a terra
molhada

na prisão
só as grades iluminam
a solidão cansada

20/10/2017
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Poema inacabado


Mais uma vez
mordo o silêncio
da falta que me fazes

és fruta madura
corpo ausente
que não trazes

filamento
aceso na luz baça
do passado

fome que não cura
choque perverso
na língua quente

sílaba dormente
em poema inacabado

Rosa Alentejana Felisbela
18/10/2017
(imagem da net)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Analepse


Há tanto tempo que não falamos! Passaram horas, dias, meses, anos? Não me recordo do tema da última conversa. Foi em prosa ou em verso? Trazias nas mãos uma rosa, ou um “bouquet” completo? Parece-me que fiquei com uma pétala juntinho ao coração. Era uma pétala vermelha, da cor do sangue que corre descompassado nas minhas veias sempre que te aproximas. Era uma pétala perfumada. Sim, tinha o perfume de um dia inteiro no quarto e uma vida inteira na lembrança. Era uma pétala cristalina que me deixou os olhos rasos de alegria e tantas frases nas mãos! Lembras-te das entrelinhas daqui até à lua? Era o nosso caminho feito de cassiopeias mágicas e mantos sagrados de tantos segredos. Para nós havia apenas o céu e o brilho das pedras de algodão doce que pisávamos junto à margem entre o sonho e a realidade. Sim, havia um sonho. Só não me recordo se o sonhei sozinha ou sonhávamos ambos em cores diferentes. A música permaneceu sobre a trovoada e a toada dos versos continua a encantar-me os sentidos. Ah! Agora sim, lembro-me que foram versos que me cantaste na tua voz de arco-íris, enquanto eu olhava o poente pleno de mel por trás da barragem. Se a memória não me falha, disseste “adoro-te” e beijaste-me até que escureceu. Como poderia esquecer-me do tema da conversa? Falámos sobre o universo. Aquele que conspira a favor de um amor muito maior. O meu sorriso é para ti.

Rosa Alentejana Felisbela
18/10/2017
(imagem da net)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Deserto de nada


Arrasto as palavras
lentamente

da poeira dos versos
bebo um trago

e das mãos calejadas
- a semente -

alimento a lembrança
do corpo - o abraço -

queria que florescesse
pelo campo

o poema renascido
da esperança

mas resta o restolho
queimado

- a dor lancinante -

e um campo deserto
de nada

Rosa Alentejana Felisbela
17/10/2017
(imagem da net)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Desconcerto


Desdobra-se o calor
de norte a sul
num origami medonho

Lambem as línguas
o sangue; o verde; o azul
- sem dono -

E o céu tristonho
qual gigante Adamastor
num abraço compressor

à palha seca
à terra exangue
à impotência

E a míngua d’água
patente nos olhos rasos
da gente perdida em derredor…

Rosa Alentejana Felisbela
16/10/2017

domingo, 15 de outubro de 2017

Cidade de pedra


Na cidade vestida de frescor
procuro o caminho
de outrora

e a neblina
devagarinho
vai mordendo cada pedra

cada poro do meu corpo
- os meus olhos -
hora a hora

passo pelas pontes
acariciadas pelas mãos
do antigo escultor

e na lembrança
a fonte que não medra
perante tanta dor

descubro que a raiz
do orvalho nos meus olhos
és tu – pensamento sonhador

Rosa Alentejana Felisbela
14/10/2017
(imagem da net)

sábado, 14 de outubro de 2017

Tons corretos


Não me fales na música
acuada de tantos orgasmos
na lombada do livro

fui eu que li
foste tu que escreveste
e ambos a escutámos

de um lado a morte
dos sentidos febris

do outro a queda
dos abismos pueris

e o banco do jardim
incomparável poema
que sorri

albergue dons tons
corretos
que devias colocar no lugar

e aquela voz
que sempre sugere o beijar…

Rosa Alentejana Felisbela
11/10/2017
(imagem da net)