sábado, 1 de agosto de 2020

Colar de contas pretas


Pego naquele colar de contas negras que a avó esconde na gaveta da mesa de cabeceira e saio a correr para o quintal. A avó cuida das galinhas, poedeiras de pintos amarelos, que um dia hei de apanhar para explorar melhor. Levo-o escondido no bolso do bibe aos quadrados azuis e brancos. Passo a correr o lugar onde devia haver uma porta entre os quintais, mas que não existe. Vou para a manta estendida por baixo da figueira e retiro-o com cuidado. Por momentos, coloco-o ao pescoço e caminho pela manta como dama da corte, deixando que os súbditos me beijem a mão. Rapidamente me aborreço, e coloco-o em volta do braço, como tinha visto umas senhoras fazerem televisão. Sou a rainha que se senta no chão a dar conselhos ao seu povo. Poucos minutos depois, tento colocar o colar na perna, mas ao dar a última volta parto-o e na manta espalham-se muitas bolinhas… Fico vermelha e assustada. Apanho todas as continhas negras e vou a correr coloca-lo novamente na gaveta. Com a pressa, esqueço-me da avó, que me segue e vê o que fiz. Só a ouço gritar atrás de mim “Magana, que me partiste o terço”!!!!

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Caminhada


Caminhada corrida
Véus pés nus
Flores amarelas
Saída
Cabelos envoltos
Pólen adocicado
Colado ao corpo
Cruz


Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(imagem da net)

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Ferreiro


Vejo os músculos
lisos esbeltos
os ombros
o peito aberto
enigmático coração
conheço a tua forma
o martelo a bigorna
- és a minha solução!

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Sobre a cama


Nessa casa de luz azul mourisca
Desaguámos num abraço embrenhados
Corpos ajustados, uma faísca
Para a perdição do fogo talhados

Juntos num ciciar d’ alma aninhados
A boca carnuda, muda e arisca
Coxas, beijos, os cabelos molhados
Cinturas que dançam como Odalisca

Acordámos os lençóis da vergonha
Espiámo-nos no espelho invisível
Quebrando aquele desejo impossível

Ambos sabemos que é inadmissível
Olharmo-nos sem que a vontade exponha
E o amor a tudo se sobreponha

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(imagem da net)

A ti caminheiro


Caminheiro sem cama
Nem ninho
Que prossegues o destino
Passo lento
Cheio de alento
Corpo decrescente
Como lua mente
Saboreias o vinho
Delicias-te com o pão
Nunca serás inteiro
Enquanto tiveres espada
E algum coração alheio

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
22/07/2020

segunda-feira, 20 de julho de 2020

Tristeza


Fogo que morde
Reclama chama a chama
Cada semente de luz
Dor espalhada na palha
Sensações
Pó de pedra entranhada
Poro a poro
Permanece no casulo
Metamorfose?
Sal pimenta malagueta
Não te deixa adormecer
Não te deixa acordar
Eterno ignorar da vida
Ciclo podre que fede
Lágrimas e anoitecer
Espera a foice
Que te trace o pescoço
Sem teres que te mover
19/07/2020

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

domingo, 19 de julho de 2020

Desfaço


Desfaço a cama pela manhã
Sabendo que o lusco fusco me assombra
Com braços de raiva gigante
Com o corpo monstruoso da saudade
Com os gritos estridentes ao comer o chão
Que nunca me salvou
Sinto as ruas vazias de consciência
Enquanto os postes da luz clamam
A evidência

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
19/07/2020
(imagem da net)