sábado, 23 de abril de 2022

vírus

 

Caminho escondido

entre o som e o zumbido

a dor e a flor

complexo banido

uma gota um sinal

a febre e a rouquidão

uma chaga desilusão

e uma força brutal

Sou aresta e és tudo

o cubo que me abraça

a raça de ser

humano

Felisbela Baião (Rosa Alentejana)

imagem da net



domingo, 20 de março de 2022

Clic

 


Esquecemos depressa

as luzes, os estrondos

os saques

 

Publicidade que passa

uns segundos

no tempo

 

Temos pena das crianças

Dos velhos

Das mulheres

 

Mas só durante

um instante

 

Depois fica a conta

da luz, do óleo

da gasolina

 

E as dores no ombro,

nas costas

que não passam

 

Um umbigo alimentado

a banho quente

a sofá e a mantinha, uma casa

 

E na memória,

Lá muito ao fundo,

o resto

 

do mundo

 

Felisbela Baião (Rosa Alentejana)

20/03/22



Saque

 



Trazes nas botas

o barulho, o ribombar

dos passos

 

Um espaço passado

e um ínfimo

movimento

 

Um desmembrar

de vozes

e de gritos vorazes

 

Um desvio cruel

e velhos e meninos

aflitos

 

Trazes léguas

de lágrimas

e lírios esquecidos

 

sobre a cova do tempo

gemidos e mulheres

audazes

 

e um momento

depois do arame

de PAZ

 

bendito

 

Felisbela Baião (Rosa Alentejana)

20/03/22

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

História que não quis terminar

 

Ela escreve na memória

A história que foi vossa

Não importa se é prosa

Ou quintilha já antiga

Se é poema ou cantiga

Ela sabe-a de cor

 

Conhece-lhe por dentro

O eterno sentimento

Que viveram num raio de luz

Um risco no firmamento

Uma pedra rolando

Uma rosa em contraluz

 

Ela escreve a desventura

Dá-lhe um cunho pessoal

Transforma a doce ternura

Num escuro abissal

Tal como toda a história

Que se conta, é natural

 

Desconhece o que os levou

Àquele banco de jardim

Quando o sol anunciou:

- É tempo de chegar ao fim,

De esta história terminar

Mas a história perdura naquele lugar

 

Cada abraço, cada beijo

Contado por ela o desejo

Não faz jus àquele lugar

Só eles sabem quão fracos

Se sentiram nos braços do seu amar

Até hoje vive a história, que não quis terminar


Felisbela Baião 

(Imagem da internet)



quarta-feira, 7 de julho de 2021

História que não quis terminar Ela escreve na memória A história que foi nossa Não importa se é prosa Ou quintilha já antiga Se é poema ou cantiga Ela sabe-a de cor Conhece-lhe por dentro O eterno sentimento Que viveram num raio de luz Um risco no firmamento Uma pedra rolando Uma rosa em contraluz Ela escreve a desventura Dá-lhe um cunho pessoal Transforma a doce ternura Num escuro abissal Tal como toda a história Que se conta, é natural Desconhece o que os levou Àquele banco de jardim Quando o sol anunciou: - É tempo de chegar ao fim, De esta história terminar Mas a história perdura naquele lugar Cada abraço, cada beijo Contado por ela o desejo Não faz jus àquele lugar Só eles sabem quão fracos Se sentiram nos braços do seu amar Até hoje vive a história, que não quis terminar Felisbela Baião (Rosa Alentejana)

segunda-feira, 5 de abril de 2021

Confinamento

Contam-se as vírgulas impressas no texto sempre original. Nem muda uma palavra. Não existe um ponto final. Tantas reticências enganam as linhas. Comem-se verbos decorados, conhecidos. Saboreia-se a sopa de letras e lambem-se os lábios. Nada diferente. A saliva deixa de estar incandescente. Na língua, as papilas inchadas do veneno, eriçam-se mais uma vez. O corpo do poema exagera nas loucuras. O coração segura-se entre duas linhas. Cuidado com o vento, pode vir a trovoada e a revoada de ternura afasta-se brutalmente. O favor apaga-se na metáfora barata. Não são precisos rubis para entender que a mina florida foi fechada. Não há mais refeições na paragem dos autocarros. Maldito confinamento. Felisbela Baião (Rosa Alentejana)

quinta-feira, 1 de abril de 2021

Tranquilidade

No silêncio gritado aos ouvidos vive a mulher tranquila. Sobre o piano está um gato, saltitando de tecla em tecla, negra, branca… Com a sua língua áspera, ele lambe os bigodes, as patas, e ronrona, aninhando-se sobre a tampa lisa, limpa, negra. A mulher recorda o tule, o pliê, o cetim, as pontas dos sapatos, sobre o palco liso, limpo e negro. Vai ter com o gato, numa súbita saudade, em pontas, de pés ligeiramente afastados e virados para fora e segura-o, branco e suave, nos braços brancos e suaves. Sente a tranquilidade. Observa a chuva caindo no exterior da janela. É a trovoada. Segue as gotas que correm velozes para o regato. Sente o gato no colo. Cheira a terra molhada e o gato. Olha-o com a ternura e ele olha-a com a doçura. Escuta uma campainha de bicicleta lá fora e sorri. Coloca o gato no chão. Prepara um banho de espuma, velas perfumadas e incensos. Entra na banheira e só escuta a torneira a pingar, vê os versos através do olhar e lágrimas corridas. Vidas passadas, momentos felizes. Bebe um copo de vinho e sente a pele molhada, o cabelo escorrido e o seu corpo rendido, relaxado. A toalha de veludo envolve-lhe o corpo e ela desliza pelo quarto. O vidro embaciado lembra-a de nomes, beijos, abraços. Deixa entrar o sossego. Relembra a bailarina percorrendo o palco, o silencio, o escuro. Há um som de aplausos e risos flores cores pelo ar. É amada e feliz. A trovoada continua o seu troar, a chuva corre e não sente exaustão. Assusta-se com o turbilhão nuvens esmagadas, encontradas, misturadas. Mas as portas encontram-se fechadas e o silêncio é absoluto na paz do seu recanto. A música continua ali, no seu corpo e coração. O gato dorme. Felisbela Baião (desconheço a autoria do desenho)