domingo, 21 de fevereiro de 2021
Senão...
No centro, no meio, na boca
Salva-se e morre-se
Silêncio sedado, sentado
Ouvidos cicatrizados
Olhos cercados, cerceados
Um queixo serrado outro não
Salva-se e morre-se
De exaustão
O escuro da seda sacrifica
A pele em comunhão
Não verás, não sentirás
Não serás…senão…
Felisbela Baião (Rosa Alentejana)
(quadro de René Magritte)
Tantas vezes...
Cabe-me no peito a dor
Partida do barco
onde navego
Negro
Tantas vezes acordo
Oco de destino
E saio como louco
Do fundo do mar
Abraço o foco
Quero-o a respirar
Abro as ondas gigantes
Deixo-me elevar
Mas não te dou vida
Sou saco salino
Verde de desalinho
Cabelos encalhados
E olhos cerrados
No turbilhão
Nem numa noite
Vestida de farol
Tu voltas e vives
Como eu queria
Acordar!
Felisbela Baião
(autor desconhecido)
sábado, 20 de fevereiro de 2021
suspirando
leva-me o suspiro
doce que se desfaz
na boca que te evoca
sem querer, sem sonorizar
quando o momento
fermenta e o desejo
não aguenta
e me falta o ar
no forno que arde
na mão que anseia
tocar
Trinca suavemente
A orla exposta
Ao teu olhar
Depois lambe o açúcar
Sem derramar
A forma arredondada
A salivar
Leva-me o suspiro
Que te vou murmurar
Felisbela Baião
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021
Naufrágio
Naufrágio
Que maneiras conheces
de naufragar?
Perder o pé,
perder o barco,
perder o mar?
Eu perco tantas
histórias da tua íris
da tua forma ocular…
De pé na pedra
De pé na areia
Que pena
Não ser sereia
Mergulhar por dentro
Ser mastro, lastro
Neste azul
Para me consolar
Perco o sol sereno
do entardecer
Perco a borrasca
A tormenta farta
A lua crua
Ah! Se a pudesse cozer
Como ovo no ventre
Só para te ter presente
E então naufragar
Braços tatuados
Alados de aconchegar
O filho amoroso
Que trago na boca
Para te doar…
Felisbela Baião (Rosa Alentejana)
desconheço o autor do quadro
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021
Borboleta
Pendura as desolações no cabide da existência. Procura a melhor disposição, veste-a. Penteia os sonhos já brancos, junta-os aos outros e faz um penteado bem bonito. Agora calça a força e veste a coragem nessas belas pernas. Olha-te ao espelho. Dança a canção da vontade enorme e desce as escadas. Não deves nenhum: “boa noite”, mas aprecias um: “olá bonitona”. Percorre a rua devassada pela balança das bebedeiras, que não interessam nem ao menino Jesus. Muda de direção. Entra na danceteria e curte um samba, bebe um trago de ilusão. Senta-te a aprecia as notas que bailam à tua frente. Caras de santos, caras de meninos, caras e caras… Nenhuma te agrada. Mas a boa nova é que és uma borboleta linda, saída do casulo. Transformada és tu. Quando voltas à rotina és apenas ovo. Escolhe a que queres ser.
Felisbela Baião
sábado, 9 de janeiro de 2021
Lenda de, quase todas, as ruas de Beringel
Conta-se que há muito, muito tempo, as ruas de Beringel eram feitas com terra batida e muitas rochas. Isto dificultava muito a passagem dos carros puxados pelos burros. Fazia com que as pessoas, no inverno, não saíssem de noite, pois o perigo de caírem era enorme. No verão, o pó espalhava-se formando nuvens quando os carros passavam, até os burros empacarem e não quererem subir ou descer. Quis o destino, que se decidisse fazer um casamento num dia de chuva. Os noivos tiveram que ir de carroça para a Igreja Matriz. Só que, no caminho, o burro tropeçou com os dois, a carroça partiu-se e eles caíram desamparados, morrendo nesse instante. Os amigos e familiares choraram e choraram. Os dias tornaram-se negros. De noite, não se via um palmo, deixaram de existir estrelas no céu. E foi de tal forma, que os habitantes da localidade resolveram vestir as estradas de alcatrão, para sempre o luto pelos noivos nas ruas. A partir daí, acenderam-se candeeiros durante a noite, as estradas ficaram lisas, evitando mais acidentes, e lá no céu, duas estrelas brilham juntinhas iluminando as noites de inverno.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2020
incongruências
a sala conta os dias
falta pouco para o sofá cantar
com voz de criança
e as manchas subirem pelas paredes
o fogão abrasado limpa o suor
o frigorífico toma o ar
e fica em apneia com os doces
que chapinham no gelo
fazendo corridas eternas
entre a mesa e as bocas
escancaradas das portas
um cheiro quente
atreve-se a chamar por ti
e a cama corre para os teus pés
em sinal de remissão
um pecado nunca vem só
aqui estou para te afagar
Felisbela Baião
Subscrever:
Mensagens (Atom)






