terça-feira, 22 de agosto de 2017
As cores de um vendaval
Prometo-me o banco de jardim
invisível na amargura verde das árvores
e a cegueira do azul do céu
bem como o ponto infinito
na finitude do futuro
desisto do delito da palavra
porque a carrego decepada pela saudade
nunca um espelho foi tão falso
refletindo uma paisagem
fraca condição humana
a de pintar com as cores de um vendaval!
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Noiva na lápide
Contínuo de luz acesa ao vento e no cimo do outeiro mais uma estrela procurando a manhã
O “até já” inscrito no branco do lírio roxo assinala um passado tão perto que me fere as têmporas
Um choro bravo, um caminho curto e uma luta limitada nos pés calçados com sapatos brancos
Enquanto me recordares não deixo de ser sonho de voltar ao abraço apertado
Enquanto me recordares terei o coração a bater e os meus ossos serão de vontade férrea
Serei sempre a noiva na lápide, o primeiro beijo, a primeira namorada
E a noite será sempre o meu guia de saudade lamentando o tímido adeus
O tempo será de verdade e, à minha maneira, voltarei sempre para ti
Sobrou-me o cabelo negro ondulando à brisa do teu olhar e uma oração por rezar nas nossas bocas
Rosa Alentejana Felisbela
21/08/2017
(imagem da net)

https://www.youtube.com/watch?v=JvHg0eJjFp8
sexta-feira, 18 de agosto de 2017
Beco
É no beco que passas
e cheiras o cheiro
a urina
do chulo
da puta
da sina
dia inteiro
que assina
o preço
e que faz
o serviço
- a cadeia -
É no beco que passas
e cheiras a “passa”
do fumo
do charro
e vês a seringa
do chuto
que singra
nas veias
e odeias
odeias!
a vida
e a sida
- a cadeia -
É no beco que passas
e te assustas
com a rusga
da noite
do bafo
a bagaço
e a bófia
de um salto
assalta
o beco
e leva
a liberdade
p´rá cadeia!
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017
apenas um pouco de ousadia
quando estás para chegar o desassossego marca pontos nas borboletas do meu ventre como se um caçador atirasse a rede e deixasse sair o ar
é então, que os sonhos brancos sobem as paredes do quarto e fica tudo tão claro
até a janela se enche de palavras pequenas enquanto as cortinas
sussurram saudades
enfeito o chão com pétalas rosas que se abrem como lábios sedentos dos teus passos
uma jarra ajeita as tulipas brancas misturadas com sinceridades ansiando o teu olhar
a colcha de tecido macio do pêssego abre os braços para que o teu corpo, em flor, incendeie o tato
o meu vestido perde-se da pele dourada como abelha procurando os favos de mel da tua boca
e quando a porta se abre deixas a ausência presa no trinco do lado de fora: não incomodar
e tu…entras na minha fome de pão ázimo com a faca afiada num suplício manso investindo p’la noite dentro…
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Tirano
Vens com a força
que tem a trapaça
do mar
recolhes-te à duna
à doca à escarpa
e beijas com a espuma
as cordas do cais
âncoras
areais
ânsias
ais
recolhes-te ao fundo
negro
do cetro de Neptuno
onde és rei
e arrastas as metades
solitárias
num gesto profano
que nada
tem de humano
mas de vil monstro
tirano!
Rosa Alentejana Felisbela
12/08/2017
(imagem da net)
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Simplesmente sem perdão
Fome. Tanta fome nas mãos:
de gratidão,
de amor, de frontalidade…
Comem-se amargamente
as letras ensopadas
de certezas. Uma pitada
de melancolia tempera a vida
- sem sal -
O descuido transborda
na panela que consola “online”
e os “usuários” lambuzam-se
na oração que precede a refeição:
a cruz fica no rosto
em sinal de fé
- perdida -
Por fim, mais um poema
na arte peregrina
da vida.
Os joelhos ensanguentados,
as palmas das mãos doridas
de tanto tentar expiar os pecados…
E tudo justifica o silêncio
- sem perdão -
Rosa Alentejana Felisbela
06/08/2017
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