quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Da poesia contrafeita


Incomum é o nevoeiro nas palavras
abandonadas há muito
e a sua visibilidade por dentro da alma

há o momento obsceno de malícia
que continua a estropiar
as entranhas em plena bruma

e uma ruina interior
calcando a calamidade no olhar
com sintomas atónitos de vertigem

pede ao sol que venha acender-se
e arder suavemente no peito
porque a semente precisa de germinar

ou guarda o grão nas águas-furtadas
da imaginação, junto das palavras
para eu não morder o veneno

porque os passos precisam
atravessar a ponte contrafeita
da poesia, enquanto a esperança ascende
à luz precária do sonho

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Abraço inesperado


Há uma tranquilidade
trágica
no tato tímido
do inesperado

como se o símbolo
misterioso da graciosidade
fosse a cor âmbar
implícita na derme

qual nêspera no alto
de um vulgar meridiano

suave

na longitude do amado abraço

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 15 de outubro de 2016

Aurora


Hoje assumi o silêncio
que a boca moveu
sem palavra.

Pousei a borboleta inquieta
do ouvido no vento
que passava e escutei.

Era o roçagar de asas
da brisa que brincava
no pensamento lúcido

enquanto se aproximava
a aurora de luz.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Gatinho diferente


Eu sou um gatinho diferente
Daqueles que se veem por aí
Consigo ver concretamente
A alma dos que andam aqui

Por trás de um coração frio
Há pessoas sofrendo tanto
Como um terreno baldio
Em ruínas e sem encanto

Esses precisam de carinho
E de um pouco de atenção
Deixo-os acariciar o pelinho
Pois é a sua única fruição

Também há gente dura
Sem qualquer compaixão
Desconhecem a ternura
A esses não “dou mão”

Há também os de “superego”
Que se julgam os melhores
O umbigo torna-se cego
Perante tão grandes autores

A esses arranho os dedos
Não quero aproximações
Pois não gosto de enredos
Nem de muitas confusões

Mas também há os fingidos
Que enganam meio mundo
Que pela frente são queridos
Mas o veneno está “no fundo”

A esses apenas viro as costas
E também vou dar uma voltinha
Até prefiro ir caçar as moscas
Do que levar deles a “festinha”

Mas também os há bem docinhos
Carregadinhos de inteligência
Adoro os seus quentes colinhos
E demonstro toda a essência

Arqueio o meu corpo gracioso
Até lhes lambo os cabelos
Sou um amigo muito precioso
Cuido-os com todos os desvelos

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Sensações digitais: como nasce um poema


Labaredas
abrindo asas

desordem
p’lo trigal do silêncio

mergulhando
e emergindo

dura tempestade
da lembrança

acendendo
novas fagulhas

roçar de espigas
maduras

volteios abissais…

Som seco de um poema
ardendo

pura loucura
nas sensações digitais

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Estrela


Estrela
aberta em flor
sobre a terra

raiz raiada
na constelação
do coração

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

domingo, 9 de outubro de 2016

Para lá do poente


Entardeceu-me a tarde
para lá da ponte
o poente

e eu

única chama viva
diviso
a derradeira luz

derramo a lágrima
da memória

o pensamento

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)