sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Coimbra, 29 de julho de 2016


A sonoridade da viola
acaricia-nos os ouvidos
como bruma envolvendo
a cidade, em cada canto
em cada abrigo

Soltam-se os pombos emproados
debicando as migalhas
de alegrias, de tristezas, de saudades
pousando nas calçadas
ou voando ao som das palavras

Juntam-se as capas negras
sobre os ombros de olhos cansados
que a noite foi longa
enquanto as vozes se afinam
quando passam casais de namorados

E o sorriso de cada passo
reverbera na gargalhada
da criança, do velho
para a foto que fica
para sempre
registada.

Rosa Alentejana Felisbela

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Constância, 27 de julho de 2016


No leito luxuriante
do rio confluente
de duas vidas
correm as palavras
da fonte
do poeta

e mais adiante
surge a relva revigorante
como semente
que a terra mima
rumo à felicidade
do poente

perfuma-se o ar
da cor verde
em vários tons
e as cigarras
segredam
sorrisos de verão

e o nosso beijo decalcado
de amor…lembra uma rosa
abrindo em botão
mas com asas de condor
vogando livre
na vontade
que conhecemos de cor!

Rosa Alentejana Felisbela

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Oração do meu olhar


Crepitam sonhos desfeitos
pelas paredes brancas
num ritmo infernal

alastram as labaredas
da raiva provocada
pela água menor de idade

queimam-se os verdes
aos gritos do cão
medonho

e cada arfar doloroso
é mais uma acha
para a fogueira

soltam-se lágrimas
da pele sequiosa
e murcha a força nos braços…

cada passo é pedra
rubra nas solas já mancas
de tanto correr

Quem me dera que chovesse
uma chuva de bênçãos
que circunscrevesse
os estilhaços das chamas!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Monotonia


Acende-se o farol da manhã
Cobrindo o manto de flores
Despertam os primeiros atores
Para a batalha diária e afã.


Sentem-se reis e senhores
Do seu destino e do seu clã
E a vontade que nasce sã
Valoriza sonhos e dores

Bocas bocejam, o barulho
Dos automóveis no asfalto…
O mundo, um monte de entulho
Que os toma, assim, de assalto

Passam rostos desconhecidos
E o cheiro a croissants e café
Devolve forças, um pouco de fé
Aos que parecem não ter destinos

Edifícios antigos, o homem comum
Se confronta em olhares furtivos
Numa tristeza de concretos vivos
E o tempo devorando um a um.

Meninos que correm descalços
Sobre as calçadas de pedra dura
A falta de amor, um pouco de ternura
Em repreensões e em abraços


Feito um mecanismo imutável cai a tarde
E com ela mais um dia da vida humana
Que regressa para seus lares, sem alarde,
Desejosa de descanso, isenta de gana.

Finda-se finalmente o sol e a monotonia
Uma estrela acende o véu da noite
Como uma solidão que se acoite
Nos braços da Lua à espera de um novo dia.

Rosa Alentejana Felisbela e Gyl
(imagem da net)

domingo, 24 de julho de 2016

Fé abalada


Em tempos de pobreza de espírito
grassam dúvidas nesta existência
e por boa que seja cada experiência
falta aquela fé no ato vivido, descrito

Na falácia esconde-se benevolência
e cada um mascara o que é interdito
acreditando que tudo, tudo é bendito
esquecendo a própria consciência!

Precisamos repor a perdida confiança
em Deus, nas orações e na nossa verdade
essa, que nos remeterá à bela herança

das Escrituras que preveem a amizade
o amor ao próximo e a paz, e na lembrança
acreditemos em nós e retomemos a serenidade.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Mnemónica


A sós com as gotas de orvalho, abertas à madrugada, sintonizei a memória com a onda da última palavra do dicionário de um olhar…música fadada para a saudade do abraço. A brisa silenciou os acordes das fábulas cobertas de escolhas, pousadas sobre as pétalas da rosa em botão e, no rodopio do ar, emudeci o fragor dos rios que o costume traçou. A indiferença revelou-se pecado mordido na maçã-de-Adão. Ainda repito a mnemónica aprendida por força do orgulho, para não esquecer que o talento não chega para ser atriz. E atiro-me da ponte suicida do nascer do sol ao voo que abre a palavra boreal para um novo poema, enquanto a rosa perfuma os meus sentidos…

Rosa Alentejana Felisbela
(foto minha)

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Desertor


Meu amor, que ao Alentejo vieste
pousar, na seara, olhos sagrados
contempla os campos magoados
p’ las espigas d’ ouro que trouxeste…

De mãos serenas, semear vieste,
est’ Alentejo de segredos e danos
Observa o peso pesado d’enganos
e estes campos que entristeceste!

Sentiram os cardos cravados na retina da terra,
a secura do vento agreste, mas tão abertos em flor
julgaram, por um momento, ser a sorte divina qu’ encerra

ter teus olhos pousados na íris de tanto amor…
Mas cegos de sede e sombra, nas trincheiras da guerra
com o sol, viram-te partir como infame… desertor!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)