quarta-feira, 25 de junho de 2014

Do mundo


Tu, meu amor, não me pertences, mas sim ao mundo
À luz do dia e ao escuro da noite que te abarca a vida
Aos faróis que orientam o teu ser tão mais profundo
E a quem chamas carinhosamente a tua “eterna guarida”

Tu, meu anjo, és do mar o porto de chegada e partida
E das nuvens a brisa certa que passa por um segundo
Do desejo os beijos, a tua própria fogueira já esquecida
E liberta da vontade onde vives louco, triste e moribundo

És tu a sombra que passa pela minha aberta janela
O simples perfume a céu que não sinto no meu jardim
A seiva que se ausenta da minha raiz com toda a cautela

Bem como das flores que cultivo no chão de mim
És aquele poema que guardo numa pequena parcela
Pois de mim és apenas o princípio e nunca o fim!

Rosa Alentejana
25/06/2014
(imagem da net)

sábado, 21 de junho de 2014

Contendas do coração


Somos gestos concêntricos que se encaixam
na perfeição fugaz da nossa tosca teimosia
num pedaço de céu estrelado, na brisa fugidia
que envolve a luz dos olhos que logo se acham

sem se perderem de vista, expressam a harmonia
do voo exímio das borboletas que os abraçam
quando delicadamente os seguram e os deitam
na cama de candura ao nascer de cada calmo dia

somos a razão do amor invadida pelo coração
numa guerra desordeira promovida por línguas
escravizadas pelos tribunais até mais não

mas as leis apenas acordam as mínguas
e nada mais contra nós elas poderão,
pois os gritos dos êxtases serão armas profícuas!

Rosa Alentejana
21/06/2014
(imagem da net)

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Porquê


Deslizaram-me os olhos para os lagos
de água salgada depostos a meus pés
e percorri todo o espaço de lés a lés
mas todos os lugares estavam vagos

plenos das palavras tristes que não lês
num silêncio de pensamentos escusos
num vagar de signos tortos e tortuosos
em lágrimas cálidas sem saber os porquês

de uma mágoa dolente que se perfila
sobre este corpo cansado de cada dia
que de negro se veste na redonda pupila

ostentando a vermelhidão que ardia
nessa ferida que sangra e que cintila
neste coração fraco e sem energia…

Rosa Alentejana
20/06/2014
(imagem da net)

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Eu e tu...um mundo só!


“Bom dia” dizem os meus dedos
à pele tua
contando-te os meus segredos
num sorriso de meia-lua

e em gestos largos
gestos tão cientes
de suspiros vagos
mas ardentes

envio-te a palavra
atrevida mente
que te morde a pele
e crava
o desejo no teu sol nascente

e regressa meiga
aos meus dedos
e assim se aconchega
em suaves elos
perdidamente

“Bom dia” dizem meus olhos
aos olhos teus
em silêncios calmos
nos beijos serenos
de carmim suados

e as magias brandas
de ternuras tantas
aladas
enlaçadas nos corpos terrenos
mas ocultas em vidas passadas

cheias de volúpia
devoradas em círculos gigantes
tornados pequenos
num dia
adiado
mas pleno!

“Bom dia” diz-te o meu segredo
ao ouvido silente
e nesse enredo
de vontade premente
bebemos da lua nova
a poesia crescente

latejando nos poros
olvidando o tempo
quando os gemidos sonoros
já esqueceram o lamento
do tormento
de não sermos um…

Mas somos tudo
no abraço sem dó
num leito pautado
pelo amor profundo

apenas eu e tu
um mundo
só!

Rosa Alentejana
(imagem da net)
16/06/2014

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Poemas


Quis escrever poemas firmes
na campina onde o sol se desenha,
em pinceladas sublimes,
qual pintor que muito se empenha…

Mas o rebanho de ideias
que pisou a minha mente
deitou-me o húmus nas veias
e aclarou o meu presente!

E as palavras que fluíram
no florir ao sol do outeiro,
pela janela aberta entraram,
como se fossem o suspiro
desse amor primeiro
e ficaram
ruminando poemas de amor
como se o roçar da tua luz
na palma da minha mão com calor
fosse algo natural, como fio que conduz
ao mistério dos teus olhos,
minhas mais doces palavras!

E continuei lendo
e escutando o silêncio da tua alma
e tentando escrever
com calma…

Rosa Alentejana
(imagem da net)

Na roda da vida

E agora na onda de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

A vida é uma roda que não para de rodar
e é com raiva que rebento o chão
onde antes quis vir a semear
um sopro cavado a mármore
um desgosto prenhe de emoção
em falso fado por confessar…

Na missa do domingo ,que me demore,
eu já não quero suspirar!

Isolo-me na vontade cortante
em que a febre me coage
a simular no semblante
as dores que me traz a aragem…

Resvala-me do seio subtil
a fome da máquina que me emociona,
sou filha de um Deus menor
delirante na sensação que me impulsiona
a jorrar destinos e suor
pela debulhadora da vida
que vai e volta e…siga!

Subo ao tic-tac dos dias e grito:
Eia! Eia!
Estou aqui! Pobre de mim…

Rosa Alentejana
(imagem da net)

Abismo


Na onda de Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

Sinto a corda dos dias
amarrando-me os pulsos,
dilacerando o pescoço das horas,
em doidos impulsos
beliscando a ironia do meu Destino
(esse que não existe)
num tortuoso caminho
(esse por onde partiste)!

Para que quero a glória e a fama
se o meu Fado é viver sem o calor
da tua chama?

Que ciência masoquista é essa
que me mata a vida
cheia de pressa?

Se o barqueiro sombrio
me aguarda impaciente na barca sofrida
com aquele sorriso inclemente?

Grito e afirmo
que o amanhã não existe
e eu apenas…salto para o abismo
do rio
imprudente!
Rosa Alentejana
(imagem da net)