sábado, 9 de janeiro de 2021
Lenda de, quase todas, as ruas de Beringel
Conta-se que há muito, muito tempo, as ruas de Beringel eram feitas com terra batida e muitas rochas. Isto dificultava muito a passagem dos carros puxados pelos burros. Fazia com que as pessoas, no inverno, não saíssem de noite, pois o perigo de caírem era enorme. No verão, o pó espalhava-se formando nuvens quando os carros passavam, até os burros empacarem e não quererem subir ou descer. Quis o destino, que se decidisse fazer um casamento num dia de chuva. Os noivos tiveram que ir de carroça para a Igreja Matriz. Só que, no caminho, o burro tropeçou com os dois, a carroça partiu-se e eles caíram desamparados, morrendo nesse instante. Os amigos e familiares choraram e choraram. Os dias tornaram-se negros. De noite, não se via um palmo, deixaram de existir estrelas no céu. E foi de tal forma, que os habitantes da localidade resolveram vestir as estradas de alcatrão, para sempre o luto pelos noivos nas ruas. A partir daí, acenderam-se candeeiros durante a noite, as estradas ficaram lisas, evitando mais acidentes, e lá no céu, duas estrelas brilham juntinhas iluminando as noites de inverno.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2020
incongruências
a sala conta os dias
falta pouco para o sofá cantar
com voz de criança
e as manchas subirem pelas paredes
o fogão abrasado limpa o suor
o frigorífico toma o ar
e fica em apneia com os doces
que chapinham no gelo
fazendo corridas eternas
entre a mesa e as bocas
escancaradas das portas
um cheiro quente
atreve-se a chamar por ti
e a cama corre para os teus pés
em sinal de remissão
um pecado nunca vem só
aqui estou para te afagar
Felisbela Baião
sábado, 28 de novembro de 2020
sorte
Raspa o código de barras
Descobre o número escondido
Homem sim, homem não
Acerta na lotaria
Fica com o teu quinhão
Desflora o malmequer
Hoje sim, amanhã não
Oferece a flor
A quem merece a cor
Rubra
Paixão
Escorrega o óculo
Não vês o ósculo?
Aperta a mão
Felisbela Baião
sábado, 21 de novembro de 2020
taciturno
Tenho um sol taciturno
no olhar de brumas turvado
e uma necessidade de ombro
momento, etapa, turno
na escada da vida partilhada
subo e sento-me cansada
novelo, enredo emaranhado
e um naco de pão congelado
aguardando
carinho, encurvado…
Felisbela Baião
21/11/2020
quarta-feira, 11 de novembro de 2020
não perdoa
Sopro as palavras da mão
Voam agrestes pelo ar
Ardem na ferida como limão
Gemem esmorecem revivem
O coração a sangrar
São medidas mesmo ao jeito
Do sermão e cabem justas no olhar
Quase a rasgar
São lágrimas a que não vergas
Conheces o som ao cair
Sabes-lhe o perfume e o paladar
Reconheces o erro ortográfico
Mas não as queres rasurar
Desafio o lápis que trazes
A corrigir o poema
A borracha estará pronta
Para apagar a trama, sem pena
Dó ou piedade…
A idade não perdoa!
Felisbela Baião
terça-feira, 10 de novembro de 2020
sou e serei
Apanho o resto do rasto
Deixado pelo teu feitiço
Uma tocha, uma pedra, uma faixa
E coloco tudo no lixo
Sou a besta bestial que te foi fiel
Que te adorou no pedestal
A santa impura que atiraste
Para a igreja no funeral
Sou a caixa de Pandora nunca aberta por fora
Mas por dentro destilo o veneno
Que me mata devagar
Sou a sorte e o azar
Mas nunca duvides que te amei
Até me lambuzar
Guarda o frasco do perfume, mais o lume
E podes arder que nunca mais
Te irei apagar!
Felisbela Baião
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