sexta-feira, 22 de maio de 2020

Desafinações

Carrego o grosso
peso da Lua e suas
constelações
mais o fosso
espesso do
buraco negro
e o desalinho
e o redemoinho
das monções
caí da rede
escrevi frases
baratas na parede
Bebi crases
e acentos agudos
descaí na
garganta arranhada
por duas vezes
e nunca aprendo
que os impulsos
só servem
para cortar pulsos!

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Entranhas e estranhas


Se soubesses
do sonho do salto
do medo
do ato
medido a benesses
desde o segredo
até ao facto
não fugias
mesmo
se quisesses
do alto do monte
em ruínas
seguias a fonte
o horizonte
as minas
entranhas da terra
entravas sem entraves
nela
e desabrochavas
em desatino
e flor
para mim

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

quarta-feira, 20 de maio de 2020

Noites serão

É sempre a mesma treta
A janela aberta
O cão que ladra
E rouba, não freta
E o estúpido do dono
Mudo de tão calado
E eu que não me mudo
Farta da rua deste lado
Sou a vizinha ideal
Não me queixo
Nem me desleixo
Mas não sou especial
Sou a que escreve
A que lê
Esquece o DVD
E a televisão
Sou a música ao serão
Nos phones sem ruído
Não sou como o cão
Aquele bandido
De latidos na boca
Que me deixa louca
Quando quero dormir
Quando a manhã chega
Abro a porta
E sorrio
Bom dia! Noite não…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

Além mar


Viste o vestido
vanguardista
que a vadia
trazia?
Até encandeava
a vista…
De vil e vedeta
procurava o estafeta
para entregar
na meta
a peta
recriada
para agradar
mas nem um par
de jarras
lhe seguiu o andar
só um com parras
a fez beber
até se embebedar
de sonhos
e depois
jorrar
no mar
sem esperança
sem verde
nem ver-te!!
Ajudas-me a despir
o sofrimento?
Já não tenho
brilho
para te ocupar…
atiro fora o trilho
para te encontrar…

Rosa Alentejana Felisbela

domingo, 17 de maio de 2020

Desfeita


Tenho pena
Do poema
Em forma de rosa
Estival
Sem água
Sem sol
Fica a morte
E a sorte
É arrebol
Intemporal

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
Fotografia © Andrea Kiss

Encanto de sereia


Presa na colmeia
Beijo lábios melados
Alheia ao mensageiro
De ares alados

Sou do mar sereia
Na areia, tresmalhada
Presa na tua teia
De amor, afogada

Em terra sou mulher
Uma simples plebeia
Beijando lábios sábios
Numa eterna cegueira

Se me abraças no mar
O teu beijo é navegante
Sujeita eu vou ficar
Ao teu amor errante

Desconheço outro favo
Que me adoce tanto
Para sempre serás escravo
Do meu doce encanto

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
17/05/2020

sábado, 16 de maio de 2020

Espiga

Tenho mesmo aqui no peito
Uma espiga nova a crescer
Ora, se faço nada de jeito
Como foi isto acontecer?

O meu corpo tornou-se seara
O meu coração fez-se papoila
Tenho um sorriso aqui na cara
Não tenho quem o recolha

Sou a fonte onde brota o pão
Nestes tempos de escassez
Minha boca fechada em botão
Não canta de tanta timidez

Procuro a água bem fresca
Nalgum rio aqui por perto
Mas a sede molha-me a testa
E tenho o desaire aberto

Não penteio os cabelos
Não me visto a rigor
Sou fiel aos pesadelos
Meus olhos não têm cor

Tenho uma espiga no peito
E uma papoila no coração
Sou o campo com defeito
Esqueci-me da satisfação

Moro no morro onde choro
Respiro o ar que me sufoca
Não quero saber do decoro
Que o poema me provoca

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(imagem da net)