segunda-feira, 8 de junho de 2020

sede


um copo cheio
de nada me bebe
com sede que cede
até me secar
vazia volteio
vozes de candeio
procuro voltar
mas logo incendeio
no teu olhar

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

domingo, 7 de junho de 2020

Lua


Sobe a lua
Sabe a vento
Sente a nuvem
Suja a mente
Solta o escuro
Apressado
Segue a noite
Somente
Segura-me
Sinto-me demente
Sem ti a meu lado

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

sábado, 6 de junho de 2020

Pureza da alma


Percorri as águas com os olhos benevolentes de quem jamais se afogaria. Bandos de pássaros quebravam os restos de luz do dia, com as suas asas. Os brilhos finais das cores do sol saltavam de gota em gota, como quem procura um remanso para ficar. O frio da tarde agredia-me as faces, como se os açoites me fizessem voltar à escuridão que teimava em chegar. Os faróis dos carros, ao longe, emitiam os seus raios ao passar para lá dos meus pensamentos. Camuflei, mais uma vez, a dor da amargura. Ainda ontem me beijavas à beira margem, me abraçavas com tanta sofreguidão, que o ar rareava e eu nem acreditava em tamanha felicidade. Recordei a mesma hora, o mesmo não. Apercebi-me que nada mais havia a fazer senão gritar. Mas a povoação ficava longe. Já os teus dedos ficavam perto demais, a tua boca assumiu o comando em lugares que eu julgava serem só meus. A tua força quebrou-me a alegria em mil estilhaços. A tua arrogância arranhava-me a garganta. Era como se eu sempre te tivesse pertencido, quando isso não era verdade. Nunca fora de ninguém senão minha. Julgas que a vergonha me tirou as forças? Não. Neste momento, consigo ver a beleza do meu corpo e a beleza da paisagem que me rodeia. Apagaste a minha imagem? Sabes bem que só o meu mel te adoçará a boca, só o meu perfume ficará na tua pele quando tocares outra qualquer. Foste o meu espelho? Nunca! Eu jamais me tornaria nessa imensidão de egoísmo. Abriste-me ao meio? Pois voltei a estar inteira, como sempre o fui. Com a certeza de que sou hoje e serei sempre, uma enorme mulher. Tenho a força de um tufão e o meu amor será o vulcão que queima de desejo o homem que eu escolher para mim. Volto os olhos para as águas e vejo um peixe saltar. Como é bela a pureza de uma alma…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
06/06/2020

Caminhando


estrela
às costas
imigrante
sentinela
gigante
como sol
vontade
de ferro
culpa
calcula
cálculos
enfadonhos
corpo ermo
sentimentos
sonhos
o não
enterra
segue e soma
passos
arriscados
arrastados
lábios finos
fechados
oportunidade
gritante
lágrimas
eternas
instantes…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
06/06/2020

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Natureza morta


O aquário vazio
secas as pedras do rio
a sala silenciosa
um fadário forte
ameaça de morte
a rosa dentro da jarra
pendente silente
calvário sem sorte
sem água
luz baça escassa
sobre a pobre mesa
da casa pobre
ambiguidade
a rola a arrulhar
atrás da janela:
saudade

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

terça-feira, 2 de junho de 2020

Os peixes


Havia numa casa dois aquários lado a lado. Cada um tinha um peixe. Um azul e um vermelho. O azul pertencia a uma menina, que lhe enfeitara o lar com a arca de um tesouro, plantas e pedras, e todos os dias conversava com ele. Antes de ir para a escola deitava-lhe um pouquinho de comida e dava-lhe os bons dias. Prometia-lhe voltar cedo. Quando estava de volta, contava-lhe o dia na escola, o que correra bem e o que correra mal. Por vezes, levava-o à janela para receber sol. A menina aproveitava todos os bocadinhos para cuidar o seu peixe. O vermelho pertencia ao irmão da menina, que todos os dias o alimentava, mas tinha apenas pedras no seu aquário. Raramente se aproximava dele durante o dia. Com o passar do tempo, até se esquecia de o alimentar ou mudar a água. Com o tempo aconteceu que o peixe vermelho morreu. O menino ficou inconsolável. A irmã tentava minimizar-lhe a dor, mas não conseguia. Porque o menino percebeu, nesse momento, que não lhe tinha dado a atenção merecida. Que não tinha sido um bom cuidador. Conseguem imaginar a dor do peixe vermelho, ao ver todos os cuidados e atenções que o peixe azul tinha?

(Imaginem-se a cuidar de alguém, a amar alguém)

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
02/06/2020
(imagem da net)

sábado, 30 de maio de 2020

maré


a maré mostra-me
a margem mais
bonita
trai-me a aragem
traz-me coragem
pelo amanhecer
para correr
sem laço nem fita
cabelos soltos
ao compasso
do coração
cigano da sorte
bendita sem fim
de mãos dadas
solitárias caladas
de areia amaradas
sem consorte
só a morte
por dentro de mim

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)