sexta-feira, 29 de maio de 2020

Um par de meias


Debaixo da figueira
minha avó fazia
meia
com meia dúzia
de agulhas
mas nunca ficava
a meio
era sempre um par
de duas
achava estranho
queria era tentar
mas ela dizia sempre:
“não me venhas
atentar”
de meia não sei nada
mas do meu amor por ela
sempre me hei de lembrar

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(imagem da net)

quinta-feira, 28 de maio de 2020

horas de jantar


Vou cronometrar
o que Cronos controla
levo uma pistola
e aponto
aos ponteiros
do relógio
lógico
vai quebrar o vidro
e eu vidrada
tentando acertar
escorrega-me
a mão e o pêndulo
pendurado
parado
nem o vento
se acerca
para o acertar
atiro e embirro
com os minutos
e os segundos
que não consigo
controlar
verifico que as horas
são para aproveitar
entretanto
atrasei-me para o jantar

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(imagem da net)

Sol sonhado e sonhador


Seguro nas mãos
do horizonte
meu sol amado
momento mudado
sempre constante
pó de estrelas
pó de estradas paralelas
distantes
seguro o seguro
amor e uma réstia
do esplendor
que resta de ti
que resta do valor
seguro um auguro
um presságio
um sortilégio
que te envolva
em asas de condor
te proteja e me salve
meu sol sonhado
e sonhador

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
28/05/2020

(foto de Paula Gomes)

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Dor distante


Sede de tantas
palavras
refresco borrasca
de poemas fontes
silêncio não contes
das lavras lavadas
nem das molhadas
varandas
telhas duras falhadas
goteiras
trinando traições
fulminantes
a gota esgueira-se
petulante
e o peito agoniado
ressente-se
na estrada
distante

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
27/05/2020
foto de Paula Gomes

terça-feira, 26 de maio de 2020

Mausoléu


Mergulha no eco
nome nota natal
notícia de jornal
beco filial
estaleca seca
verdade moral
amor marca sinal
corpo cordão
umbilical
sonho surdo
terra absurda
campa
urna
castiçal
castigo antigo
céu celestial
e tu
meu anjo amigo
lamparina
de menina
pecado capital


Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
26/05/2020

segunda-feira, 25 de maio de 2020

não sei

Não sei que cor
adormece
e se tece
no firmamento
quando o sol
desaparece
e não sopra uma
brisa de vento

será que ele
amadurece
ama e entardece
e cai em flor
ou em fruto
sozinho?

sei que abrupto
fica o astro
num querer
ser noite e dia
talvez pedaço
de melancia
lambuzando
os lábios da linha

não sei que deus
terá oferecido
a doçura o melaço
de um sol por
quando a noite
no seu esplendor
vem de vestido
enegrecido

tem um quê
de melado
o horizonte
assim deitado
num universo
entretecido

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(foto Paula Gomes)

domingo, 24 de maio de 2020

Acordo


Percorro
com passos
pesados
compostos
por tombos
tropeços
fins e afins
e começos
passados
e estremeço
combino
com o tempo
um momento
de simples
prazer
as papoilas
as espigas
as amigas
que irão ser
um cheiro
de calor
que calco
que aqueço
o corpo
de amor
adormeço
no tronco
na seara
na fonte
nas folhas
na miragem
a bagagem
com o sol
defronte
que esconde
o acontecer
e grito:
TEM DE SER!!

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)