sábado, 7 de outubro de 2017

Inutilidade das linhas


Fia a fiandeirinha
finamente as palavras

forma frases coloridas
forma frases sábias

Fia o fio finíssimo
e acende a porfia

forma frases belíssimas
forma frases bem vadias

Mas fia e vai fiando
molhando o fio nos lábios

talvez se pique na roca
no mundo rude dos sábios

talvez as suas palavras
fiquem presas nos alfarrábios

Foi num dia de outono
que percebeu a inutilidade
das linhas…

Rosa Alentejana Felisbela
07/10/2017
(Obra jean françois millet)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Que arte tens tu, amor?


No lado do azul
lambo os nossos sonhos
doces como o sul
com sabor a gelado
de verão

No lado do amarelo
trinco o abraço quente
e singelo
como o sabor da canela
que tem a praia trigueira

E dentro de mim
fico feliz por me lembrar
que os pés nus calcam
marcando o caminho
que se apaga com o mar

Amo a barba mal aparada
dos sargaços
e a falta de cabelo das dunas
mas a maré parada
leva para longe as loucuras

São as artes que o mar
transporta:
numa mão o querer
na outra o desejar
e um entendedor só pode amar
se souber dizer:
- amo o teu paladar!

Rosa Alentejana Felisbela
06/10/2017
(imagem da net)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

caminho


Continuo firme no meu caminho...
embora fique na linha
que separa a saudade que pisa
e o passeio que serena :)

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Corrosivo


Sobre a porta fechada
há um silêncio corrosivo
que bate desenfreadamente
segurando a desordem no batente

Ali mesmo, rente ao número
conhecido, a extinguir-se,
salienta-se a fundura da sombra

Ainda não sabe, nem conhece
o anel de fogo do sol
ou o branco ditoso
do perfeito lençol puro

Vai morrendo
sentado na pedra molhada
envelhecendo
do limiar daquela entrada

E o rumor do trigo de outubro
vacilante no espelho d’água
do poço defronte
extingue o rosto junto aos juncos

A queda
do sorriso que a boca encerra
seca a terra pela frincha
da fechadura…fatigada e só!

04/10/2017
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

sonho rosa


Que cada sonho seja
cada gota de orvalho
na rosa da vossa vida!
Recolham-nas
e preparem o perfume
de cada dia!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Rasa-me os sonhos


Rasa-me os sonhos
com mãos de luvas
temperadas de mel
para não haver qualquer ruído
que incomode o sabor
da falta que me fazes!
Prometo derreter-me
no oásis que o rio chorou
quando partiste
e eu não sou mais do que
uma página para leres
em silêncio, suave
e docemente.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

domingo, 1 de outubro de 2017

Lapso de tempo


O tempo
deitou a palha
na planície
qual toalha

onde
o rebanho ruminou
a mortalha do verde

o vento, barulhento,
farfalhou
levantando fagulhas
do momento

e o calor atiçou
o breve encandeamento
de um olhar

esse que deslizou
numa ausência
tão presente
quando disse:

- Estou a chegar!

Rosa Alentejana Felisbela
01/10/2017
(imagem da net)