sábado, 9 de setembro de 2017

Mãos de poeta


No elixir das mãos
a alquimia das rosas:

caem sépalas
em forma de versos

caem pétalas
em forma de prosas

e da harmonia
exalada

o odor do desfolhar
das palavras poderosas

um amor
in albis
em botões de emoções

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

A poesia do teu sotaque


A poesia é vaso delicado
contendo versos pronunciados
pela doçura da tua Língua:
ramagem bordada
ponto a ponto pelos teus dedos
à luz ténue do crepúsculo!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Braseiro


Luz à luz da lua
trémula tremura
ao longe
uma chama

- archote?-

num campo
de espanto

num canto
o eucalipto
no outro
o sobreiro
ali a cortiça

- das cinzas
o cheiro-

um cavalo
a trote
levando
o mensageiro

- má sorte?-

o fardo
da culpa
a palha
que se espalha
na noite
ardendo

o teu nome
na boca
do nascer
do dia
inteiro
morrendo

renascendo
braseiro

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

O teu Palácio de sonhos


Desdobram-se as ondas
abrindo o leito de espuma
ao espanto do olhar

e a areia, qual poalha estelar,
feita com estrelas do mar, acolhe
os corpos celestes cansados

uma promessa de sombra
prolonga-se na toalha verde-água
e arqueia as costas,
qual gato a ronronar

o tempo segue como molusco
passeando sobre
os relógios-de-sol
em caracol, na espiral das sensações

o sol beija os seios das sereias
sem rodeios, e transforma-os no bronze
que o olhar saboreia (como mel) no rosto
dos homens

há um sorriso côncavo nos braços
dos namorados, como peixes
alienados na arte do pecado
coberto de escamas suaves

depois pendura-se o horizonte
no Olimpo encoberto pelo véu diáfano da Lua
e viveste mais um dia
no teu Palácio dos sonhos!

Rosa Alentejana Felisbela
08/08/2017

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Súbito instante

Súbito instante

Pincelei de azuis
a estrada para ti
caminhante

Debrucei-me no cais
embrulhada na tua voz
de navegante

No cordame
depositei a fé
que mereces

Soltei os olhos
romeiros do horizonte

Encantada
emergi sereia
cantando a música
do mar (que conheces,
de trás para diante)

mas as tuas pegadas
evaporaram na espuma
naufragada na areia triste
num súbito instante.

Rosa Alentejana Felisbela
04/08/2017

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Emaranhado


No cordame
da minha memória
há um emaranhado
que me cativa
espalhado no branco
do barco
que me mantém viva

Amarro um beijo
à proa

Das vagas faço calmaria
e aguardo a brisa
da saudade boa

Das velas
faço a minha melodia

e no vai-e-vem balançando
ao ritmo dos acontecimentos
vou esperando

esperando
o teu abraço
de porto-seguro
ou de maré viva?

Rosa Alentejana Felisbela
05/08/2017
(imagem da net)

domingo, 3 de setembro de 2017

Puta de vida


O banho não lava
e o corpo
só cava mais fundo
as imperfeições
do diamante

Enfeita a pele
com brilhos e disfarça
os trilhos
feitos pela vida
agonizante

Coloca um bambolear
provocante no tacão alto
nos píncaros
da oferta e a graça
que vende no vestido
vermelho-coração

Sopra um trejeito
suspeito no cigarro
aceso
sobre o batom ousado
e esquece a palavra
“não”

Obedece às leis
do chulo
e decora a esquina
- a vitrina - a que
emprestas a saúde

E vês passar
o estalo, a lágrima,
a nota, a saliva,
o sémen e o nojo
- tudo e nada -
amiúde

Rosa Alentejana Felisbela
07/08/2017
(imagem da net)