segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ouro liquefeito


Entrelaça os olhos
nas entrelinhas do papel
ainda pardo de dor
mas sabedor de encruzilhadas
das regras da reescrita

gotejam pingos de negro
no asfalto da estrada
mas as bermas florescem
da cor faminta da levada
que a cascata grita

e o sabor do inesperado
ainda crepita na voz
que a secura dissolve
na água

mas as letras
adquiriram o tom
raro
que a pureza não perdoa

castiga

ouro liquefeito
que a sombra acobarda

Rosa Alentejana Felisbela

domingo, 21 de agosto de 2016

Partiste


Olhos sobre o ombro
lentamente
num abraço triste
às águas do rio

pestanas silenciosas
na luz promiscua
da certeza

assombro que abriste
à boca da rosa

e num sopro fugaz
apagou-se
a beleza

e partiste

Rosa Alentejana Felisbela


sábado, 20 de agosto de 2016

Porto, 05 de agosto de 2016


Vim ver-te, meu amor
ver-te ao Cais da Ribeira
mas descobri que a tua vontade
não era estar à minha beira

Vim ver-te, meu amor
ver-te à Torre mais alta
mas os Clérigos confidenciaram-me
que eu não te fazia falta

Vim ver-te, meu amor
ver-te à Rua Passos Manuel
mas as pedras da calçada contaram-me
que não seria só meu o teu mel

Vim ver-te, meu amor
ver-te à Câmara Municipal
mas os Aliados disseram-me
que eu não era, para ti, a tal

Vim ver-te, meu amor
ver-te à Igreja das Carmelitas
mas as beatas transmitiram-me
que havia amores bem mais catitas

Vim ver-te, meu amor
ver-te ao jardim do Palácio de Cristal
mas as árvores lembraram-me
que eu, para ti, não era especial

Vim ver-te, meu amor
ver-te ao belo rio Douro
mas os meus suspiros quebraram-se
e eu, livre, aguardei O amor sincero
e mais duradouro.

Rosa Alentejana Felisbela

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Letras estéreis


Ainda que as letras
moldadas pela tinta côncava
dos dedos
se deitem sobre o papel
numa atitude fastidiosa,
abertas às sensações,
jamais darão à luz
o poema escrito
pelo olhar,
falta-lhes a semente
que germina na imaginação!