quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Porto, 01 de agosto de 2016


Quisera eu guardar-te
nas entrelinhas
deste caminho de ferro
que percorro
numa estrofe
que a pedra assinalou

Quisera eu guardar-te
entre as metáforas matreiras
desta brisa que sopra
do lado do Douro
e que pressinto
como poema
que o ar destilou

Quisera eu guardar-te
entre a sinonímia do rugir das ondas
neste rabelo moldado de madeira
que o machado esculpiu
ao entardecer

Arrebol bendito
mostra o sorriso infinito
no mosto do meu paladar
segredando-me versos
que o esquecimento
sempre irá lembrar!

Rosa Alentejana Felisbela

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Coimbra – Igreja da Sé – 29 de julho de 2016


Lá fora chilreiam as vozes
das crianças e o bafo
do estio ensaia o golpe fatal

Cá dentro o som do silêncio
é ensurdecedor e ressoa
nos passos cansados do chão
de laje puída

Lá fora a rua desemboca
no tropel dos carros
e a luz procura, desenfreada,
cada recanto das fachadas

Cá dentro o sussurro
da água benta refresca a fronte
presa aos dedos no sinal da cruz

Lá fora abre-se a secreta
esperança de um fado feliz
na face ancestral
dos escritos em latim

Cá dentro emana um frescor
lavado na toalha branca
e perfumada do altar

Complementam-se os dois
como faces antigas da mesma moeda
e a vida corre ligeira
ou queda…

Rosa Alentejana Felisbela

domingo, 14 de agosto de 2016

Gerês – Hotel S. Bento – 08 de agosto de 2016


O azul das águas acordou tão claro
que o som dos sinos sorriu
de portas abertas
até ao amanhecer

Borboletearam-me as pestanas
ao ritmo da luz do dia
e abriu-se a rosa dos lábios
à água fresca do orvalho
dos teus

Quando os meus olhos
levantaram voo
já o verde das árvores
se abria, cúmplice,
à luz da manhã
em ninhos de alvor

Assim que a pele
recebeu os braços da água
navegou em mim
um barco
de nova esperança

Que nunca nos falte
a morfina da natureza
que relaxa os músculos
e nos devolve a fortaleza
dos dias

Rosa Alentejana Felisbela

sábado, 13 de agosto de 2016

Coimbra – Jardins da Quinta das Lágrimas – 31 de julho de 2016


Quantas lágrimas caras derramadas
Emergem na fonte onde tudo terminou
A carícia, o beijo ou um abraço sobrou
E tantas alegrias de amor esperançadas

Daquele rosto, as únicas formas lembradas
São o espelho gasto de onde tudo brotou
Como aquelas rosas que o jardineiro amou
E cujo perfume agora são águas passadas

Serpenteando de forma mansa e reluzente
Ficando presas na terra pouco a pouco
Elas são a única e trágica beleza inocente

Que neste inglório local se faz presente
Como prova da dor de um homem, quase louco
Que amordaçou um tal segredo tristemente

Rosa Alentejana Felisbela

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Coimbra, 29 de julho de 2016


A sonoridade da viola
acaricia-nos os ouvidos
como bruma envolvendo
a cidade, em cada canto
em cada abrigo

Soltam-se os pombos emproados
debicando as migalhas
de alegrias, de tristezas, de saudades
pousando nas calçadas
ou voando ao som das palavras

Juntam-se as capas negras
sobre os ombros de olhos cansados
que a noite foi longa
enquanto as vozes se afinam
quando passam casais de namorados

E o sorriso de cada passo
reverbera na gargalhada
da criança, do velho
para a foto que fica
para sempre
registada.

Rosa Alentejana Felisbela

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Constância, 27 de julho de 2016


No leito luxuriante
do rio confluente
de duas vidas
correm as palavras
da fonte
do poeta

e mais adiante
surge a relva revigorante
como semente
que a terra mima
rumo à felicidade
do poente

perfuma-se o ar
da cor verde
em vários tons
e as cigarras
segredam
sorrisos de verão

e o nosso beijo decalcado
de amor…lembra uma rosa
abrindo em botão
mas com asas de condor
vogando livre
na vontade
que conhecemos de cor!

Rosa Alentejana Felisbela

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Oração do meu olhar


Crepitam sonhos desfeitos
pelas paredes brancas
num ritmo infernal

alastram as labaredas
da raiva provocada
pela água menor de idade

queimam-se os verdes
aos gritos do cão
medonho

e cada arfar doloroso
é mais uma acha
para a fogueira

soltam-se lágrimas
da pele sequiosa
e murcha a força nos braços…

cada passo é pedra
rubra nas solas já mancas
de tanto correr

Quem me dera que chovesse
uma chuva de bênçãos
que circunscrevesse
os estilhaços das chamas!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)