terça-feira, 10 de novembro de 2020
ao meu lado
Que bandeiras e espadas
Que alegrias e ódios
Se soltam das tuas asas
Quando nem sequer te toco
Que vontades e chamas
Se alimentam quando
Te evoco
Que caminhos
Que montanhas
Se elevam no compromisso
No castelo de sonhos
Se chegas sem aviso
Mas que voo tão sonhado
Que engaste mais desejado
Quando és o meu abrigo
E te trago para o meu lado…
Felisbela Baião
08/11/2020
quinta-feira, 29 de outubro de 2020
Lamento...
Lamento as sombras. Lamento as lágrimas. Lamento o tempo perdido. Só não lamento o carinho que dediquei. Porque é ilimitado. Eu sou amor ilimitado, para os que me querem bem. Porém, existe em mim um NÃO tão redondo que nem consigo agarrar. Um CHEGA tão espesso que me é impossível ultrapassar. Dei e recebi. Muitas lições ficaram dentro do coração, outras deixei-as de fora para não me manipularem. Protegi-me como pude. Só não me protegi do amor. Ele vive em mim, sempre. Só não sou capaz de o passar para o papel. Isso dói. Magoa. Apodrece-me as palavras. Elas que são as raízes. E que árvore consegue vingar sem a sua raiz? Uma delas foi-me levada e nunca mais suportei a perda. Hoje a noite está negra…
Felisbela Baião
domingo, 25 de outubro de 2020
Este ano
Este ano está marcado
de noite contaminado
tem fases da lua iguais
tem planícies montados
estações e hospitais
asséticos médicos
enfermeiros professores
auxiliares desempregados
tem pregos nos caixões
ladrões de liberdade
muita palha e fardos
cada vez mais pesados
famílias famintas e ideias
geniais todas na rede
como animais rebanhos
vegetarianos obedientes
alarmistas mentiras e tiras
nas máscaras faciais
corações iludidos cabisbaixos
e fascistas e comunistas
e arraiais cada vez com mais
espetadores propagando
a propaganda de extremistas
mas a felicidade está dentro
da casa que sabe
ao sabor da vida!
Felisbela Baião
25/10/2020
quarta-feira, 21 de outubro de 2020
Trevo
Procuro o trevo
atrevo-me a querê-lo
porque a paz passeia
na ideia de o possuir
não se trata de ver
com os olhos focados
mas de comer
a sorte em bocados
e sorver o travo
para não enlouquecer
Felisbela Baião
02/08/2020
domingo, 11 de outubro de 2020
Predição
Pela divisão corria uma luz etérea. Vinha das estrelas que a janela deixava entrar. Lídia e a irmã, encostaram-se uma à outra, brancas de aflição, vestidas de negro. Branca era a parede onde uma bailarina parecia dançar em pontas os seus pliés. Brancos eram os dois galgos espantados, que a olhavam de soslaio, lançando uns uivos e latidos medonhos. Brancas as rendas suspensas, que anunciavam as brisas mágicas, qual fantasmas a assombrar o compartimento… Sobre a mesa havia bolas de cristal, movimentando-se de um lado ao outro da mesa, descendo a toalha, percorrendo o chão, numa azáfama sem mãos que as tocassem. Para completar a atmosfera, do lado oposto, encontrava-se um corpo com cabeça de pode branco, sentado num banco. Este acenou a cabeça. As meninas mantiveram-se em pé e fizeram a pergunta que vinha cravada nas gargantas: “Senhor, onde se encontra o nosso pai, que saiu de casa há dois dias e não voltou?” Nesse momento, nuvens escalaram as paredes e ocuparam o teto, como previsão de mau augúrio. Ele respondeu que o seu corpo se encontrava no desfiladeiro a Norte, mas teriam que correr para o apanharem vivo. As meninas agradeceram e saíram a correr para alcançarem o pai ainda vivo…
10/10/2020
Felisbela Baião
(imagem da net)
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
As sete bruxas
Sete bruxas se encontraram. Sete juras se firmaram na encruzilhada escura. Sete unhas rasgaram ramos e sete lareiras acenderam. Por luz traziam sete velas, as sete bruxas mais belas que a noite já pariu. Sete línguas arrastaram, pela terra. Sete vezes piou o mocho, de olhos arregalados. Sete gritos ecoaram nos sete cantos do mundo. Sete pecados vibraram num sismo atroz, bem fundo. Sete sombras se ergueram bem alto, e tão alto que os céus tocaram. Sete anjos acordaram com seus braços erguidos. Sete rezas rezaram e correram e voaram, e as lareiras apagaram, esconjurando as setes bruxas. As luzes das velas pingaram, na escuridão formaram e multiplicaram cada uma sete estrelas. Por isso, o céu fica tão iluminado, com as estrelas guardado, pelos anjos que as benzeram. E as bruxas correram, gritando de medo e susto, seguindo o seu Belzebu.
Felisbela Baião
08/10/2020
(ilustração de Paula Rego)
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