sábado, 9 de junho de 2018

Poeta banal


Dois potes de mel na voz
e uma guitarra a tocar na garganta
Olhos com asas negras de corvos
voando círculos em “v”
Nariz de pétalas que só cheira flores
no pensamento
Boca de canário rosado
corado de tanto amor pela vida
No peito cresciam raízes
de sonhos passados
e as mãos eram conchas
desfiando a harpa da insubmissão
com todo o carinho
Embriagava-se
quando a família se ausentava
há tanto tempo
Sobre os joelhos havia uma linha
separando o passado do presente
Enquanto os sapatos lustrosos
de tanta dor passeavam
nos olhos dos transeuntes
Vestia o fato impecável
dos mendigos
E desempenhava a sua personagem
como a caneta namora o papel:
era um poeta banal…
Trazia a luz do sol às costas
e um dicionário informal
no bolso,
para alguma eventualidade.
Um dia foi flechado
pelo cupido
pelas costas, à socapa,
e considerou um crime hediondo
ter a melancolia a subir-lhe
pelas pernas.
Ficou em silêncio, fumando
o céu coberto de escamas de peixes
e as lágrimas sufocando a desilusão…
A musa não correspondia
e desabrochava nas gaivotas do mar
e ele sentou-se numa pedra
para sempre
a pensar.

Rosa Alentejana Felisbela
09/06/2018
(imagem da net)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Coragem


Ensina-me a ler
o caminho que leva
o caracol,
de cenho cerrado,
franzido,
esforçado
pela rugosidade
da árvore.

Porque leva a marca,
o visco,
no corpo mole
que se arrasta?

Porque não pega
na casca
com mãos de borrasca
e força o músculo
do busto
para chegar
ao sol?

Ele sobe e sofre
revezes
por minutos
horas, dias, meses
e nunca desiste!

Explica-me porquê
se o meu corpo
não lê
o tempo que passa…

Diz-me se dói
quando a aragem
se enlaça
e corrói
a verdade lassa…

Porque a boca
é muda
e eu…preciso de ajuda
para ter essa coragem!

Agora ensina-me
a ler
e a fazer igual
sem nada temer…

Subir, descer
e voltar
e sentir por um dia
que não há mal
na sorte tardia
que quero
receber.

Ou então amarra-me
ao tronco
da árvore
e deixa-me
morrer.


Rosa Alentejana Felisbela
08/06/2018

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Desculpem-me...

Desculpem-me aqueles que esperavam poesia, mas quebrei todas as palavras quando as atirei de encontro ao muro. Vingou-se o musgo, pé ante pé, mordendo baixinho os cacos e o caos profundo dentro de mim. Hoje sou mulher de exibir na dança das urtigas. Os meus olhos envelhecem na cor das papoilas, mas o meu corpo é hera subindo esse muro, querendo a luz. Que a tarde se ponha por trás e nunca anoiteça no nosso semelhante. Até logo.
Rosa Alentejana Felisbela

quarta-feira, 6 de junho de 2018

História


A história nasceu
da maiúscula

ao crepúsculo
de dois olhares

foi nascendo parágrafos
fez-se capítulos

e imaginares, lembrares
braços e pernas e lugares

abusou das vírgulas
e engravidou os pontos

ainda sonha em terminar…

Rosa Alentejana Felisbela
06/06/2018

domingo, 3 de junho de 2018

Por dentro


Por dentro da paz
o escuro da terra

a astuta destreza
a sanha, a vontade
que ferra

os dentes na pele
no mapa do corpo
a fúria tamanha

do fogo
ah o fogo!

a chama que te chama!

que te envolve
que é adorno, manobra

por cima, por baixo
o ar que se entorna

o mundo é incêndio
nos olhos de quem
tanto se ama…

Rosa Alentejana Felisbela
03/06/2018
(imagem da net)

sábado, 2 de junho de 2018

A Boneca

Nasciam, todos os dias, manhãs agoniadas pelo leite que a ovelha teimava em doar. Aquela ovelha: a que tinha o nome de “Boneca” e a quem a menina dava pão endurecido nas suas mãozinhas pequenas. A ovelha que acorria ao chamado e aguardava a carícia e as confidências da menina agoniada, pelo leite da manhã. Para ser franca, todas as manhãs, a menina acordava sem fome e sem vontade de se vestir, e sem alegria para ir para a escola. Na verdade, a menina adorava aprender a juntar as letras, a escrever palavras, a criar textos, a desenhar galinhas, a pintar patos e ovelhas. Raros se tornavam os dias em que os seus desenhos não enfeitavam os cadernos dos amigos. Na realidade, a menina não tinha amigos, apenas uma quantidade de “outras crianças”, com idades diferentes da sua, ou da sua idade, que frequentavam a mesma sala de aula, mas que pouco tinham em comum com ela. Sobretudo na hora do intervalo, altura em que lhe roubavam o lanche, a empurravam para um canto e lhe chamavam “nomes de gente crescida”, daqueles que ela não se atrevia a reproduzir perto dos adultos, sob pena de apanhar uns açoites. As suas amigas, verdadeiras, eram as meninas de timidez superior à sua, de cabelos cobertos de insetos estranhos, de nariz sujo e roupas remendadas. A mãe recomendava-lhe que não se aproximasse delas, pois os seus cabelos compridos, cujo brilho e perfume eram o orgulho dos pais, adquiriam, usualmente, habitantes clandestinos, devido à convivência com elas. Mas as suas roupas lavadas, nada tinham contra as nódoas dos vestidos alheios. Os seus sapatos brilhantes, não conheciam barreiras perto dos sapatos ornamentados por solas gastas. Ela só queria brincar em paz. Mas a paz, nada queria com ela. Quantas vezes travava a guerra, dentro da sala de aula, com o olhar feroz da menina da carteira ao lado? E, simultaneamente, o recreio era palco de agressões por parte de crianças mais velhas, constantes ameaças efetivas aos seus cabelos, pontapés verdadeiros às suas pernas de criança indefesa? Quantas vezes, o seu orgulho a impedia de contar à professora a causa da sua tristeza constante? E o motivo dos seus textos curtos – que eram causa de gozo por parte da menina de olhar feroz? E o embaraço causado pelas dificuldades nas contas de somar, de subtrair, de dividir – que se tornavam a altura mais apropriada para a gargalhada de todos? Que razões teria para ir para a escola? Sentia-se bem em casa, a ouvir o rádio com as suas músicas preferidas, que aprendia com a facilidade de quem está habituado ao palco. Preferia as tardes em que voltava da escola, com o corpo moído e as negras encobertas pelas roupas, para se juntar às confidências junto da “Boneca”. Ela sim era a sua melhor confidente: secava-lhe as lágrimas na lã grosseira, escondia-lhe os segredos nos olhos meigos…só não a podia aconselhar a dar outro rumo às suas manhãs agoniadas e a maneira de se ver longe das agressões na escola.

Rosa Alentejana Felisbela
02/06/2018
(imagem da net)

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Sonha…


Tiveste a sorte nua da lesma
subindo pelo musgo
da parede branca

a casa está em ruínas
o mato verde
toma conta do quintal

e a mesma pele sonha
com um raio de sol
beijando o azul e o areal

as estrelas orvalham a noite
e tu, sedenta e húmida
mareias os verbos

numa poesia que entorta
a língua, num passeio
profundo ao fundo do mar

de beijos inesquecíveis
pingando todo um oceano
lentamente, lentamente

como se o mundo esperasse
o amor feito de casca
ou de casulo, a borboleta ideal…

capaz de aconchegar um poema
uma redondilha maior
num pedaço de raiz que conforta

e sonha, sonha ser real!

Rosa Alentejana Felisbela
01/06/2018
(imagem da net)