terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Espiralado


Na curva recurva
ponto por ponto
um círculo

olhar em sequência
do número, da cor

e um domicílio
como consequência

o vértice agudo
em prumo inspirador

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Pintura


Corre a água sobre os corpos
amassados, brandos, pachorrentos
sempre a amanhecer

Corre o tempo em segundos
que se querem alongar
e prender, perder…

Nas mãos a ânsia de morno
e um mundo de desejo
em combustão a deflagrar…

Nas bocas o sol nascente
mordendo os lábios quentes
num crepitar, sem nunca bastar…

E os sentidos comprimidos
latos, quentes, sensuais
em amplexos fogosos

um estio ternurento

e um único intento:

render…refazer pinturas
desiguais.

Rosa Alentejana Felisbela
Quadro "O beijo" de Gustav Klimt

domingo, 4 de dezembro de 2016

Búzio


Sedução pintada
de mar e espuma
borbulhando

rebento de areia
quase cor de neve

cada som oculto
na imensidão vibrando

beijo de sereia
que se deteve

em canção breve
e ondulante

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 3 de dezembro de 2016

(a)provar


Surge a sede primordial
pelo vinho robusto
– e honesto?

qual sonho abafado
– salutar ou funesto? –

em rolha reprimindo
a boca – a censura –

e o lacre singular
selando a garrafa
no mar – de ternura? –

deita-o em copo
transparente – cama real?

e vê da limpidez
– lençol de pano cru –
frugal

e agita o movimento
de círculos risonhos
– o peito nu –

as lágrimas escorrendo
– doce, doce, ilusão –

inspira profundamente
– sensação estonteante –

prova o gosto – o aroma –
e é paladar de fogo posto
ardendo

ato de puro indecoro
na mão silente – rosa rubra
em botão

– agora, memória tão distante…

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Caminho de folhas aromáticas


Se fosse fácil encontrar
a forma dos passos
no caminho por entre as folhas
que o eucalipto perdeu…

se a pele guardasse
o bálsamo das mãos
na fogueira acesa p’lo tempo
em cada suspiro…

se o tronco conquistasse
a calma subjacente
ao perfume calado
da sombra…

não haveria mais outono
nem ruídos para quebrar
nem o dia de amanhã
para respirar

e perder-se-ia o poder
curativo do asfalto das estradas

morreria o olfato
e toda a sensação harmoniosa

nem haveria pedra sobre pedra
nem cravo agreste ou doce rosa

e declinavam-se as estações!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Deixa-me ler


Não me tragas o livro com a capa mais bonita, para enfeitar as minhas emoções, porque eu quero saborear o conteúdo. Não sei se me entristece, ou me deixa feliz, já que toda a história carrega complexidade…Por isso, deixa-me ler.

Não me venhas trazer o resumo do livro, porque eu quero ler, com os meus olhos, cada letra, para compreender toda a história e tenho dificuldades em acreditar em heróis.

Não escolhas metáforas para embelezar as estrofes, dá-me as letras vernáculas, o Português literal, para eu tirar as minhas conclusões.

Por fim, se o livro não me vier acrescentar capítulos que eu queira realmente desfrutar, nem sequer mo abras. Deixa-o ganhar o pó que o tempo decompõe sobre a sua lombada. Não o quero ler.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Natividade


Com a luz intermitente
desnudando sombras delicadas

deslumbrando estrelas e sonhos
sob a forma de prendas amontoadas

percorres com os olhos
fitas de memórias na árvore
entrançadas

e vislumbras um papel
reluzente, que anseias tocar
retirando poeiras arquivadas

é o Natal chegando
com novas histórias
prometendo

o abraço terno entre o mar
o barro o canto
e a seara

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)