sexta-feira, 2 de outubro de 2015

É outono


Subestimei a árvore
que se desnuda inteira
por um rodopio de vento…
dei-lhe o benefício do rubor
colhido pelo tronco
numa fase de lua vermelha
e na dúvida
acertei no regato que corria
ali ao lado
desenfreado
por uma raiz astuta…
saltou-me o colorido das rochas
ao âmago dos olhos
e assim brotou o outono
de uma folha
a que chamei trovoada
no amarelo
que desbotava
o tempo!

Rosa Alentejana Felisbela
01/10/2015
(imagem da net)

Promessa de outono


Combinemos o preâmbulo, pouco ético, entre a chuva e a terra molhada deste outono. Na verdade, todo ele será poético, uma vez que se sente o aroma das madressilvas impregnado do hálito de Pã, enquanto Chronos converte o tempo em fénix renascida. Sabemos que, enquanto houver uma romã, os lábios serão o alvo frágil do mosto proposto por Baco. E que as uvas amadurecem a inquietação no sangue, e os trovões obrigam o céu a relampejar incessantemente perante as letras do nosso dicionário. Tudo o que observamos tem a forma de uma castanha ainda refugiada no seu ouriço, com o receio do contágio das gotículas que caem nas folhas abertas às cores do arco-íris. Também elas caem agora, perante as propostas indecentes de Éolo, murmurando a ladainha do vento que arrepia a alma, trazendo consigo o mesmo olhar e o presságio do doce de abóbora que combate as desilusões espalhadas pelo chão. O único consolo são as vidraças da janela, de olhos marejados pela chuva e encantados com o arrulho das pombas no fio dos telefones, apesar do pranto dos céus. Na certeza, porém, de que o Oráculo da natureza será preservado enquanto as minhas mãos puderem escrever uma única palavra de apreço ao prazer de beber um chocolate quente. Não existe caudal mais lindo e puro do que esse preâmbulo aberto às palavras de um poema por nascer…uma promessa!

Rosa Alentejana Felisbela
02/10/2015
(imagem da net)

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Altruísmo


Quando o sofrimento reverbera
No rosto de uma mãe que corre
Riscos de uma vida que escorre
P’lo desespero que a sorte impera…

Fica-me o coração despedaçado
Tomando consciência da fragilidade
De uma criança que não tem idade
Para carregar um peso tão pesado!

E ocorrem-me à memória “direitos”
Que ficam escritos no lindo papel
Mas que a luz ao fundo do túnel
Não serve para nos deixar satisfeitos…

Dói-me tanto o descontentamento
Dos que morrem sem ter consciência
Das maravilhas que a velha ciência
Implanta nas mentes do momento!

Enquanto uns passeiam nas redes sociais
Preocupados com as poesias “indecentes”
Outros fogem com os seus descendentes
De mortes tristes e injustiças descomunais!

Que inquietação tamanha seria
Viver num conflito desconcertante
Com um medo puro e constante
De virem buscar nossos filhos um dia!

Colocar uma arma nas mãos de meninos
E fazer deles soldados na longínqua Somália
É como fazer sentir uma eterna represália
Nas feridas abertas dos corações maternos…

São as mulheres perpetuamente assediadas
Que se apressam a sair daqueles países
Onde as perseguições as tornam infelizes
Psicológica, física e sexualmente abusadas…

Sofrem os homens constantes ataques
Por contrariarem um regime político
Onde é morto quem tem espírito crítico
Deixando famílias órfãs e carentes…

Detenhamo-nos, pois, no altruísmo
Na ajuda a ser reposta a igualdade
A quem precisa da nossa generosidade
Para ter um pouco de paz sem extremismos!

Rosa Alentejana Felisbela
29/09/2015
(imagem da net)

domingo, 27 de setembro de 2015

Ilumina-me e faz-me crescer!


Oh Zeus que sobre o cume dos cumes mais altos nesse Olimpo distante estás sentado!
Agora que terminou a primavera dos poemas cobertos do deleite da ambrósia e frutos silvestres, neste outono da vida, que me cobre o olhar de prata e ouro, atenta!
Repara na crosta de rugas que me cobre o tronco e diz-me quanta dureza ainda se espraia sobre a minha fronte, e eu mereço-a?
Bem sei que, por vezes, o vento torna-se agreste e envolve-me os sonhos de ruídos assustadores, de uivos agoirentos e do ribombar estridente dos trovões, enquanto as bátegas, zangadas, tentam vergar as minhas emoções, e os gritos da tempestade fustigam os meus ouvidos…
No entanto, nunca te esqueças das minhas raízes profundas no barro que tão bem conheço, feitas do ferro de que a idade me fez herdeira…elas dão-me de beber a fantasia e a inspiração que mereço, bem como a vontade de viver!
Sei bem que os meus ramos crescem na direção dos céus em prece e que já foram cortados (como a liberdade) vezes sem conta, mas eles são como os braços da “estrela-do-mar”, renascem sempre mais e mais com vontade de ficar! Sou prisioneira da vida, o que me deixa com o coração a bater de seiva bruta plena de amor…
Esses ramos encontram-se, agora, cobertos de folhas coloridas, que refletem o arco em íris trazido pela chuva, rubras do desejo que pousa sobre o pote de ouro onde mergulho e busco as letras com que escrevo para me entreter! Cubro-as com o pó que as musas soltam e invento alegorias quando a lua vermelha me vem ver…
Zeus, ilumina-me e faz-me sempre crescer!

Rosa Alentejana Felisbela
27/09/2015
(imagem da net)

domingo, 20 de setembro de 2015

Suave perecer dos sentidos


Enamorada
pelo olhar que tentas segurar
e encantas
e enlaças
e enlevas
e envolves
e enfeitiças
no suspiro que tento
reter

Enamorada
pela boca com que
me atentas
à fome
à sede
à lentidão
à lascívia
que soletro
sem perdão
no âmago do prazer

Enamorada
pela pele que provocas
quando tocas
e consegues
derreter
com mimos
com mãos
com mordidas
com malícias
e carícias
que nem tento
suster

Enamorada
pelo vício
que crias
no bulício
das ancas
das pernas
quando me arrancas
o gemido
contido
sentido
no ventre
nos seios
no ouvido
e quando me acompanhas
no doce amor
no suave torpor
no infinito perecer
dos sentidos.

Rosa Alentejana Felisbela
19/09/2015
(imagem da net)

sábado, 19 de setembro de 2015

Meu mar de sonho


Meu mar maravilhoso, sereno e manso
Minha vaga lenta que não me canso
De ver sempre chegar, de ver crescer…

Minha espuma branca e perfumada
Tocada pelo belo sol ou enluarada
Na minha praia de encantar, de prazer…

Minha areia amarelinha, criança traquina
Brincando nos recantos da menina
Que sou e que fui e continuarei a ser…

Minha alga colorida, branda e macia
Envolta em tanto sal, mel e ousadia
Mareando o meu corpo num terno entender…

Minha estrela-do-mar anil e flutuante
Perco-me nos teus braços a cada instante
Para sempre em meu corpo te quero prender…

Minha anémona linda, minha amálgama
De tão doce doçura que me tira a calma
no amor sem nexo, no sexo que só nós podemos fazer…

Meu cavalo-marinho enamorado e alado
Cavalgando, sem rédeas, o meu corpo suado
Que a minha alegria se regozija de ter…

Minha concha de rocha mais quente que fria
Aconchega-me e aquece-me na tua poesia
Escreve-me versos no meu humilde aprender…

Minha gota, minha bátega, meu “favo de sal”
Recebo-te inteiro, no nosso abraço especial
Nesta pele de trigo, oásis que sonhas voltar a beber…

Sonha-me sempre e nunca me irás perder!

Rosa Alentejana Felisbela
19/09/2015
(imagem da net)

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A constelação do Golfinho


Quando te digo que és a âncora que me segura a este mar-chão desejoso de ser conquistado pela esperança dos sonhos, julgas que não estou a falar a sério. Sei bem que tenho remos e que não existirão apenas vendavais a levantar ondas abissais, e que também existirão dias de calmaria, de bonança no equilíbrio de horas periclitantes. Porém, depende de mim e das velas que norteiam os sentimentos que nutro, o rumo da minha embarcação. Neste momento voo sobre ondas infinitas de prazer na tua direção. Mergulho nessas águas cristalinas dos corais que descreves com essas mãos de marinheiro-doce e deixo-me afogar de amor, amor, amar, amar…enquanto o êxtase se espalha e espelha no meu olhar, e ficas a brilhar na minha pele dourada e arrepiada de ternura! Só tu enfeitas o meu corpo de pérolas cintilantes de desejo. Sinto-me nereida de cabelos de algas ao vento, quando enleias os teus dedos num afago meigo como vagas, nos meus pensamentos mais íntimos sempre que deito a cabeça no teu colo. E sinto que tudo posso. Não posso? Só tu me contas as histórias que me embalam durante a noite e me fazem sonhar com esse mundo onde o oceano nos é eterno de partilha. Só tu perdes o teu tempo num discurso onde os sons do mar marulham e compreendem os meus porquês. No fundo, sopras-me brisas delicadas de entendimento na profundidade que assumo como nossa e que, jamais, alguém entenderá. É o nosso capricho, proibido por Poseidon de tridente na mão, mas abençoado por Nereu, na sua infinita sabedoria e justiça. Apenas porque somos metades de um todo uno, a estrela mais radiosa na constelação do Golfinho!

Rosa Alentejana Felisbela
17/09/2015
(imagem da net)