sábado, 8 de fevereiro de 2014

Tivesse eu asas…


Vapores vagos vagueiam
na mente do meu sonho…
Meliantes do abandono
a que votaste o meu ser…

Sozinha sinto o saque
ao doce mel dos meus abraços
e já nem te ouço nos passos
que o baque do grito
viveu…

E eu…
percorro a planície profanada
nas curvas onde me perdi,
pois, longa é a empreitada
a que, triste, me rendi…

Com a água rasa nos olhos
rasgo as ruas e as estradas
no dilúvio em que aluí
sem sortes bafejadas…

Corro e corro sem rumo
ao sabor da dura bruma
tivesse eu vida…
tivesse eu asas…
na mente do meu sonho!
Rosa Alentejana
(imagem da net)

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Arte de mordiscar…te


Mordisco o lábio da palavra alada,
como quem lambe o infinito
da verdade segredada, desejada…
não é ruído, nem grito, nem nada,
é o murmúrio embargado,
colado à tez do verbo soletrado
em sílabas silenciosas,
perfeitas como rosas harmoniosas
de inverno, exalando o perfume eterno
de quem sabe o que quer!
Mordisco a carícia dos olhos,
quando coloco cada acento circunflexo
no modo de escrever cada verso,
na forma de embarcar no amplexo mudo,
mas inteiro,
quando fazemos sexo,
entre aspas…
porque cada gesto perde-se
quando te afastas!
Mordisco levemente o luar dos teus beijos,
transportados nas estrelas cadentes
das reticências dos meus desejos,
lambuzados de indecências escondidas…
abandonados à sorte da escrita…
onde morro a cada novo anoitecer!
Rosa Alentejana

(imagem da net)

Fado triste


Caminho pelas ruas
em passos arrastados…

Segurando o tempo
nas mãos,
de pés nus, feridos, cansados…

Um gemido sangrento
brota consternado
dos olhos,
revelado pelos grãos de pó
arranhando cada doloroso
lamento…

Na voz trago o silêncio
consumido, velado
no procedimento
normal e sincopado
de quem sofre os resquícios
do vento…temporal
que emaranha
os meus cabelos negros
despenteados
pela solidão
neste desalento
do horizonte longínquo,
frio e atormentado…

E este vestido negro
e rasgado
amordaça-me o corpo desnudado,
febril de pecado,
enredado no arrendado dos dias
cinzentos, amarrotados,
presos na trama dos gritos
cortantes e gelados
da dor
do fado.

Rosa Alentejana
(imagem da net)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Quarto só


Estou envolta em lençóis de penumbra
no quarto esquerdo
de quem vive com os pés no chão.

As minhas janelas são feitas do negrume
que deslumbra o eco perdido
nos passos ausentes da mágoa,
sem ressurgimento possível.

E tanto faz,
se me enterro no colchão
do silêncio em apodrecimento,
ou se aterro o rosto na almofada
resignada de tanta solidão…

Os meus olhos são de cristal baço
no colo desta triste enormidade
e tenho os seios encrespados
na dormência cansada
de tanto me alimentar do “não”…

Tenho o ventre rasgado
na raiva do soluço que choro em vão…
e as minhas mãos são leitos ressequidos
de rios de lágrimas que foram
inundados por fraquezas
exaradas pelo entendimento!

Já não quero o meu coração…
esse que exangue bombeia
sentidos ocos às veias vazias…
ofereço-o às trovas cantadas pelos poetas,
esses falsos profetas
que encantam a mentira das rimas…
e no final,
apenas ofertam a mesma sina
à lua aleivosa e petulante,
pois não existem mais sonhos para viver…

Estou nua…neste quarto
fadado para não mais renascer!

Rosa Alentejana
(imagem da net)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Devir


Apenas o latejar das palavras mudas...
das desculpas inaudíveis...
elas descem pelo rosto da tarde
numa nascente que se fez mar...

Apenas a solidão é um véu ténue
que arde na pele
e começa a evaporar
a fantasia
no futuro do agora
sem forças para retornar...

Apenas a chuva...água e estrada molhada
da insónia
da noite anterior...
e aquela moinha que faz a mágoa
nas feridas
e a dor...a dor…

Apenas o balançar desgovernado
do barco remando
contra a maré
e o abalroamento
que faz do equilíbrio
o lamento
que não permite
ficar em pé...

Apenas o som gotejante
e ensurdecedor
que as penas fazem
ao cair
no cérebro em carne-viva
faz acordar o odor
a terra embebida
em devir!

Rosa Alentejana
(imagem da net)

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Artesã de sonhos


As tuas mãos de pano gasto e desbotado pelas intempéries roçam o tecido delicado e transformam os meus sonhos em vestidos encantados!
Atenta, sigo cada ponto, costurado com toda a ternura, escutando a ladainha que o conto faz na tua máquina de costura…
Sorrio aos caminhos traçados pelo tempo no teu rosto, tens tantos factos passados guardados em gostos e desgostos…
Contas-me do encanto que a luz do dia tem nos teus olhos cansados, na suave melodia da linha na agulha, passando pelos tecidos baratos.
Olho o trabalho terminado com orgulho em ser tua neta…um dia vou ser como tu…uma artesã de sonhos velhinha, amorosa e discreta!

Rosa Alentejana
(imagem da net)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Nuvem plúmbea de silêncio


Aquele silêncio queima-me a pele
numa ânsia que não nomeio,
porque me mata e leva com ele
o fumo do cigarro feito de solidão,
que fica na madrugada arquejando
nos dedos trémulos da mão…

Aquele silêncio arde-me nos olhos tristes,
num brilho incolor, em planícies cobertas
de rios de colheitas amarguradas,
infecundas, secas de amor…

Aquele silêncio anestesia-me a mente,
cortando as sinapses nervosas,
de forma inclemente, num abandono
de lágrimas ao vento, gritando, gemendo…

Aquele silêncio mergulha-me no mar alto,
sem pé, sem abraço, sem sorriso,
num cansaço sem fé, ou corda ou laço…
E eu sem ar respiro, sem fé rezo, sem ti…
sou apenas uma nuvem plúmbea de silêncio.

Rosa Alentejana