segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

Coreto


No meio, bem no centro
havia o coreto
de teto desgastado
pelas intempéries
muito quieto
sobre algumas colunas
enferrujadas
e as escadas
feitas de pedras
puídas e encaixadas
no farrusco corrimão
levam até às flores murchas
plantadas em redor
lembrando tantos versos
alguns de amor
de mãos entrelaçadas
e olhar feliz
mas esta é a hora
das folhas acastanhadas
caídas e pisadas
por quem passa
sem ver a graça
de outrora
só o felino caça
uma borboleta
e lambe as patas
erguendo de forma discreta
o corpo maleável
rumo a um canto
banhado de luz
que o acolhe no sono
enroscado da meia sombra
em contraluz…
Sopra a brisa da saudade
e emaranha-me os cabelos
na vontade
que o tempo passou…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
16/02/2020
(imagem da net)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Sonho de mar


Arrepiadas de saudade
cantam as águas
perante a voz do pássaro
esguio, escondido nas folhas
cintilantes das oliveiras

Perdida nos passos
suspiro pelo sol e penas
a voar, sem norte
num céu itinerante,
cigano sem medo da morte

No bolso um lápis
de escrever palavras tristes
e uma borracha
de apagar fragilidades

Aliso a folha amarfanhada
pelo tempo e reescrevo
a canção de me lançar
nos teus braços, quentes

Sou salto do peixe
que respira um segundo
fora da água do teu corpo
ansiando pelo sorriso profundo

Já não sei se amo o gesto
cansado de tanto chorar
ou o som do chilreio
que me faz encantar

Pesa-me o cinzento
das chamas apagadas
da fogueira errante

No peito vagueiam
recordações singelas
e abrem-se as janelas
de par em par

Quero o cheiro
Quero a brisa
Quero olhos nos olhos
Acordar no sonho
De mar que se eterniza

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
13/03/2020
(imagem da net)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Inocente


Hoje dói-me o silêncio
e este gigantesco vazio
que me tolda, que me arrasta
e me verga no frio

Hoje as nuvens cinzentas
correm lentas, vagarosas
sobre campos, sobre estradas
como mantas pesarosas

Hoje as oliveiras paradas
olham-me cobertas de tristeza
sabendo que a miragem
sobre as águas é uma certeza

Também as ervas que crescem
na sua pressa, lentamente,
me fitam num desfolhar,
a chorar pelo sol ausente

Hoje abri os braços
à brisa vinda do poente
senti aquele abraço
de regresso inocente

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
13/02/2020

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

(Des)esperança

Arrasto os passos pela estrada, num movimento desalentado. Sou filha das espigas douradas, tenho no corpo o sol acorrentado. Por isso, tenho a pele morena e mesmo rugas de expressão. Minhas lágrimas são mar salgado, criado p’la imaginação. Meu coração é de papoila serena, minhas veias de céu azul e vento suão. Carrego nos olhos as planícies, ondulando ao som da paixão. Mas meus pés nos tempos difíceis não me dão paz. Apenas solidão. Ensanguentados vão seguindo, por rochas pontiagudas e barro seco, mesmo assim eu vou sorrindo, perante o vazio deste degredo. Ouço ao longe uma voz que chama, e avanço dorida nessa direção. É o rio que corre num turbilhão que me agride, o cheiro da água vestida de limos. Porém, o meu corpo precisa da loucura da luz e da água fria. E eu, lentamente, nua, entro na frescura, lavo-me das tormentas e da ausência de rima. Porque aquilo que sinto é só um poema, despido de ideias ou de esperanças. Aos poucos as frases da boca vão saindo, são versos quebrados, mas repletos de lembranças…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
05/02/2020

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Carrossel de fantasias


Levanto os olhos sonolentos e vejo a erva verdejante bordando as raízes das oliveiras. As folhas prateadas enfeitam as copas, tornando-as rainhas da paisagem. O banco do carro reclinado oferece-me o repouso merecido às memórias. A monotonia do som das águas embala-me alguns sonhos felizes. Um rumor de asas levanta voo para longe e eu afasto um pensamento nefasto. Coleciono palavras tontas no meio do turbilhão de frases descabidas. Sofri um surto de saudades e senti o perfume da tua voz no palato. Uma nuvem de algodão doce beijou-me o rosto carinhosamente e eu pensei no carrossel onde andámos juntos no dia da feira. O alvoroço das minhas saias e as tuas mãos preocupadas, querendo guardar os risos. O meu cabelo emaranhado nas tuas faces coradas e o desassossego do meu coração. A música era a de sempre e não atrapalhava os nossos sentimentos. Escutámos muito bem, quando as nossas bocas proferiram a palavra amor.

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
03/02/2020

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Lentamente o sol…


Não existem palavras certas
Escritas na superfície da água
Nem no barro das estradas
Sobram sons e mágoas
O tempo passa lentamente
E ficam os braços
As pontes e os abraços
Abro os olhos e o mundo
Acredita que existiu um amor
Tão profundo…
Como o azul do mar
Guardado na fogueira do coração
No ninho das mãos
Soprado aos quatro ventos
Em apenas…um ou dois momentos
E resta o calor
E o sabor
A sol…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
30/01/2020

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

“Me faltas”


Quantas vezes estivemos sentados neste lugar, de frente para o “nosso mar”, sabendo-o cheio de tormentas para acariciando-o com o olhar? Nunca me disseste em que pensavas, deixavas-me adivinhar…
Tu, talvez a creres ser sempre a última vez. Eu a acreditar que te renovaria e ali voltarias comigo sempre…Sonhava. Alguns sonhos são de realizar. Outros são de abandonar. Mas eu nunca te abandonei.
Quantas vezes te perguntei o nome de uma ave, que tipo de peixes viveriam naquela escuridão. Mas, tu contavas-me o que sabias, porém mergulhavas na tua própria escuridão.
Quantas vezes quiseste ir ver “a altura” que a água tinha? De dentro da tua memória, afirmavas com a certeza de um sábio, que a barragem já tinha estado mais cheia.
Cheia de lágrimas ficava o meu e o teu coração, cada vez mais unidos, cada vez mais separados.
Quantas vezes te pedi que cantasses comigo a canção da água, mas tu já tinhas perdido a sede e só ouvias o som amargo da foice a cortar, cada vez mais perto…
Quantas vezes te disse, agarrada ao teu braço e de mão enlaçada na tua, que ninguém nunca nos roubaria aqueles momentos. Aqueles em que os peixes saltavam e voltavam a mergulhar, aquele voo picado do pato bravo rasando as águas, ou o piar dos pardais a cantarem canções de despedida…
A despedida chegou, e foste embora, meu porto de abrigo…E foi tão turva como as águas que a barragem tem em dias sombrios.
Hoje, estava um desses dias, mas eu senti um raio de sol a evaporar as minhas lágrimas. Deixei-as no fundo da barragem. Porque era assim que me querias, com um sorriso no rosto. Amo-te tanto pai!

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
29/01/2020