quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Inocente


Hoje dói-me o silêncio
e este gigantesco vazio
que me tolda, que me arrasta
e me verga no frio

Hoje as nuvens cinzentas
correm lentas, vagarosas
sobre campos, sobre estradas
como mantas pesarosas

Hoje as oliveiras paradas
olham-me cobertas de tristeza
sabendo que a miragem
sobre as águas é uma certeza

Também as ervas que crescem
na sua pressa, lentamente,
me fitam num desfolhar,
a chorar pelo sol ausente

Hoje abri os braços
à brisa vinda do poente
senti aquele abraço
de regresso inocente

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
13/02/2020

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

(Des)esperança

Arrasto os passos pela estrada, num movimento desalentado. Sou filha das espigas douradas, tenho no corpo o sol acorrentado. Por isso, tenho a pele morena e mesmo rugas de expressão. Minhas lágrimas são mar salgado, criado p’la imaginação. Meu coração é de papoila serena, minhas veias de céu azul e vento suão. Carrego nos olhos as planícies, ondulando ao som da paixão. Mas meus pés nos tempos difíceis não me dão paz. Apenas solidão. Ensanguentados vão seguindo, por rochas pontiagudas e barro seco, mesmo assim eu vou sorrindo, perante o vazio deste degredo. Ouço ao longe uma voz que chama, e avanço dorida nessa direção. É o rio que corre num turbilhão que me agride, o cheiro da água vestida de limos. Porém, o meu corpo precisa da loucura da luz e da água fria. E eu, lentamente, nua, entro na frescura, lavo-me das tormentas e da ausência de rima. Porque aquilo que sinto é só um poema, despido de ideias ou de esperanças. Aos poucos as frases da boca vão saindo, são versos quebrados, mas repletos de lembranças…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
05/02/2020

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Carrossel de fantasias


Levanto os olhos sonolentos e vejo a erva verdejante bordando as raízes das oliveiras. As folhas prateadas enfeitam as copas, tornando-as rainhas da paisagem. O banco do carro reclinado oferece-me o repouso merecido às memórias. A monotonia do som das águas embala-me alguns sonhos felizes. Um rumor de asas levanta voo para longe e eu afasto um pensamento nefasto. Coleciono palavras tontas no meio do turbilhão de frases descabidas. Sofri um surto de saudades e senti o perfume da tua voz no palato. Uma nuvem de algodão doce beijou-me o rosto carinhosamente e eu pensei no carrossel onde andámos juntos no dia da feira. O alvoroço das minhas saias e as tuas mãos preocupadas, querendo guardar os risos. O meu cabelo emaranhado nas tuas faces coradas e o desassossego do meu coração. A música era a de sempre e não atrapalhava os nossos sentimentos. Escutámos muito bem, quando as nossas bocas proferiram a palavra amor.

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
03/02/2020

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Lentamente o sol…


Não existem palavras certas
Escritas na superfície da água
Nem no barro das estradas
Sobram sons e mágoas
O tempo passa lentamente
E ficam os braços
As pontes e os abraços
Abro os olhos e o mundo
Acredita que existiu um amor
Tão profundo…
Como o azul do mar
Guardado na fogueira do coração
No ninho das mãos
Soprado aos quatro ventos
Em apenas…um ou dois momentos
E resta o calor
E o sabor
A sol…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
30/01/2020

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

“Me faltas”


Quantas vezes estivemos sentados neste lugar, de frente para o “nosso mar”, sabendo-o cheio de tormentas para acariciando-o com o olhar? Nunca me disseste em que pensavas, deixavas-me adivinhar…
Tu, talvez a creres ser sempre a última vez. Eu a acreditar que te renovaria e ali voltarias comigo sempre…Sonhava. Alguns sonhos são de realizar. Outros são de abandonar. Mas eu nunca te abandonei.
Quantas vezes te perguntei o nome de uma ave, que tipo de peixes viveriam naquela escuridão. Mas, tu contavas-me o que sabias, porém mergulhavas na tua própria escuridão.
Quantas vezes quiseste ir ver “a altura” que a água tinha? De dentro da tua memória, afirmavas com a certeza de um sábio, que a barragem já tinha estado mais cheia.
Cheia de lágrimas ficava o meu e o teu coração, cada vez mais unidos, cada vez mais separados.
Quantas vezes te pedi que cantasses comigo a canção da água, mas tu já tinhas perdido a sede e só ouvias o som amargo da foice a cortar, cada vez mais perto…
Quantas vezes te disse, agarrada ao teu braço e de mão enlaçada na tua, que ninguém nunca nos roubaria aqueles momentos. Aqueles em que os peixes saltavam e voltavam a mergulhar, aquele voo picado do pato bravo rasando as águas, ou o piar dos pardais a cantarem canções de despedida…
A despedida chegou, e foste embora, meu porto de abrigo…E foi tão turva como as águas que a barragem tem em dias sombrios.
Hoje, estava um desses dias, mas eu senti um raio de sol a evaporar as minhas lágrimas. Deixei-as no fundo da barragem. Porque era assim que me querias, com um sorriso no rosto. Amo-te tanto pai!

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
29/01/2020

segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

Baile na aldeia

Era dia de baile na aldeia. Os homens já tinham trazido as verduras frescas para forrar o chão de terra batida. Os lampiões estavam acesos, derramando o seu cheiro característico pelo ar. As concertinas descansavam ainda sobre as cadeiras de bunho colocadas em volta. O pequeno degrau da parede acolhia as quartas de barro com água do poço fresca e cristalina, porque a sede não se faria esperar. Algumas garrafas, dispostas em fila, guardavam o precioso néctar que serviria de remédio para aclarar as vozes que cantariam à desgarrada.
Em casa de Mariana, no pequeno monte caiado, encontravam-se as duas primas, na tentativa de convencerem os pais a deixarem-nas ir ao baile. Porém, o “jogo habitual” ainda não parara, deixando as raparigas desesperadas:
- Mãe, podemos ir ao baile?
- Vão perguntar ao teu pai!
- Pai, podemos ir ao baile?
- Vão perguntar à tua mãe…
E assim ficavam, entre os dois, durante minutos que lhes pareciam horas, até um deles decidir dizer que sim, ordenando-lhes o regresso à meia-noite em ponto, sem aceitarem contestações.
As raparigas não queriam ouvir mais nada. Mal se continham de alegria. Foram vestir os seus melhores vestidos (sem decotes e com a barra por baixo do joelho, como faziam as moças sérias) e aprumaram as permanentes.
Quis a meteorologia que nesse dia tivesse trovejado e chovido imenso, o que significava que a escuridão mergulhara os campos sem lua ou estrelas que as guiassem.
Habituadas aos campos, conhecendo cada pedra e cada ladeira, foram caminhando pela lama da vereda mais curta para chegarem rapidamente à aldeia.
Tagarelando durante a caminhada, rindo deste e daquele que iriam ver no dito baile, desdenhando de um, demonstrando o agrado por outro, aconteceu o inesperado.
A prima de Mariana escorregou na lama e caiu sobre a água de um ribeirinho que se formara durante o temporal da tarde. As primas não se contiveram e riram a bom rir, no entanto a apreensão cresceu, quando se deram conta de que o vestido e os sapatos se encontravam ensopados. O que fazer no meio da escuridão?
Era tarde para voltarem ao monte e trocar de roupa. Mariana vislumbrou uma luz ao longe e dando o braço à prima encaminharam-se para o monte de uma vizinha.
A vizinha ao ver o estado da rapariga, naturalmente não negou ajuda. Com toalhas secaram a rapariga. Com o ferro de brasas secaram rapidamente o vestido e junto à lareira onde se fazia a comida secaram-se os sapatos.
Quando se sentiram prontas, voltaram à vereda e ao chegarem tinham uma verdadeira aventura a contar às amigas. Dançaram muito e cantaram, mas só até perto da meia-noite, porque a hora marcada pelo pai era para cumprir.
27/01/2020
Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(imagem da net)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

A dança da vida


O som dos saxofones ouvia-se cada vez mais perto. Aquela voz doce e quente abraçava a alma e o coração. A entrada estava mal iluminada. Um casal abraçado vinha a sair a sorrir de felicidade. Quase iam de encontro a ela, mal conseguindo evitar o contacto. Ela sentiu o perfume deles, misturados, e um leve odor a suor emanava das suas roupas. Sentiu algum constrangimento pela proximidade e por permitir-se intuir tanto daquelas pessoas desconhecidas. O corredor era estreito, ela avançou devagar, deixando que a música a chamasse. Os seus olhos foram em direção à luz ténue da sala. Iluminada em locais precisos, permitia ver os casais a dançar na pista. As lantejoulas dos vestidos das mulheres, contornando-lhe os corpos sensuais eram fascinantes. Os homens estavam vestidos de negro e moviam-se com graciosidade quase feminina. No entanto, um olhar mais atento permitia-lhe ver a sua masculinidade de gestos mais robustos. Ela foi contornando a pista até encontrar mesas e cadeiras. Sentou-se observando a envolvência com toda a atenção. Mas ficou só por pouco tempo. Um homem ofereceu-lhe a mão propondo-lhe dançar uma rumba. Ela aceitou e retirou o casaco pesado que lhe ocultava o corpo esbelto. Ele levou-a para o centro da pista, largou-lhe a mão e afastou-se. Ao sinal que lhe deu, ela avançou para ele com toda a elegância e seguiu-lhe as indicações. Eram o par mais belo do salão. Não se conheciam, mas entendiam-se como se fossem um só. Os restantes pares afastavam-se sempre para os deixar brilhar. No final das cinco músicas, ela agradecia-lhe sorrindo, pegava no casaco e desaparecia. Todas as quintas-feiras se encontravam no salão. Passavam toda a semana desejando que chegasse aquele momento. Porém, ele nunca tivera coragem para lhe fazer qualquer pergunta. Ela nunca tivera coragem para lhe explicar nada. Ao chegar a casa, ela abria a porta e uma voz perguntava: ”És tu filha?”…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
09/01/2020
(imagem da net)