segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Multicolores


Multiplicam-se os véus entre os caules, suaves em ondas, como se de espuma se tratasse. São as obreiras de corpos macios e com muitas patas que os fabricam. Ligam verdes a lilases, sementes a troncos. E os dedos, mínimos, pousados, seguram-se a fios impossíveis, tão leves como as plumas que vestem os corpos de bicos direitos e olhares espertos e atentos. Ao mais pequeno ruído, o voo é certo. Ao mais silencioso movimento apanham o verme lento, que caminha imprudente, rumo a alguma folha pretendida. Perante um chilreio ou outro, a vida continua no seu ritmo de fantasia, enquanto a realidade nos dita as horas e diz de dedo em riste: Amanhã há escola!
Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
16/09/2019
(foto de Maria Manuel Neves)

domingo, 15 de setembro de 2019

De Roma


De Roma te escrevo letras ciganas. Rodo a saia colorida ao ritmo da nossa balada. Mostro o decote generoso, do meu peito apaixonado. Mas as minhas palavras gentias, não cabem no teu mundo de romance proibido. Pousas num verso, alcanças uma rima, mas voas cada vez mais alto, mais longe, mais distante. O barco onde navego naufraga-me na dor, mas nunca no tamanho. Se a minha silhueta não cabe nas tuas retinas, não insisto, nem me diminuo. Penteio os cabelos com o silêncio negro e envio-te o abraço da cinza que transforma o horizonte onde o sol se deitou em chamas. Do cimo dos meus pés descalços vejo o mundo coberto de pétalas de rosa. Sentes o perfume?

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(imagem da net)

terça-feira, 10 de setembro de 2019

apaga


Apaga-me os planos, apaga-me o rosto, apaga-me o sorriso. Mas não deixarei de existir na tua vida. Saberás que estive nos teus braços, naquele ponto íntimo que tem a estrada antes do anoitecer. Saberás que me apoiei no teu ombro na curva mais larga, quando as rodas do carro tremiam de antecipação. Saberás que horas eram no relógio pejado de vida e a palavra soprada pelo ponteiro do relógio de sol. Saberás que o meu perfume te suspirou ternuras ao ouvido, e que as nossas mãos se tocaram na sombra curta do calor. Faz frio esta noite. E a lua caminha em forma de cigana pela minha rua. A cinza da fogueira ficou adormecida…ronronando brasas que podem ser de despedida.

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
10/09/2019
andrea torres balaguer photography

domingo, 8 de setembro de 2019

Chuvisco


Há um chuvisco guardado na nuvem pesada de céu. O vento cativa o cheiro a terra molhada. Uma poeira arenosa vasculha os cantos dos olhos e ficam a relampejar raios de sangue por dentro do branco quebrado do globo ocular. Sinto o vidro rachado do brilho arranhando com unhas de tristeza. Por fora há uma torrente que me escapa, conhecendo a tua ausência por dentro. Esse sal que ecoa no silêncio das palavras que conhecemos amarfanha-me a alma vazia de tão cheia! Suplico-te a pureza da razão, o segredo da verdade sublime…Do céu tombam, finalmente, flores da cor do arco-íris, colorindo os abraços dos amantes. O poema é um gesto diluído nas linhas de uma nova página.

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

sábado, 17 de agosto de 2019

Poeira


Sopra, Amor, esse
teu sopro
sobre o meu corpo
de areia

teu hálito
de maresia
da tua boca
de maré cheia

pode ser
que essa aragem
me transforme
em grãos de poeira

e eu
não seja mais
do que passagem
de pegadas de sereia

ou que minha pele
se esfume
na espuma
que o mar branqueia…


Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

sábado, 20 de julho de 2019

Silêncio


Calaram-se
todos os silêncios

balbuciam as folhas
segredos amargos

o vento rumoreja
mistérios intensos

e o cheiro da erva
sugere afagos

sigo as abelhas
no beijo consolador

inspiro a paz
por trás do valado

pressinto o sabor
do bago de sol

colhido entre o
sombrear calado

coloco o indicador
sobre os lábios

shhhhhhhhh
03/07/2019 16h55’
Quinta de Lourosa
Rosa Alentejana (Felisbela Baião)