quinta-feira, 11 de abril de 2019

Que a onda venha


Que a onda venha
Que o mar te traga
Que eu fico sem pena
Na areia sagrada
Que a onda venha
Que o mar te traga
Que eu aguardo a espuma
Envolta na vaga
Que a onda venha
Que o mar te traga
Que a saudade envenena
E a ausência me enfada
Que a onda venha
Que o mar te traga
Que eu sinto inveja
Do sabor do sal
Que a tua pele alveja
No escuro abissal
Que a onda venha
Que o mar te traga…
Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

As rosas que plantaste


As rosas que plantaste no quintal continuam a sua saga de cor e perfume, em arroubos de primavera ventosa e fria. Recordo-te sentado na cadeira que balançava com os teus pensamentos mais tenebrosos. Aquela cadeira onde descansavam os teus ombros fatigados, vestidos com o casaco de lã da cor da esperança que te fugia, por entre os dedos do tempo. E as tuas mãos, cada vez mais tristes, repousavam no teu colo de carinho e tanto amor. De boina sombreando os olhos, protegendo os parcos cabelos brancos, olhavas as rosas alaranjadas. Por certo pensavas na aventura de trazeres uma “poda” de França, dentro da mala de cartão que guardavas sobre o roupeiro, ganhando o pó das lembranças árduas. Tinhas um mar nos olhos, e as palavras trancadas na garganta. O cão aproximava-se e lambia-te as mãos pedindo atenção e tu fazias-lhe a vontade. Tu não querias partir. Não querias embarcar na viagem. Não querias deixar os que amavas. E comias o silêncio, mordias palavras e aceitavas abraços que ficaram na memória para sempre. Escutavas o som dos pássaros a cantarem as “modas” que amavas e cortavas o horizonte em pequenos bocados para levares guardados nos bolsos. E as rosas que plantaste, continuam a crescer no quintal, rumo ao céu onde te irão, certamente, encontrar.

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
10/04/2019

segunda-feira, 1 de abril de 2019

Gotas


Caíam lentas a gotas que lavavam as ruas. Que abençoavam o pó transformado em barro. Que desaguavam nos regatos. Que iam ao encontro dos barrancos, formando pequenas poças. Também os meus olhos corriam como sombras, com a deslocação da água, através das vidraças da janela. Paravam na esquina da parede vestida de cal e de azul da casa da frente. Era a moradia do Carlos Aventureiro. Dizia-se que o Carlos tivera várias mulheres. Umas solteiras, meninas prendadas e de famílias ricas. Outras casadas, mas sonhadoras, que viram no Carlos uma forma de fugirem de casamentos insatisfeitos. Outras viúvas e carentes. O que unia estas mulheres era tão-somente a solidão. Aquela sensação de falta que rasga por dentro, que dilacera as entranhas em mil bocadinhos transformados em lágrimas que nunca secam. Aquela solidão que olha para as gavetas vazias. Que vê a ausência sentada na beira da cama. Que ensurdece os sons da fala. Que carrega a cegueira às costas como brinde- surpresa para o coração. Mas o Carlos era parecido com o pássaro exuberante, que não tinha ninho certo. Exibia a plumagem, emitia o chamamento mais ousado, a dança mais apelativa, mas nunca ficava. Ao passar um ou dois meses de namoro, batia asas e voava para outras paragens. Ficavam as damas a transbordar tristezas, e os familiares a jurar vingança. Quis o destino que se estabelecesse na minha terra, justamente na casa da frente. Nas suas idas e vindas enamorou-se da minha avó Clotilde, senhora da mesma idade, viúva há muitos anos. Todos os dias ele lhe deixava um raminho de camélias no parapeito da janela, mas a avó deitava-o para a rua, cheia de indignação por ele não respeitar a sua condição e as vestes negras que carregava. Uma vez, cruzou-se comigo na rua, retirou o chapéu respeitosamente, e deu-me o raminho para lhe entregar diretamente, juntamente com um rebuçado para me comprar a cumplicidade. Sorri, agradeci e entrei aos saltos em casa fazendo o que me pedira. A avó Clotilde zangou-se comigo e voltou a atirar o raminho pela janela. Fugiu o sorriso ao rosto do Carlos. Andava agora tristonho, passava na rua ensimesmado, carregando o peso das recusas da minha avó. Quis o destino que a minha avó partisse por culpa do coração destroçado pela ausência do meu avô. Foi quando o Carlos passou a colocar os seus raminhos de camélias sobre a campa da avó Clotilde. E eu fico sempre à espera que ele regresse a casa, com receio que algo lhe aconteça. Por fim, vi que acabou de entrar em casa, de casaco escuro escorrendo tristeza das mangas. O chapéu-de-chuva tombara à entrada da porta, deixando que as gotas se alojassem nos cabelos brancos do Carlos. A vida tinha sido uma procura de ninhos, e o ninho que ele aprendera a amar nunca o alimentou. O meu olhar cuida do Carlos, enquanto o meu coração transborda de compaixão pelo amor que ele nutre pela avó Clotilde…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
01/04/2019
(imagem da net)

domingo, 24 de março de 2019

Desfeito na espuma


És mar manso
inteiro e bravio

doce remanso
em proa suspensa

sorriso de arco
íris de esperança

que traga o rio
da minha lembrança

corpo quente
de onda

vendaval de espuma
de ternura branda

a gota que abre
meu ventre de bruma

a chuva copiosa
que por vezes
me afunda

me ergue sereia
e em palavras
me abraça

és mar de poesia
e eu sou tua

sonho que flutua
em completa rosa…

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
24/03/2019

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Aeroporto


Antes da lembrança
apenas havia
a linha dos carris

hoje pondera-se a segurança
e o gasto de energia
-faltam pingos nos is-

Preocupa-nos o impacto
no ambiente?
E o absurdo fator poluente?

E vai mudando de lugar
o conflito, o interesse
- a estudar no presente-

Reclamam as aves?
Desenvolve-se o comércio
e o ruído

A razão está de
que lado?
Do silêncio, do político…

Onde está o dever?
No efeito colateral
ou no medo?

Quem vai proteger
de acidentes
o ar, o solo de Portugal?

Em nome do meio
envolvente
qual o benefício, afinal?

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
(imagem de pesquisa google)

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Da falta que sinto


Tenho frio:
sopro para as mãos
em concha,

mas a náusea,
o vazio
escavam-me a pele

em caminhos vãos
de terra húmida
de húmus humano

e de silêncio quebrado
pelo canto gritado
do pássaro negro

sobre o cedro
e o pranto…ai o pranto
é espinho cravado na garganta

e as lágrimas
(tantas!)
toldam-me a visão

e a razão
esvai-se
num segundo

voltando depois
do bombear arrítmico
do coração

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Respira a terra


Entre as folhas
da clareira
o sonho aberto

o ribeiro desperto
chilreia ao longe
- o som -

o cheiro molhado
pintado
de sombras bordadas

nem uma brisa ecoa,
só a folha do abeto lento
movendo…

ar eterno
e secreto
por dentro de mim

na paz do ninho
o bico aflora
a pena

medita o galho
e o gaio voa
em flocos de céu

zumbidos de abelhas
num labor
num amor

que adoça
o frescor da sílaba
- sim -

debaixo da rocha
tenra
a terna terra

a raiz da relva
a seiva, a selva
feliz

Rosa Alentejana (Felisbela Baião)
05/02/2019