segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Foto de agosto


A foto aflorou
no assento do sofá
sem lembranças
anteriores

sem mágoas tolas
sem dores
como imagem
que já não há

como música
que se ouve
na velha telefonia
a recordação

de um certo dia
surgiu como clarão
num quarto
morno que reluzia

ela virada de borco
no lençol branco
ele por trás
de tronco torto

inclinado sobre ela
num carinho
de mãos indizíveis

ela vestida de suspiros
e gemidos
incontáveis

num corpo de prazer
quase morto

e a foto dobrada
no canto
e o pranto calado
na saudade do passado

a volúpia
nos olhos de ambos
nos seios
nas coxas

passando pela boca
e as palavras distantes
inaudíveis

quebradas voláteis
penetrantes
nas cores
de um verão quente
de agosto, quiçá inesquecível…

Rosa Alentejana Felisbela
27/08/2018
(imagem da net)

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Cheiros e aromas

Escutas o som da chaleira. Primeiro aquele sopro agudo espalhando o vapor pela casa, depois o cheiro do chá. A infusão de hibiscos, amoreira, camomila, eucalipto, rosas e tantas outras, enlevam-te os sentidos e murmuram-te frases lúbricas aos sentidos, tantas vezes perdidos.
Olhas através da janela para a serra, e sentes as folhas do pinheiro-manso, do sobreiro, do carvalho, orvalhando a estrada até àquele Monte onde a Lua se deitou pela manhã. Conheces a magia que a desnuda nos versos que cantas, embora do corpo entendas apenas a prata pronta para a noite de amor claro, milimétrico, concêntrico que te fascina.
Arqueias a sobrancelha sobre o aro do ardil ardente que os seus dedos exploram no escuro, e nasce-te o arquejo do peito que quase explode de desejo.
Vives no chalé, perto da chácara onde ela, selvagem, comemora a feitiçaria com a mãe-natura.
Acompanhas a miragem dos braços que te chamam num aroma incorpóreo.
Queres para ti as longas pernas e o poço profundo, o chafariz do prazer guardado no segredo da tua língua, num paladar obsceno.
Chamas os montículos argentinos que despontam mesmo antes do dia nascer, para que a tua boca seja o cálice do seu prazer, mas o grito sai mudo.
Levantas a mão para o triângulo aberto da tua perdição, mas ela vira as costas num gesto casto, extremoso…
Porém, a brisa afasta-te dela, e o cheiro escapa-se pelas frinchas das portas, das janelas, dos teus olhos.
Louco, és o poeta que agarra no fio brilhante da faca afiada e corres para o campo.
Com as mãos trémulas, arriscas uma última prova de amor: desenhas no tronco da árvore mais próxima o teu nome com o nome da Lua, dentro de um coração que o tempo jamais apagará.
Ela chora, pois o sangue de sua irmã foi derramado por amor!
O cheiro? Desponta todos os dias, quando abres a janela do coração e te deixas, por ela, levar ao altar da insensatez.

Rosa Alentejana Felisbela
23/08/2018
(tema sugerido pelo meu amigo Luís Bento)
(imagem da net)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Pessoas perfeitas?


Hoje, especialmente hoje, pondero sobre as oportunidades que damos às pessoas de partilharem o nosso caminho. Por vezes, aproveitam o desespero da nossa solidão e colam-se como lapas até sermos necessárias. Precisam de nós para lhes elevarmos o ego. Depois perdem o interesse e deixam-nos entregues à realidade. Tudo isso, porque nós somos peritos em criar na nossa mente a pessoa que nos convém, deixando de ser um estranho, mas não deixando de ser a mesma pessoa. Por vezes, favorecemos o abuso da sua presença, como animais de companhia, e a simples ameaça da sua ausência, faz gerar um medo medonho. Acredito que deve haver um equilíbrio, mas a generosidade de uma das partes, acaba por desequilibrar o que deveria ser puro. Desta forma, creio que a solidão dá o balanço para a necessidade ou a escolha de alguém a ter por perto. Pensamos que escolhemos e temos o “livre-arbítrio”, mas involuntariamente aceitamos a lisonja, ficamos demasiado viciados nas palavras dessa pessoa. Tentamos avaliar os outros pela bravura dos seus atos, mas e os resultados que se conseguem? Alguém os vê ou são apenas palavras bonitas? E o seu passado? É escolhido e contado da forma que interessa, retirando tudo aquilo que pode macular a personalidade. Desde pequena que me ensinaram que deveria ser mulher, amante, mãe, amiga, amparo…Mas, e quem me ampara a mim se for necessário? As palavras? Ou os atos concretos? Por vezes, é melhor corrigir o presente e aprender com o passado, nunca esquecê-lo. A nódoa fica na roupa quando te dizem que gostam de ti hoje, mas amanhã desaparecem. A nódoa mantém-se quando passas por dificuldades e as pessoas afastam-se. Acreditar em alguém é para mim uma proeza dramática. Mas não desisto, apenas esqueço quando não me interessa. Se tu consegues divisar o bom, do mau, parabéns! És uma pessoa perfeita. Mas essas existem???

Rosa Alentejana Felisbela
20/08/2018
(imagem da net)

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Perdi-me no teu olhar

Tantos dias, tantas horas passadas naquela mesma sala, com o sol a entrar pela janela e uma réstia de esperança a persistir. No quadro negro havia sempre um smile feito a giz amarelo para lhe chamar a atenção. Mas a entrada acontecia sempre da mesma forma, ele na cadeira de rodas, apático, sem reagir aos estímulos sonoros, visuais, olfativos…Ela bem se esforçava por dizer alto e bom som “bom dia José, como estás?”, e dava-lhe um beijo no rosto. Mas a reação era sempre a mesma: um olhar perdido por tantos surtos de epilepsia, e nenhum movimento.
Todos os dias lhe colocava as mãos por baixo das axilas e levava-o a cumprimentar os colegas, um a um, carregando-lhe o peso do corpo e o peso da esperança que lhe era ferida aberta. Sentava-o ao lado dos colegas da turma, conversava com ele todo o tempo, adaptava as atividades daquele menino às suas limitações e capacidades.
Colocava-o em frente de um espelho e ensinava-lhe onde estava o cabelo, os olhos, o nariz, e aos poucos fazia-o sorrir das brincadeiras. Sentava-o numa almofada e pousava-lhe as mãos num alguidar com água, outras vezes com areia, faziam construções a quatro mãos. O sorriso crescia naquele rosto anteriormente apático.
Criou-lhe um “tapete de sensações” que ele adorava tocar, para sentir as diferentes texturas dos materiais. O sorriso era agora uma constante.
Um dia, ao entrar na cadeira de rodas pela sala, ela não estava no local habitual e ele procurou-a com o olhar. Tendo percebido essa situação chamou-o de outra direção “bom dia José, como estás?”. A reação foi surpreendente: ele procurou-a nessa direção e deitou-lhe um largo sorriso nos olhos lacrimejantes. Ela foi ter com ele e deu-lhe o beijo habitual.
Nesse dia, ela sentou-se ao seu lado, mas estava adoentada e pousou a cabeça sobre a mão. Ele olhou-a e com a sua mãozinha procurou chegar à mão dela com um ar preocupado…Toda a turma se entreolhou e duas lágrimas percorreram o rosto da professora…Um sorriso cresceu depois, estava feliz por ter reação do menino que parecia apático e disse-lhe “ perdi-me no teu olhar!”.

Rosa Alentejana Felisbela
16/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Mariana Loureiro)
(imagem da net)

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O invisível

Havia um mar sedento de brisas aos pés da areia. E ele roubava-lhe os beijos, não esperando a censura. Acariciava-lhe os seixos, lambia-lhe com ternura as vagas, penetrava-lhe as funduras de musgo.
Nos olhos verdes transparecia-lhe o coração, batendo desenfreado por delírios de guelras e escamas.
Mesmo ao canto do coral, dobrava-se a anémona da alegria, cuspindo espuma branca, sem vergonha, mas cheia de generosidade.
De algas se fizeram as importâncias. Das cadências se espalharam as harmonias. E nas turquesas, residiam os mundos líquidos das sapiências.
Dos cabelos de limos escorregaram filosofias de respeitos, mas sem comandante não podia haver navio. Esse era o corpo nu de histórias.
Por isso, afinaram-se as vozes das sereias, ergueram-se os tridentes dos tritões, e em silêncio abriu-se a boca do invisível.
Ele que era a lágrima da procura. Ele que era o domingo de sol acordado no sobressalto da guerra das ondas. Ele que encontrou a impossibilidade da distância do dia feriado…
Brincando entre as margens apertadas da imaginação, surgiu a tua imagem, como santa sagrada abençoando o seu altar de água. O manto branco cingindo as formas do corpo, a aura de brilho solar presa aos cabelos, o andar descalço sobre a fantasia…
E eu, teu eterno pescador de sonhos, atiro a rede para mais um dia de labor…e de amor.

Rosa Alentejana Felisbela
14/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Mariete Lisboa Guerra)
(imagem da net)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amor à distância

Era o dia de Nossa Senhora do Rosário. A festa da aldeia incluía sempre o som dos foguetes às 7 horas da manhã, a corrida das bicicletas às 9 horas em ponto e o almoço em família com os emigrantes que vinham propositadamente nessa altura. A procissão pelas 17 horas da tarde envolvia uma indumentária comprada especialmente para a ocasião, e as raparigas viviam o ano inteiro a sonhar com o baile dessa noite.
Ela vestira-se com o vestido verde, calçara sapatos pretos de tacão alto, fora à cabeleireira no dia anterior para vincar os caracóis negros que lhe emolduravam o rosto miúdo, mas bonito, maquilhara os olhos, os lábios e as faces e juntara-se às amigas para o baile. Todas tinham o sonho de encontrar um namorado nessa noite, pois seria abençoado pela Senhora do Rosário. Do alto dos seus 17 anos, achando que era já mulher feita, procurava abarcar todo o recinto com o olhar interesseiro e interessado por todos os jovens que aparentavam a mesma idade ou mais velhos.
Foi um acaso que a levou à quermesse e a encostar-se, sem querer, a um rapaz de blusão preto e calças de ganga, de cabelo penteado para trás e um palmo de cara bem jeitoso. Daí a iniciarem uma conversa que durou a noite inteira, uma dúzia de músicas dançadas perto demais para os bons costumes e um beijo roubado ao rosto, foram motivos para ficarem a conhecer-se e a amar-se para sempre.
Porém, quis o destino que se separassem pelo facto de ele ser emigrante em França e ela estar a estudar em Portugal. Ainda as cartas mal tinham chegado, já os telefonemas borbulhavam em casa da única amiga que tinha telefone. Foram anos de namoro, de amor à distância…
Queira o leitor imaginar como a história terminou.

Rosa Alentejana Felisbela
13/08/2018
(tema sugerido pelo meu amigo António Ferrolho)
(imagem da net)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Crepe de chocolate

Estava cansada. Assim que colocou a chave na porta de entrada e a sentiu fechar-se atrás de si, atirou com os sapatos para o fundo do quarto, e as roupas que foi atirando, peça por peça, caiam para cima do tapete, da cama, da mesa-de-cabeceira…Não se importava. Sozinha em casa podia fazer o que lhe apetecesse sem dar satisfações a ninguém. Desligou o telemóvel. Ligou o computador, mas só para ouvir as músicas preferidas que descarregara ao longo do tempo.
Em frente do espelho, dançava agora com um copo de sumo de laranja natural na mão. Balançava as ancas, movimentava as pernas e os pés ao seu próprio ritmo, sem pensar na figura triste que podia estar a fazer. Encontrava-se no seu mundo, onde era dona e senhora das suas façanhas.
Quantas vezes tropeçara no tapete e caíra redonda no chão e rira a bandeiras despregadas? Quantas vezes comera gelado a ver TV e quando dera conta tinha a boca, as mãos e até o revestimento do sofá sujos e nem dera por isso, rindo sozinha do disparate? Quantas vezes colocara os óculos para ler mais focadas as letras dos documentos, dentro do frigorífico, andando louca pela casa à sua procura e quando fora buscar qualquer alimento, os vira e gargalhara até chorar?
Viver sozinha tinha destes privilégios e ousadias. Não sentia falta de ninguém para a completar, ela já era uma mulher completa. Tinha o seu emprego, pagava as suas contas, saía quando lhe apetecia, ficava quando queria ficar em casa. Não admitia intromissões na sua vida. Respeitava todos e era respeitada.
Quando as hormonas assim ditavam, lá arranjava uma companhia masculina, sempre na maior subtileza. Os namorados só davam trabalho, e ela queria sentir-se livre para ir ao ginásio, para ir ao cinema, para fazer viagens, para seguir dietas que regularmente transgredia. Tinha um grupo de amigas e amigos com quem saía e privava, mas gostava de estar só.
Naquele dia, o Banco estivera mais movimentado que o costume. Pessoas complicadas a entrar e a sair. Gente mal-humorada aos gritos. E ela, sempre educada, no seu fato de saia e casaco, o ar profissional e arranjado, de lábios bem torneados pelo batom e um sorriso para oferecer a cada um. Aguentara estoicamente a passagem das horas.
Por isso, naquele momento só seu foi até à cozinha e preparou um capricho: um crepe de chocolate.
Entretanto ouviu tocar à campainha da porta. Aborrecida foi vestir um roupão e espreitou pela vigia da porta: um rapaz lindíssimo, que nunca tinha visto, encontrava-se a olhar para a porta com um ar indecente. De sobrancelhas carregadas e um ar de interrogação abriu um pouco da porta e perguntou o que queria.
Com um ar sorridente, o vizinho do lado, que se mudara havia uma semana e percebera os hábitos dela respondeu:
- Ouvi a música, senti o cheiro a crepe de chocolate e vim descobrir se a vizinha me podia matar a gula ou me deixaria aqui com o desejo à porta…

Rosa Alentejana Felisbela
13/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Rute Engrácio)
(imagem da net)