quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Perdi-me no teu olhar

Tantos dias, tantas horas passadas naquela mesma sala, com o sol a entrar pela janela e uma réstia de esperança a persistir. No quadro negro havia sempre um smile feito a giz amarelo para lhe chamar a atenção. Mas a entrada acontecia sempre da mesma forma, ele na cadeira de rodas, apático, sem reagir aos estímulos sonoros, visuais, olfativos…Ela bem se esforçava por dizer alto e bom som “bom dia José, como estás?”, e dava-lhe um beijo no rosto. Mas a reação era sempre a mesma: um olhar perdido por tantos surtos de epilepsia, e nenhum movimento.
Todos os dias lhe colocava as mãos por baixo das axilas e levava-o a cumprimentar os colegas, um a um, carregando-lhe o peso do corpo e o peso da esperança que lhe era ferida aberta. Sentava-o ao lado dos colegas da turma, conversava com ele todo o tempo, adaptava as atividades daquele menino às suas limitações e capacidades.
Colocava-o em frente de um espelho e ensinava-lhe onde estava o cabelo, os olhos, o nariz, e aos poucos fazia-o sorrir das brincadeiras. Sentava-o numa almofada e pousava-lhe as mãos num alguidar com água, outras vezes com areia, faziam construções a quatro mãos. O sorriso crescia naquele rosto anteriormente apático.
Criou-lhe um “tapete de sensações” que ele adorava tocar, para sentir as diferentes texturas dos materiais. O sorriso era agora uma constante.
Um dia, ao entrar na cadeira de rodas pela sala, ela não estava no local habitual e ele procurou-a com o olhar. Tendo percebido essa situação chamou-o de outra direção “bom dia José, como estás?”. A reação foi surpreendente: ele procurou-a nessa direção e deitou-lhe um largo sorriso nos olhos lacrimejantes. Ela foi ter com ele e deu-lhe o beijo habitual.
Nesse dia, ela sentou-se ao seu lado, mas estava adoentada e pousou a cabeça sobre a mão. Ele olhou-a e com a sua mãozinha procurou chegar à mão dela com um ar preocupado…Toda a turma se entreolhou e duas lágrimas percorreram o rosto da professora…Um sorriso cresceu depois, estava feliz por ter reação do menino que parecia apático e disse-lhe “ perdi-me no teu olhar!”.

Rosa Alentejana Felisbela
16/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Mariana Loureiro)
(imagem da net)

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O invisível

Havia um mar sedento de brisas aos pés da areia. E ele roubava-lhe os beijos, não esperando a censura. Acariciava-lhe os seixos, lambia-lhe com ternura as vagas, penetrava-lhe as funduras de musgo.
Nos olhos verdes transparecia-lhe o coração, batendo desenfreado por delírios de guelras e escamas.
Mesmo ao canto do coral, dobrava-se a anémona da alegria, cuspindo espuma branca, sem vergonha, mas cheia de generosidade.
De algas se fizeram as importâncias. Das cadências se espalharam as harmonias. E nas turquesas, residiam os mundos líquidos das sapiências.
Dos cabelos de limos escorregaram filosofias de respeitos, mas sem comandante não podia haver navio. Esse era o corpo nu de histórias.
Por isso, afinaram-se as vozes das sereias, ergueram-se os tridentes dos tritões, e em silêncio abriu-se a boca do invisível.
Ele que era a lágrima da procura. Ele que era o domingo de sol acordado no sobressalto da guerra das ondas. Ele que encontrou a impossibilidade da distância do dia feriado…
Brincando entre as margens apertadas da imaginação, surgiu a tua imagem, como santa sagrada abençoando o seu altar de água. O manto branco cingindo as formas do corpo, a aura de brilho solar presa aos cabelos, o andar descalço sobre a fantasia…
E eu, teu eterno pescador de sonhos, atiro a rede para mais um dia de labor…e de amor.

Rosa Alentejana Felisbela
14/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Mariete Lisboa Guerra)
(imagem da net)

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amor à distância

Era o dia de Nossa Senhora do Rosário. A festa da aldeia incluía sempre o som dos foguetes às 7 horas da manhã, a corrida das bicicletas às 9 horas em ponto e o almoço em família com os emigrantes que vinham propositadamente nessa altura. A procissão pelas 17 horas da tarde envolvia uma indumentária comprada especialmente para a ocasião, e as raparigas viviam o ano inteiro a sonhar com o baile dessa noite.
Ela vestira-se com o vestido verde, calçara sapatos pretos de tacão alto, fora à cabeleireira no dia anterior para vincar os caracóis negros que lhe emolduravam o rosto miúdo, mas bonito, maquilhara os olhos, os lábios e as faces e juntara-se às amigas para o baile. Todas tinham o sonho de encontrar um namorado nessa noite, pois seria abençoado pela Senhora do Rosário. Do alto dos seus 17 anos, achando que era já mulher feita, procurava abarcar todo o recinto com o olhar interesseiro e interessado por todos os jovens que aparentavam a mesma idade ou mais velhos.
Foi um acaso que a levou à quermesse e a encostar-se, sem querer, a um rapaz de blusão preto e calças de ganga, de cabelo penteado para trás e um palmo de cara bem jeitoso. Daí a iniciarem uma conversa que durou a noite inteira, uma dúzia de músicas dançadas perto demais para os bons costumes e um beijo roubado ao rosto, foram motivos para ficarem a conhecer-se e a amar-se para sempre.
Porém, quis o destino que se separassem pelo facto de ele ser emigrante em França e ela estar a estudar em Portugal. Ainda as cartas mal tinham chegado, já os telefonemas borbulhavam em casa da única amiga que tinha telefone. Foram anos de namoro, de amor à distância…
Queira o leitor imaginar como a história terminou.

Rosa Alentejana Felisbela
13/08/2018
(tema sugerido pelo meu amigo António Ferrolho)
(imagem da net)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Crepe de chocolate

Estava cansada. Assim que colocou a chave na porta de entrada e a sentiu fechar-se atrás de si, atirou com os sapatos para o fundo do quarto, e as roupas que foi atirando, peça por peça, caiam para cima do tapete, da cama, da mesa-de-cabeceira…Não se importava. Sozinha em casa podia fazer o que lhe apetecesse sem dar satisfações a ninguém. Desligou o telemóvel. Ligou o computador, mas só para ouvir as músicas preferidas que descarregara ao longo do tempo.
Em frente do espelho, dançava agora com um copo de sumo de laranja natural na mão. Balançava as ancas, movimentava as pernas e os pés ao seu próprio ritmo, sem pensar na figura triste que podia estar a fazer. Encontrava-se no seu mundo, onde era dona e senhora das suas façanhas.
Quantas vezes tropeçara no tapete e caíra redonda no chão e rira a bandeiras despregadas? Quantas vezes comera gelado a ver TV e quando dera conta tinha a boca, as mãos e até o revestimento do sofá sujos e nem dera por isso, rindo sozinha do disparate? Quantas vezes colocara os óculos para ler mais focadas as letras dos documentos, dentro do frigorífico, andando louca pela casa à sua procura e quando fora buscar qualquer alimento, os vira e gargalhara até chorar?
Viver sozinha tinha destes privilégios e ousadias. Não sentia falta de ninguém para a completar, ela já era uma mulher completa. Tinha o seu emprego, pagava as suas contas, saía quando lhe apetecia, ficava quando queria ficar em casa. Não admitia intromissões na sua vida. Respeitava todos e era respeitada.
Quando as hormonas assim ditavam, lá arranjava uma companhia masculina, sempre na maior subtileza. Os namorados só davam trabalho, e ela queria sentir-se livre para ir ao ginásio, para ir ao cinema, para fazer viagens, para seguir dietas que regularmente transgredia. Tinha um grupo de amigas e amigos com quem saía e privava, mas gostava de estar só.
Naquele dia, o Banco estivera mais movimentado que o costume. Pessoas complicadas a entrar e a sair. Gente mal-humorada aos gritos. E ela, sempre educada, no seu fato de saia e casaco, o ar profissional e arranjado, de lábios bem torneados pelo batom e um sorriso para oferecer a cada um. Aguentara estoicamente a passagem das horas.
Por isso, naquele momento só seu foi até à cozinha e preparou um capricho: um crepe de chocolate.
Entretanto ouviu tocar à campainha da porta. Aborrecida foi vestir um roupão e espreitou pela vigia da porta: um rapaz lindíssimo, que nunca tinha visto, encontrava-se a olhar para a porta com um ar indecente. De sobrancelhas carregadas e um ar de interrogação abriu um pouco da porta e perguntou o que queria.
Com um ar sorridente, o vizinho do lado, que se mudara havia uma semana e percebera os hábitos dela respondeu:
- Ouvi a música, senti o cheiro a crepe de chocolate e vim descobrir se a vizinha me podia matar a gula ou me deixaria aqui com o desejo à porta…

Rosa Alentejana Felisbela
13/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Rute Engrácio)
(imagem da net)

domingo, 12 de agosto de 2018

O valor do beijo

Num monte ermo vivia a menina das tranças negras e pele de alabastro mais linda que os seus olhos já tinham visto. De vestidos confecionados pela mãe, modista de primeira ordem, os sapatos mandados fazer à medida no sapateiro da terra, as meias sempre puras como a cor que a cal tem na parede asseada do monte. Corria pelos campos todas as manhãs, colhia alecrim, rosmaninho e erva-doce, fazia um raminho e levava para casa, saltando alternadamente ora num pé, ora no outro, cantarolando.
Desconhecia o que enfeitava as divisões do monte, e quem vivia dentro da sombra fresca com a menina. Sabia somente que a via ir para a escola, de sacola às costas e a pressa nos sapatos, levantando a poeira no caminho de terra batida.
Espreitava-a por entre as árvores até chegar à escola, onde evitava falar-lhe ou olhar-lhe diretamente nos olhos para não despertar a fúria das meninas mais velhas, ou de algum rapaz mais travesso.
Gostava de a ver sentar-se no intervalo, numa pedra do recreio e ficar a brincar com pedrinhas, formando casinhas, poços e inventar bonecas e conversas, imaginando dar-lhes de comer e beber… Nunca levava lanche, nunca pedia nada a nenhuma amiga, nunca se importava de brincar sozinha.
Na sala de aula era das melhores alunas, ficava nas carteiras mesmo em frente da professora, sempre atenta a passar as lições para o caderno. Quando havia um concurso, ela ganhava com a melhor história e a melhor caligrafia. Cantava a tabuada do princípio ao fim e não errava nenhuma operação de somar, subtrair, multiplicar ou dividir…Conhecia as plantas e outros temas cujas ciências exigiam.
Tudo observavam esses olhos castanhos, com a curiosidade de criança de circo, a viver com os saltimbancos, de terra em terra, numa casa de lona. Os cabelos crescendo ao abandono dos ventos, a cor da pele a confundir-se com a da terra, e as roupas curtas demais para a idade que tinha.
Um dia, com a fome a martelar-lhe o estômago, resolveu perder a vergonha e bateu à porta do monte da menina. Ela veio abrir e olharam-se com a cumplicidade do reconhecimento. Disse-lhe “tenho fome…”. A menina embrenhou-se na escuridão e quando voltou trazia um copo de leite e um pedaço de pão com manteiga. Devorou-o com sofreguidão e bebeu de seguida o leite. Limpou a boca com as costas da mão e sem pensar deu-lhe um beijo voltando-lhe as costas a correr muito depressa nos seus pés descalços.
A menina ficou a ver aquela criança a correr, e percebeu que era uma rapariga da sua idade. Teve o impulso de a seguir, mas não o fez. Fechou a porta por dentro.
No dia seguinte procurou-a na escola, mas o circo já tinha partido para outra localidade. Nunca mais a viu, mas aquele beijo soube-lhe à amizade que nunca mais esqueceria.

Rosa Alentejana Felisbela
11/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Maria Aboim)
(imagem da net)

sábado, 11 de agosto de 2018

Por onde anda a Poesia?


Diz a sabedoria popular que “o vinho é poesia engarrafada”. Desde a escolha da cor da uva que devemos saber que algumas passam e outras ficam para sempre no nosso paladar.
Pensando bem, preciso de beber um copo de palavras tintas sempre que me apetece escrever um poema. Não sei se é do sabor açucarado, consigo rimas doces e palavras melosas, extraídas da cana mais pura de um dicionário exigente. Componho pirâmides, pedra a pedra, e no fim a cereja no topo do bolo, o clímax do ambiente emocional dilata-se nas retinas do leitor, como droga de arte suprema.
Porém, se o sabor é ácido, isso deve-se à levedura dos adjetivos, às bactérias de onomatopeias que coloriram as frases, e se embrenharam nos diferentes sentidos que cada palavra pode assumir. Dependendo do sujeito, a métrica torna-se interpolada, emparelhada, e as pernas envolvem-se como trepadeiras, deixando a embriaguez chegar ao cérebro, empiricamente falando.
Todavia, se eu beber um cálice de palavras brancas, o sabor amargo pode tomar conta das reticências e das exclamações, espalhar-se pela folha branca do papel e torna-lo pardo ao toque das teclas. Esse som assemelha-se ao rasgar das conjeturas do leitor e não haverá mais vontade para interpretar.
Existe ainda o sabor “umami” que é um sinónimo da perfeição no gosto das frases, fermenta-as ou envelhece-as em madeira e carrega-as de temperatura e humidade controladas. Como se a excitação se desse ao desfrute e os preliminares assumissem a importância que devem realmente ter numa cópula. Aí vem a censura acoplada…
A qualidade dos sabores advém do equilíbrio entre os sons, as rimas internas e a equação perfeita que sustenta a escrita do princípio ao fim, como vinho de sabor único, incomum, que não pode ser adulterado… Nem sempre se consegue, afinal há alguns “feitos a martelo”, causando as tais enxaquecas no dia seguinte. Esses nem deviam ter visto a luz porque incomodam mais do que dão prazer, como todos sabem...
No final, a rolha (de preferência de cortiça, que é mais resistente) deve ser colocada no segredo mais bem guardado. Este deve ser, ao mesmo tempo, explícito nas entrelinhas do poema. Sim, escrever dá imenso trabalho. O problema é não ter “sobre” o que escrever…

Rosa Alentejana Felisbela
10/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Maria Lúcia)
(imagem da net)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Duas vidas um destino

O dia queimava as paredes de cal branca e o seu rosto vermelho destilava pequenas gotas de suor, enquanto se abanava com um leque comprado numa loja dos chineses. O vestido de cor rosa colava-se à pele morena, deixando os olhos verdes lacrimosos e os cabelos negros colados na nuca.
Tal como fazia todos os fins de semana, tomara as rédeas do carro a que chamava carinhosamente de “carocha”, mais por causa do tamanho e da cor, do que pela marca que em nada se assemelhava à real, e seguira estrada fora.
Buscava um sítio fresco onde tomar uma refeição leve, para depois se deslocar à praia fluvial perto das Minas do local escolhido. Pedira uma mesa dentro do restaurante, mas este encontrava-se lotado, tendo que ficar numa mesa exterior, exposta ao calor abrasador e ao vento infernal que fustigava, de quando em quando, as toalhas das mesas, o seu corpo magro e a sua sede.
Poucos segundos depois, chegou um tipo vulgar, não muito alto, de careca brilhante e um rosto ameno, desejando refrescar o seu sotaque do Norte numa bebida e local fresco. Obteve a mesma deceção: casa cheia, última mesa perto da senhora solitária.
Gonçalo, o empregado de mesa, convidou-os a ficarem lado a lado. Ambos se sentiram constrangidos, mas dadas as circunstâncias, não se opuseram, afinal, a fome, a pressa e a sede limitava-lhes as escolhas.
Para quebrar o gelo que rangia através da mesa, o senhor apresentou-se dizendo que se chamava Marcelo e que vinha negociar a compra de vinho para o seu estabelecimento comercial no Porto. Ela disse que se chamava Joana e que estava desempregada há uma semana, tendo sido vendedora numa loja de roupas em Beja.
Quando Gonçalo lhes trouxe a carta para fazerem o pedido, após um momento de ponderação, simultaneamente pediram grelhada mista com salada. Após um instante de perplexidade as gargalhadas fizeram-se ouvir. Continuaram a conhecer-se um pouco mais, ela um pouco mais recatada, ele um pouco mais entusiasta. Após a chegada do menu das sobremesas, ambos, mais uma vez, pediram sericaia.
Começavam a sentir um clima interessante entre ambos, como se o conhecimento existisse desde sempre. Os dois se afirmavam solteiros e tinham uma tarde inteira pela frente. O calor amenizou-se perante os seus olhares, mas os corpos continuavam a sentir a necessidade de um bom refresco. Pagaram a conta e saíram do restaurante.
Um a seguir ao outro seguiram o mesmo rumo na estrada. O destino iria levá-los a um local fresco…

(Desafio proposto pela minha amiga Ana Maria Santos)

Rosa Alentejana Felisbela
10/08/2018
(imagem da net)