terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amor à distância

Era o dia de Nossa Senhora do Rosário. A festa da aldeia incluía sempre o som dos foguetes às 7 horas da manhã, a corrida das bicicletas às 9 horas em ponto e o almoço em família com os emigrantes que vinham propositadamente nessa altura. A procissão pelas 17 horas da tarde envolvia uma indumentária comprada especialmente para a ocasião, e as raparigas viviam o ano inteiro a sonhar com o baile dessa noite.
Ela vestira-se com o vestido verde, calçara sapatos pretos de tacão alto, fora à cabeleireira no dia anterior para vincar os caracóis negros que lhe emolduravam o rosto miúdo, mas bonito, maquilhara os olhos, os lábios e as faces e juntara-se às amigas para o baile. Todas tinham o sonho de encontrar um namorado nessa noite, pois seria abençoado pela Senhora do Rosário. Do alto dos seus 17 anos, achando que era já mulher feita, procurava abarcar todo o recinto com o olhar interesseiro e interessado por todos os jovens que aparentavam a mesma idade ou mais velhos.
Foi um acaso que a levou à quermesse e a encostar-se, sem querer, a um rapaz de blusão preto e calças de ganga, de cabelo penteado para trás e um palmo de cara bem jeitoso. Daí a iniciarem uma conversa que durou a noite inteira, uma dúzia de músicas dançadas perto demais para os bons costumes e um beijo roubado ao rosto, foram motivos para ficarem a conhecer-se e a amar-se para sempre.
Porém, quis o destino que se separassem pelo facto de ele ser emigrante em França e ela estar a estudar em Portugal. Ainda as cartas mal tinham chegado, já os telefonemas borbulhavam em casa da única amiga que tinha telefone. Foram anos de namoro, de amor à distância…
Queira o leitor imaginar como a história terminou.

Rosa Alentejana Felisbela
13/08/2018
(tema sugerido pelo meu amigo António Ferrolho)
(imagem da net)

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Crepe de chocolate

Estava cansada. Assim que colocou a chave na porta de entrada e a sentiu fechar-se atrás de si, atirou com os sapatos para o fundo do quarto, e as roupas que foi atirando, peça por peça, caiam para cima do tapete, da cama, da mesa-de-cabeceira…Não se importava. Sozinha em casa podia fazer o que lhe apetecesse sem dar satisfações a ninguém. Desligou o telemóvel. Ligou o computador, mas só para ouvir as músicas preferidas que descarregara ao longo do tempo.
Em frente do espelho, dançava agora com um copo de sumo de laranja natural na mão. Balançava as ancas, movimentava as pernas e os pés ao seu próprio ritmo, sem pensar na figura triste que podia estar a fazer. Encontrava-se no seu mundo, onde era dona e senhora das suas façanhas.
Quantas vezes tropeçara no tapete e caíra redonda no chão e rira a bandeiras despregadas? Quantas vezes comera gelado a ver TV e quando dera conta tinha a boca, as mãos e até o revestimento do sofá sujos e nem dera por isso, rindo sozinha do disparate? Quantas vezes colocara os óculos para ler mais focadas as letras dos documentos, dentro do frigorífico, andando louca pela casa à sua procura e quando fora buscar qualquer alimento, os vira e gargalhara até chorar?
Viver sozinha tinha destes privilégios e ousadias. Não sentia falta de ninguém para a completar, ela já era uma mulher completa. Tinha o seu emprego, pagava as suas contas, saía quando lhe apetecia, ficava quando queria ficar em casa. Não admitia intromissões na sua vida. Respeitava todos e era respeitada.
Quando as hormonas assim ditavam, lá arranjava uma companhia masculina, sempre na maior subtileza. Os namorados só davam trabalho, e ela queria sentir-se livre para ir ao ginásio, para ir ao cinema, para fazer viagens, para seguir dietas que regularmente transgredia. Tinha um grupo de amigas e amigos com quem saía e privava, mas gostava de estar só.
Naquele dia, o Banco estivera mais movimentado que o costume. Pessoas complicadas a entrar e a sair. Gente mal-humorada aos gritos. E ela, sempre educada, no seu fato de saia e casaco, o ar profissional e arranjado, de lábios bem torneados pelo batom e um sorriso para oferecer a cada um. Aguentara estoicamente a passagem das horas.
Por isso, naquele momento só seu foi até à cozinha e preparou um capricho: um crepe de chocolate.
Entretanto ouviu tocar à campainha da porta. Aborrecida foi vestir um roupão e espreitou pela vigia da porta: um rapaz lindíssimo, que nunca tinha visto, encontrava-se a olhar para a porta com um ar indecente. De sobrancelhas carregadas e um ar de interrogação abriu um pouco da porta e perguntou o que queria.
Com um ar sorridente, o vizinho do lado, que se mudara havia uma semana e percebera os hábitos dela respondeu:
- Ouvi a música, senti o cheiro a crepe de chocolate e vim descobrir se a vizinha me podia matar a gula ou me deixaria aqui com o desejo à porta…

Rosa Alentejana Felisbela
13/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Rute Engrácio)
(imagem da net)

domingo, 12 de agosto de 2018

O valor do beijo

Num monte ermo vivia a menina das tranças negras e pele de alabastro mais linda que os seus olhos já tinham visto. De vestidos confecionados pela mãe, modista de primeira ordem, os sapatos mandados fazer à medida no sapateiro da terra, as meias sempre puras como a cor que a cal tem na parede asseada do monte. Corria pelos campos todas as manhãs, colhia alecrim, rosmaninho e erva-doce, fazia um raminho e levava para casa, saltando alternadamente ora num pé, ora no outro, cantarolando.
Desconhecia o que enfeitava as divisões do monte, e quem vivia dentro da sombra fresca com a menina. Sabia somente que a via ir para a escola, de sacola às costas e a pressa nos sapatos, levantando a poeira no caminho de terra batida.
Espreitava-a por entre as árvores até chegar à escola, onde evitava falar-lhe ou olhar-lhe diretamente nos olhos para não despertar a fúria das meninas mais velhas, ou de algum rapaz mais travesso.
Gostava de a ver sentar-se no intervalo, numa pedra do recreio e ficar a brincar com pedrinhas, formando casinhas, poços e inventar bonecas e conversas, imaginando dar-lhes de comer e beber… Nunca levava lanche, nunca pedia nada a nenhuma amiga, nunca se importava de brincar sozinha.
Na sala de aula era das melhores alunas, ficava nas carteiras mesmo em frente da professora, sempre atenta a passar as lições para o caderno. Quando havia um concurso, ela ganhava com a melhor história e a melhor caligrafia. Cantava a tabuada do princípio ao fim e não errava nenhuma operação de somar, subtrair, multiplicar ou dividir…Conhecia as plantas e outros temas cujas ciências exigiam.
Tudo observavam esses olhos castanhos, com a curiosidade de criança de circo, a viver com os saltimbancos, de terra em terra, numa casa de lona. Os cabelos crescendo ao abandono dos ventos, a cor da pele a confundir-se com a da terra, e as roupas curtas demais para a idade que tinha.
Um dia, com a fome a martelar-lhe o estômago, resolveu perder a vergonha e bateu à porta do monte da menina. Ela veio abrir e olharam-se com a cumplicidade do reconhecimento. Disse-lhe “tenho fome…”. A menina embrenhou-se na escuridão e quando voltou trazia um copo de leite e um pedaço de pão com manteiga. Devorou-o com sofreguidão e bebeu de seguida o leite. Limpou a boca com as costas da mão e sem pensar deu-lhe um beijo voltando-lhe as costas a correr muito depressa nos seus pés descalços.
A menina ficou a ver aquela criança a correr, e percebeu que era uma rapariga da sua idade. Teve o impulso de a seguir, mas não o fez. Fechou a porta por dentro.
No dia seguinte procurou-a na escola, mas o circo já tinha partido para outra localidade. Nunca mais a viu, mas aquele beijo soube-lhe à amizade que nunca mais esqueceria.

Rosa Alentejana Felisbela
11/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Maria Aboim)
(imagem da net)

sábado, 11 de agosto de 2018

Por onde anda a Poesia?


Diz a sabedoria popular que “o vinho é poesia engarrafada”. Desde a escolha da cor da uva que devemos saber que algumas passam e outras ficam para sempre no nosso paladar.
Pensando bem, preciso de beber um copo de palavras tintas sempre que me apetece escrever um poema. Não sei se é do sabor açucarado, consigo rimas doces e palavras melosas, extraídas da cana mais pura de um dicionário exigente. Componho pirâmides, pedra a pedra, e no fim a cereja no topo do bolo, o clímax do ambiente emocional dilata-se nas retinas do leitor, como droga de arte suprema.
Porém, se o sabor é ácido, isso deve-se à levedura dos adjetivos, às bactérias de onomatopeias que coloriram as frases, e se embrenharam nos diferentes sentidos que cada palavra pode assumir. Dependendo do sujeito, a métrica torna-se interpolada, emparelhada, e as pernas envolvem-se como trepadeiras, deixando a embriaguez chegar ao cérebro, empiricamente falando.
Todavia, se eu beber um cálice de palavras brancas, o sabor amargo pode tomar conta das reticências e das exclamações, espalhar-se pela folha branca do papel e torna-lo pardo ao toque das teclas. Esse som assemelha-se ao rasgar das conjeturas do leitor e não haverá mais vontade para interpretar.
Existe ainda o sabor “umami” que é um sinónimo da perfeição no gosto das frases, fermenta-as ou envelhece-as em madeira e carrega-as de temperatura e humidade controladas. Como se a excitação se desse ao desfrute e os preliminares assumissem a importância que devem realmente ter numa cópula. Aí vem a censura acoplada…
A qualidade dos sabores advém do equilíbrio entre os sons, as rimas internas e a equação perfeita que sustenta a escrita do princípio ao fim, como vinho de sabor único, incomum, que não pode ser adulterado… Nem sempre se consegue, afinal há alguns “feitos a martelo”, causando as tais enxaquecas no dia seguinte. Esses nem deviam ter visto a luz porque incomodam mais do que dão prazer, como todos sabem...
No final, a rolha (de preferência de cortiça, que é mais resistente) deve ser colocada no segredo mais bem guardado. Este deve ser, ao mesmo tempo, explícito nas entrelinhas do poema. Sim, escrever dá imenso trabalho. O problema é não ter “sobre” o que escrever…

Rosa Alentejana Felisbela
10/08/2018
(tema sugerido pela minha amiga Maria Lúcia)
(imagem da net)

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Duas vidas um destino

O dia queimava as paredes de cal branca e o seu rosto vermelho destilava pequenas gotas de suor, enquanto se abanava com um leque comprado numa loja dos chineses. O vestido de cor rosa colava-se à pele morena, deixando os olhos verdes lacrimosos e os cabelos negros colados na nuca.
Tal como fazia todos os fins de semana, tomara as rédeas do carro a que chamava carinhosamente de “carocha”, mais por causa do tamanho e da cor, do que pela marca que em nada se assemelhava à real, e seguira estrada fora.
Buscava um sítio fresco onde tomar uma refeição leve, para depois se deslocar à praia fluvial perto das Minas do local escolhido. Pedira uma mesa dentro do restaurante, mas este encontrava-se lotado, tendo que ficar numa mesa exterior, exposta ao calor abrasador e ao vento infernal que fustigava, de quando em quando, as toalhas das mesas, o seu corpo magro e a sua sede.
Poucos segundos depois, chegou um tipo vulgar, não muito alto, de careca brilhante e um rosto ameno, desejando refrescar o seu sotaque do Norte numa bebida e local fresco. Obteve a mesma deceção: casa cheia, última mesa perto da senhora solitária.
Gonçalo, o empregado de mesa, convidou-os a ficarem lado a lado. Ambos se sentiram constrangidos, mas dadas as circunstâncias, não se opuseram, afinal, a fome, a pressa e a sede limitava-lhes as escolhas.
Para quebrar o gelo que rangia através da mesa, o senhor apresentou-se dizendo que se chamava Marcelo e que vinha negociar a compra de vinho para o seu estabelecimento comercial no Porto. Ela disse que se chamava Joana e que estava desempregada há uma semana, tendo sido vendedora numa loja de roupas em Beja.
Quando Gonçalo lhes trouxe a carta para fazerem o pedido, após um momento de ponderação, simultaneamente pediram grelhada mista com salada. Após um instante de perplexidade as gargalhadas fizeram-se ouvir. Continuaram a conhecer-se um pouco mais, ela um pouco mais recatada, ele um pouco mais entusiasta. Após a chegada do menu das sobremesas, ambos, mais uma vez, pediram sericaia.
Começavam a sentir um clima interessante entre ambos, como se o conhecimento existisse desde sempre. Os dois se afirmavam solteiros e tinham uma tarde inteira pela frente. O calor amenizou-se perante os seus olhares, mas os corpos continuavam a sentir a necessidade de um bom refresco. Pagaram a conta e saíram do restaurante.
Um a seguir ao outro seguiram o mesmo rumo na estrada. O destino iria levá-los a um local fresco…

(Desafio proposto pela minha amiga Ana Maria Santos)

Rosa Alentejana Felisbela
10/08/2018
(imagem da net)

O mistério da rosa


Foram as mãos do jardineiro que adubaram a terra argilosa. Recordo-me do corte diagonal na estaca, e da forma cuidadosa como a colocou na batata para criar raízes, enterrando-a depois, mantendo-a húmida. Foram tempos de nascimento, ou renascimento, como lhe queiramos chamar.
Curiosamente, há pessoas que não se importam com as suas raízes, mas eu preservava-as, porque sem elas não seria o que, mais tarde me viria a transformar. O jardineiro confidenciava-me, com razão, que tudo dependia da sorte, da meteorologia (o inverno deveria estar a acontecer), da terra, mas o cuidado era essencial.
Após a rega, cresceram as hastes e pequenas folhas. Evidentemente os espinhos faziam parte desse pequeno tronco, pois não há rosas sem eles. Penso que seja uma das formas de nos defendermos das tentações de sermos colhidas demasiado cedo, já que somos o símbolo dos apaixonados…
Aos poucos foram nascendo os ovários, os estames e as pétalas, perfumadas e coloridas. Mas, a minha cor era azul, que significa o verdadeiro amor eterno, raro, forte, que nunca se abala ou descolore, e isso tornava-me cobiçada. Dizia-me o jardineiro que em algumas culturas o azul significa mistério ou a busca/alcance do impossível. E seria impossível alguém maltratar-me, pois ele não deixaria.
Foi dessa forma que cresci e me tornei adulta, de folhas silenciosamente orvalhadas, de sentidos despertos à admiração dos caminhantes do jardim. O jardineiro guardava-me, mas o medo tomava conta de todas as horas do dia. Apenas de noite descansava os pensamentos ocultos.
Mas, num dia raro de nevoeiro intenso, foi com surpresa que dei por mim nas mãos imberbes de um rapaz ladino, de olhos travessos e nariz adunco. Nada pude fazer perante a sua perícia de mãos ágeis e do sorriso trocista. Nem os espinhos o impediram de me colher.
Percebi que ele nada entendia de rosas. Que a sua intenção não era senão plantar-me nas mãos de uma menina de bibe aos quadrados e de sardas nas maçãs do rosto.
Morri na minha tristeza no meio de um caderno quadriculado, perdendo o perfume nas páginas, secando as pétalas num amarelo desbotado… Um trunfo de amor sem importância que o lixo mais tarde acarretou.
Ainda se tivesse morrido no meio de um livro de poesia, com as palavras dançando no meio de um amor verdadeiro…

(Tema proposto pela minha amiga Wilma Gonçalves)
Rosa Alentejana Felisbela
09/08/2018
(imagem da net)

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Acalento


Hei de florir nesse mar
tantas vezes
quantas as ondas
onde mergulhas

Hei de perfumar o luar
tantas vezes
quantas as pratas
que olhas

Hei de ser o mel e o sal
na pele dos dias
que te tocam
e deixam do tempo o sinal

Hei de ser a escrita terna
incrustada na memória
do poema - a chama eterna
da nossa história
sem final

Hei de ser-te a alegria
da água escorrente
a única e derradeira magia
de um tesouro presente
em poesia

Hei de cantar-te a melodia
em murmúrios
na minha voz de sereia
sabendo que o amor
ateia no teu paladar

Hei de dar-te o rio
o riso
das papoilas do trigo
onde conheces o paraíso
- o único – para te acalentar

Rosa Alentejana Felisbela
08/08/2018