quarta-feira, 20 de junho de 2018

Opala


Levanta o véu do sorriso
e espreita a retina
- não existe o paraíso –
perdeste o semblante
de menina

escondes o sal, a espera
na derme na rede
engelhada
a dívida, o soluço, o mal
nessa rosa entalhada

proferes a palavra
- amor - como quem cala
o pão na boca esfomeada
e divide-la em segredo
pela senzala
- escrava da solidão -

tu que és como opala
solta a sílaba da língua
e deixa-a voar até ao céu
porque aí é livre - a mágoa -
que trazes no peito
- cicatriz do cinzel -

relembra a luz obreira
das veias dos versos que trazes
talha no mármore da vida
a razão – companheira
do que fazes!

Rosa Alentejana Felisbela
20/06/2018
(imagem da net)

segunda-feira, 18 de junho de 2018

O amor não se quer suplicado


Estranha é a vida sem lágrimas. Quando carregas uma missão, embora cheia de pedras, consegues voar. Mesmo sem súplica, porque o amor não se quer suplicado, mas livre! Após o momento de repouso, levantas a quilha e a fluidez do ar rasga-te ao meio. Há uma correnteza nas veias que azulam a realidade. A hora ardente da harmonia eleva-te a limites impensáveis. É a glória. Mas, se te falta a brisa do sorriso solar, se a imperfeição se interpõe entre as asas e o sol… Poderão derreter os ossos ocos…Correrão novamente as lágrimas, desta vez devido ao fogo-posto. Haverá necessidade?

Rosa Alentejana Felisbela
18/06/2018
(imagem da net)

domingo, 17 de junho de 2018

ideias abandonadas


Passam palavras a meu lado,
sem que me toquem ou queiram...
Definitivamente,
sou ponto poente,
rasgando ideias abandonadas.

Rosa Alentejana Felisbela

sábado, 16 de junho de 2018

Junina


Solta-se a cascata
da métrica
junina

uma hora, uma data
- a tua menina -

o teu ombro
o teu avesso

num som
num verso

e o tempo a galope
tal este amor
- bravio enfoque -

abraço apertado
desassossego
desejado

espelho maduro
da sorte
- que futuro?

Rosa Alentejana Felisbela
17/06/2018

Atena

Gosto de rasgar as palavras que me dás. Sobretudo as que falam de desprezo e retidão. Quem és tu para me costurar a verdade? Agora que penso nisso creio que há uma linha ténue entre o que dizes de verdade e a verdade que sentes. Por ironia, pode existir uma sílaba coincidente, um som ambíguo, um flash de “amizade” a cintilar nos olhos. Mas, quando o contrato textual prescreve, devido a um ataque de teimosia elevada ao cubo, a barganha é vomitada e fica nua. Sim, nua, sobre a mesa. Não adiantam as rendas púdicas e brancas da toalha, ou os guardanapos a condizer. Nem as boas maneiras e palavras “caras” te valem. Chegas a ser inconveniente na forma de endereçar injúrias, no tratamento medíocre que ofereces ao teu “semelhante”. Os copos de cristal quebram-se sob o teu hálito hipócrita e os talheres dourados adquirem aquele brilho baço que não enganam a limpeza dos pensamentos. A pior perversão chama-se “vaidade” e encontra-se no espelho que Narciso te ofereceu nas festas Juninas. Bem sabes, não tens o poder das Parcas…Mas acreditas que não precisas de ninguém! Lamento informar-te, não pertences a qualquer Olimpo. Aproveita a vida, olha sinceramente nos olhos cada palavra que dizes, abraça um pôr-do-sol, colhe um fruto maduro, saboreia uma realidade, bebe palavras sãs, vai correr pelas searas e sente na pele a brisa do mar. Temos tão pouco tempo para aproveitar… Porém, ofereço-te ambrósia para te adoçar a boca, um buquê de flores-de-laranjeira e um vestido de modéstia e tule. Talvez um dia, queiras ser a Atena cheia da sabedoria que tanto apregoas.
Rosa Alentejana Felisbela
16/06/2018
(imagem da net)

terça-feira, 12 de junho de 2018

Decifra


Passeia por longínquos locais
Enleva-se a alma nos cheiros
No fim dos caminhos para
Segura momentos alheios
Agora fecha a mão num “ai”
E recorda a pele e o sabor
Murmura o que sente e mais
Mostra o que quer, amor
Inscrita no poema, no muro
Molda o caminho, por favor!

Rosa Alentejana Felisbela
12/06/2018

domingo, 10 de junho de 2018

Português


És o meu “mar português”
que me mergulha
nas ondas de prazer
da nossa nudez

Meu “vento lusitano”
que me afaga
e que me afoga de mudez
num galope bem humano

Tens na língua
a “última flor do Lácio”
que me cultiva e que me mata
do prefácio ao posfácio

de fartura
e de ternura
em cascata
na minha timidez

Cantas-me o “fado português”
ao ouvido, à beira da boca
na mente, já dormente
de insensatez

“Se fosses só três sílabas”
amava-te para sempre
na doçura permanente
da languidez:

a-bis-mo meu
meu manso herói
afortunado de erotismo
cobiçado p’las marés…

Por ti percorro
de norte a sul
todo um país encantado
de lés a lés…

Rosa Alentejana Felisbela
10/06/2018

Expressões entre aspas de: Camões, Alexandre O'Neill, Miguel Torga, Olavo Bilac e José Régio