domingo, 20 de maio de 2018

Sem razão


Deixo voar a razão
p’las ruas em que acredito
de paredes de cal
de chão empedrado
de telhas do beiral
bendito

pousara o sonho de um dia
preso na voz, preso num grito
quebrado em estilhaços
nos olhos, nas mãos
nos cabelos enfeitados
de laços de magia

E o sangue escorrendo
bárbaro, violento
ensombrando a distância
de gemidos, de abraços
escolhidos p’la força
duma única solidão

Quedo, na rotunda da praça
onde a estátua indiferente
de um amor que foi presente
e hoje não tem solução
abre as mãos à desgraça

segue como vasto rio
pelas aldeias, e vilas
cidades e moradias
num frio amargo, vilão,
desaguando no mar
numa eterna gradação

Rosa Alentejana Felisbela
20/05/2018

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Lúcia


(Esta história é pura ficção)

A saia comprida rodava num rodopio veloz enquanto dançava. O verde dos olhos embrenhava-se no desejo de cada cigano em idade casadoira, tremeluzindo à luz dos candeeiros a petróleo. Os cabelos presos numa trança balouçavam ao ritmo da viola e das palmas, ao redor da fogueira. O perfil perfeito recortava-se no escuro da noite e a pele trigueira do corpo voluptuoso, era a chama que incendiava a líbido do sexo oposto. Lúcia era a cigana mais bonita do acampamento. Ninguém diria que tinha doze anos. Ninguém entendia porque os pais a deixavam frequentar a escola. Desconheciam a razão pela qual o pai nunca a tinha prometido a alguém das suas lidações. O orgulho que sentia na sua Lúcia impedira-o de tomar decisões. Porém, a barraca começava a tornar-se apertada com tantas propostas, os dotes oprimiam a vontade férrea do pai e a mãe mortificava-se com o futuro, que pretendia promissor, para a sua filha. Todavia, Lúcia era feliz, com os seus brincos de esmeraldas, os seus colares a condizer, as suas roupas mais próximas dos modelos das meninas “não ciganas” e a escola era o brinde que a encantava. Diferente das irmãs e das primas, aprendera a ler, escrever, contar e ser. Num mundo de tabus, ela contava com a amizade dos “gadjés” e apreciava a companhia do Tony. O seu colega de carteira deslumbrava-lhe as ideias, tolhia-lhe a atenção sempre que falava. Envolvia-a num admirável mundo, que ela desconhecia. Embevecida, aprendia cada significado, cada caminho, cada costume. Nos recreios conversavam, sempre que os da sua etnia não estavam por perto. Encontravam-se atrás do ginásio, num desafio à sorte, que poderia ser fatal para ambos. Foi nos lábios do Tony que Lúcia descobriu o primeiro beijo, aquele roçar num repente excitante. Foram os braços de Tony que a enfeitaram de afagos. E no campo de trigo, próximo da vedação da escola, descobriram o prazer dos corpos. Foi um primo que os descobriu num momento de distração. Que levou a novidade aos ouvidos dos ciganos. Tony foi caçado como um animal, e os predadores arrancaram-lhe os olhos. Tony morreu esvaído em sangue. Os responsáveis, impunes, seguiram as vidas em lugares longínquos. Lúcia foi humilhada e excluída da família cigana. Os seus pais, depreciados, desapareceram a jusante do rio num barco. Lúcia fugiu para casa de amigos distantes. Hoje é advogada de causas que considera importantes, como o direito à escolha de noivo e outras semelhantes. Nunca mais esqueceu o Tony. Nunca casou, mas isso tornou-se pouco relevante.

Rosa Alentejana Felisbela
18/05/2018
(imagem da net)

quinta-feira, 17 de maio de 2018

A Ti Maria


A casa cheirava ao mofo do tempo. Os móveis, de madeira escura, erguiam-se como fantasmas pelas divisões. Como encomendas entregues pelo carteiro, que não haviam sido abertas, mas abandonadas pela casa. Eles refletiam vidas passadas, com molduras de madeira e rostos, a preto e branco, de homens com chapéu e laço, ou de mulheres de cabelos ondulados pelo calor do ferro. A poeira pousada na zona onde os naperons de renda branca, já sujos, feitos manualmente pela dona da mesma, não tapavam, dava ao local um ar de abandono saliente. As cortinas da cor do vinho tinto, pesadas e com o perfume a urina de gatos, encontravam-se apanhadas, na parte lateral, por uma corda dourada, e pompons que arrastavam pelo chão. Na cozinha, as “sopas de tomate” tornavam o ar menos pesado, mais acolhedor. Mas a quantidade de loiça de alumínio azul, usada há dias atrás, empilhada sobre os locais disponíveis, deixava o estômago embrulhado. A cama, com a coberta feita de quadrados de lã coloridos, era o lugar preferido dos doze gatos que frequentavam a casa da Ti Maria. Viúva desde que a conhecera, Bárbara, de 10 anos, era a única que lhe entrava pela porta e ficava horas a ouvir as suas histórias. Contava-lhe das saídas diárias, pelas madrugadas frias, de um rancho de mulheres (do qual ela fazia parte) rumo aos campos para ceifar, das modas para esquecer os dias difíceis da “amesturação”, dos dias quentes com os lenços a proteger a cabeça, das camisas de mangas compridas, e abotoadas até ao pescoço, das saias apanhadas ao centro das pernas com uma “pregadeira”, das botas subidas até meio da perna e das meias de renda grossa. Devido à posição para a ceifa, as dores na coluna ficaram como lembranças ferozes. Contava dos “balhos” no átrio de terra batida das casas e das cantigas à desgarrada, de improviso, com as “gaitas-de-beiços” a acompanhar. Dos namoros à janela e dos beijos roubados. Tudo isso encantava Bárbara, que gravava na memória cada um dos pormenores. Esses, e as novidades que vinham de França, pela mão das filhas da Ti Maria, em cartas que ela não sabia ler. Nas ditas cartas, lidas com entoação e rigor, havia notícias do neto da mesma idade de Bárbara, por quem esta nutria um amor platónico. A resposta não se fazia esperar, e era Bárbara quem a redigia, com a sua caligrafia impecável: “minha querida filha, como estás? Nós por cá vamos bem…” e quando as despedidas chegavam com “muitos beijinhos ao “José, ao João e ao Luís”, os dedos tomavam asas e viajavam justamente até ao rosto daquele amor adolescente. Bárbara viajava nas cartas, fechadas com a saliva dos lábios que nunca beijaram o Luís, e o seu coração palpitava dias e dias na esperança de uma resposta. Mas a Bárbara cresceu, fez-se mulher e nunca foi correspondida naquele amor. Mas ficou mais rica emocionalmente, por ter contribuído para a companhia da solitária Ti Maria, por ter guardado na memória todas aquelas histórias transformadas em património da história oral, e por ter aprendido que o amor unilateral não leva a casamentos. A Ti Maria encontrou algum alento em Bárbara, até ao final dos seus dias.

Rosa Alentejana Felisbela
18/05/2018
(imagem da net)

quarta-feira, 16 de maio de 2018

A Bia dos trapos


Ela era a louca da terra. Chamavam-lhe a “Bia dos trapos”, mas ninguém a conhecia realmente, nem sabia ao certo a sua idade, tal era o constrangimento de a olhar de frente. Desde cedo, cartografara as ruas da vila. A pé. Os sapatos castanhos e gastos, quase sem solas. Não aceitava a ajuda do vizinho sapateiro. Ele dizia que não lhe cobrava nada para os consertar, mas ela via sempre uma intenção escondida. Pensava “quando a esmola é muita…”e continuava, noite e dia, nas suas andanças. O nome que lhe davam devia-se à quantidade de roupa que vestia, geralmente desencontrada. Usava meias às riscas nas pernas magérrimas. Cobria o corpo delgado com um vestido de linho branco, enfeitado de meias-luas pretas, e sobre este, uma “combinação” azul-turquesa. Ao pescoço, enrolava um cachecol com flores garridas, embora as temperaturas chegassem aos quarenta graus na rua. Um avental com losangos vermelhos e rosa completava a indumentária. Dos cabelos, viam-se fiapos, por baixo do gorro branco encardido. Trazia no rosto a pele curtida pelo sol e pelo vento, olhos miudinhos como azeitonas negras e lustrosas, um nariz de beterraba, grosso e vermelho, uns lábios finos e a língua sempre afiada para escandalizar o povo, quando alguém a abordava. Não gostava de conversar, não se detinha com as ladainhas das velhas da terra. Não admitia diálogos com as crianças, sobretudo porque corriam atrás dela gritando “Bia dos trapos, onde vais? Cuidado não tropeces, ou ainda cais!” Num acesso de fúria, corria-lhes no encalço, de cajado na mão. Não porque tivesse dificuldades em andar, mas para os “zurzir”, acaso apanhasse algum. Sorte a deles, serem mais rápidos. Percorria léguas durante os dias. Catava ramos de árvores partidos pelas estradas, pedaços de tecidos rasgados, latas de refrigerantes vazias…Tudo lhe servia para carregar às costas. Por vezes, atava o espólio com cordas e passava pelas ruas numa enorme azáfama. O suor a escorrer-lhe pelas têmporas e a magreza reclamando um pouco de paz. Nunca se soube bem de que se alimentava. Provavelmente de algum naco de pão, ou de outros restos de comida retirados do lixo. As pessoas habituaram-se à sua presença, mas o receio das suas reações. mantinha-os afastados. Deixou de aparecer nas ruas durante uns dias. Os homens da GNR foram bater-lhe à porta. Ninguém respondeu. Forçaram a entrada. Encontraram a Bia caída, morta, sobre os trapos que recolhera toda uma vida. Os sapatos arrumados atrás da porta. O cheiro fétido envolvia todas as divisões e o lixo acumulado demorou dias a ser extraído da casa. O corpo da Bia nem foi velado. Enterraram-na no cemitério por ordem da Junta de Freguesia, numa vala qualquer. Perdeu-se o nome e o rasto. Nem placa de saudade. Nem “Aqui jaz uma mulher”. Ficou-me na lembrança a “Bia dos trapos”. Apenas na memória algumas histórias continuam a viver.

Rosa Alentejana Felisbela
16/05/2018
(imagem da net)