quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Mendigado


O amor que mendigas
é anzol no cérebro
em cama onde te deitas
sem lençol

que te arrasta
que te leva
e dilacera
em ferida - etanol -

não há isco
que compense
a farsa

nem engodo
que prometa a meta
do amor em cama de dossel

da cor do mel e do sol

Rosa Alentejana Felisbela
02/01/2018
(imagem da net)

A nossa casa


Já não tenho
a clareira acesa
no meu ventre

conheço apenas
a brisa ténue
que me despreza

sigo o atalho
perdido no silêncio
contra a corrente

e rente ao chão
o cheiro a feno
que me trespassa

sei que não volta
o verão azul
da tua presença

mas perfuma-me
o teu abraço
- a nossa casa.

Rosa Alentejana Felisbela
19/01/2018
(imagem da net)

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Sorriso fácil


Quando olho
os teus lábios
de sorriso fácil

saboreio o vagar
de quem contempla
sem ousar tocar

a saída suave
a derradeira vertigem
a vontade virgem
a salivar

e um pigarrear devasso
envolve o pequeno
espaço

entre as faces rosadas
ai…e esse sorriso fácil
de encantar!

Rosa Alentejana Felisbela
17/02/2018

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Ontem


Ontem à noite
adormeci contigo
nos sentidos

mordi as amoras
dos teus lábios

ouvi o canto de amor
das silvas da tua voz

enfrentei o encanto da luz
furtiva dos teus flancos

e quando cada lugar
dos corpos era lume
a florir nas pupilas

dilatadas as estrelas
entornaram o seu pó
na relva rasteira
do meu corpo nu

sabes, eu não abdico
do perfume de verão
das nossas metáforas
de carícias

e muito menos das delícias
com sabor a farófias
a mel e a caju

17/02/2018
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Manso litoral


Chegou a doçura
nua da manhã

às colinas
do teu corpo
iluminadas

e a pele que te cobre
temporã
é cal feita de nuvem
acidulada

as pálpebras
levemente
quebradas

as pestanas
escuras
sobre as maçãs

são folhas de fogo
apaziguadas
refreando a luminosidade
de afãs

teus pulsos são poentes
caídos
na almofada de nenúfar
do teu lago

esse leito lascivo
de verão
tão dolente
como um ninho de afagos

tua boca pregada
num ponto sensual
em botão

lembra-me o íntimo
jardim
do teu hálito

que me fascina
e me tira
a razão
de repente

e retenho por um instante
a respiração

receando acordar teu sono
com o bombear fatal
do meu sangue fervendo

ansiando
arder de fome
pelo teu quente e manso
litoral

Rosa Alentejana Felisbela
18/02/2018
(imagem da net)

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O adro


Havia no adro um rasto
de poeira
benta

nos tijolos desgastados
uma labuta
lenta

os cedros emproados
acenando
do eirado

gritavam uivos sonoros
ao branco
empedrado

e os sinos no campanário
tontos
p’la revoada

vibravam ecos de brancura
pelas paredes
caiadas

apenas as vozes miúdas
quebravam velozes
o sinal

eram só corpos tenros
desconhecendo
da vida o final

Rosa Alentejana Felisbela
16/02/2018
(desconheço o autor da foto - Igreja de Nª Sª da Conceição em Beringel)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O sal da tua pele


Quando me abraças
lentamente
todo o corpo é momento
de eternidade

e se colho o teu olhar
à ladeira que tem a lonjura
é no poço da tua boca

que recolho a loucura
do eco da bica
fresca de água a borbulhar

e depois… mergulho
na melancolia do vício
que salpica de desejo

a pele de precipício
vibrando de amor
pelo teu mar…ai! O teu mar…

Rosa Alentejana Felisbela
15/02/2018
(imagem da net)