quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Tempo


Tanto tempo passado
e a noite chega
como abraço reconciliado
numa esperança
única...

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Procuras


Julgas conhecer
todo o meu vocabulário
e que já não há palavra
para demover o teu silêncio

mas acredita que cada verso
polido e arbitrário
confere ao meu discurso
a fluência
que têm as lágrimas obscuras

e que a sombra
produzida pelo verbo aceso
é alternativa clara
que sustenta a cal pura
do muro aberto aos dedos
de quem se revê na ternura

e a brisa espalha sílabas
de pedras lisas que se empilham
num equilíbrio de pontes
de palavras futuras

deixo-as cair
sobre a página regularmente
num baile anunciando
a inocência do rodopio
do rio que procuras

Rosa Alentejana Felisbela
15/11/2017
(imagem da net)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Sós na pluralidade da guerra dos outros


Protejo a bala abraçando a arma porque a tua voz, retornada, me alucina o pensamento. O medo em barda defende-me o peito, atento ao movimento dos dedos destemidos… Choro a lágrima da criança alheia à miséria, debatendo o tom do choro conforme a fome de alimento, ou amor, ou calor. Cerro os dentes como quem guerreia pela posição mais exata de cometer o crime da gula pelo aconchego. Mas a roupa colada ao corpo enregelado já perdeu o rumo na escuridão. Não conhece a cor do chão entranhado até à mácula da alma. Porque nenhum músculo compreende a suavidade de uma cama macia. Nem um único olhar consegue descortinar a raça da pele rasgada. Os pés correm ao movimento dos canaviais cravados até às moléculas infernais do sofrimento. Haverá um arco-íris por trás do monte da noite? Haverá uma voz que diz “anda, aqui ficas segura” no final da linha escrita a fogo e balas com sabor a limão verde e a suco gástrico coberto da neblina fria de fuga? Somos tão sós na pluralidade das guerras dos outros…

Rosa Alentejana Felisbela
13/11/2017
(imagem da net)

domingo, 12 de novembro de 2017

Cozinhar sonhos


Cozinhar sonhos
pode ser uma tarefa perigosa:
mesmo que a delicadeza
crie a melhor massa,
se faltar o condimento
do amor verdadeiro,
o sabor pode sair
bastante amargo.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 11 de novembro de 2017

Ponto branco


Sigo o rasto, o veio
da madeira branda
de azul

Afago, torneio
deslizando na demanda
no meu sul

meço com cautela
o traço e pinto
e cego e recuo

nasce o branco
num ponto
pregado celeste

quando o círculo
rodeia o aro
nu

Rosa Alentejana Felisbela
11/11/2017
(imagem da net)

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O império da saudade


Há um equilíbrio perfeito
nas notas da canção
que a circunstancia suspende
no timbre da voz

essa que perdeste reverbera
essa que perdeste entoa
a solidão
atroz

mais do que um cântico
perpendicular à terra
ressoa na chuva
cadente…

e a saudade
simplesmente impera,
se a sentires nas nervuras
da mão…

Rosa Alentejana Felisbela
09/11/2017
(imagem da net)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Da fonte à doçura


Há um crescente
de sede fresca
aceso entre os juncos

altar de pedra
de fonte abundante
onde bebo
o teu nome

tento não o secar
de avidez

percorres as duras fissuras
que a terra abunda
em fuga abrupta

e o músculo do desejo
tonto
recebe a ternura verdejante
e pura

e eu beijo a pedra
que venero

fortifico o ventre
floresço

e frutifico o amor
plena de pomos
de doçura

Rosa Alentejana Felisbela
08/11/2017
(imagem da net)