domingo, 22 de outubro de 2017

Caminho de terra


Desde o caminho
de terra
bem calcado

subindo ermos
declives
picos sem ar

sobe o calor
por frestas
pequeninas

encontrando fendas
e lugares
desconhecidos
nublados

até que o orvalho
assoma
à mata de odor
maravilhada

e se solta a seta
do arco
repentina

que a prumo
se enterra
na terra molhada

Rosa Alentejana Felisbela
22/10/2017
(imagem da net)

Não prometas...

Claridade


O meu corpo
é campo
de tojo e esteva
bebendo bagas
de descaminhos
triturados pelas trevas

e toda a noite
é noiva
que me veste
espelhando tristezas
no véu bramindo
lágrimas
de ribeiros bravos
entre as pedras
do destino

mas o perfume
do orvalho é luz
que procuro
ao compor
uma aurora
mesmo antes
de um suspiro
me enlouquecer

Rosa Alentejana Felisbela
22/10/2017
(Quadro de LOUI JOVER)

sábado, 21 de outubro de 2017

Silêncio: ação!!


Cansada dos vis cartéis
tramando as vidas populares
e das corjas em contratos
de milhões
esquecendo os pobres sem lares

Cansada dos riscos máximos
só protegerem as infraestruturas
mas os seguros caros
não cobrirem as vidas mais duras

Cansada de lucros para alguns
e também das manipulações
das estatísticas e das cabalas
e de não haver concretas
decisões

Triste com os suicídios
e com a atual emigração
zangada com os políticos
que só fazem “artigos de opinião”

Triste com o levantar
das “cristas” e com o cair
das “máscaras”
porque não é só a indignação
que constrói casas
e mata fome e mágoas

Todos nós reconhecemos
a tragédia das gentes
na televisão
e de lágrimas nos olhos
todos somos condolentes

Mas quem tem bolhas nas mãos
e a única roupa no corpo
faz de fénix para a recuperação
aguardando a solidariedade
para renascer o que ficou morto

Falta tanto, falta tanto!
E a reorganização do território
nacional, e o reflorestamento
e a limpeza e o vigilante florestal…

Então e a higiene mental
e bucal e alimentar?

Que chegue a todos nós
a esperança
criando melhorias de vida
e alterando de facto
a educação
e o rumo de Portugal!

Rosa Alentejana Felisbela
21/10/2017
(imagem da net)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Ermo


Suspendo o cálice
para que a sede morra
por dentro da carne

Suspendo o pão
para que a fome cesse
na masmorra do sangue

e bebo o vento
e como o cheiro a terra
molhada

na prisão
só as grades iluminam
a solidão cansada

20/10/2017
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Poema inacabado


Mais uma vez
mordo o silêncio
da falta que me fazes

és fruta madura
corpo ausente
que não trazes

filamento
aceso na luz baça
do passado

fome que não cura
choque perverso
na língua quente

sílaba dormente
em poema inacabado

Rosa Alentejana Felisbela
18/10/2017
(imagem da net)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Analepse


Há tanto tempo que não falamos! Passaram horas, dias, meses, anos? Não me recordo do tema da última conversa. Foi em prosa ou em verso? Trazias nas mãos uma rosa, ou um “bouquet” completo? Parece-me que fiquei com uma pétala juntinho ao coração. Era uma pétala vermelha, da cor do sangue que corre descompassado nas minhas veias sempre que te aproximas. Era uma pétala perfumada. Sim, tinha o perfume de um dia inteiro no quarto e uma vida inteira na lembrança. Era uma pétala cristalina que me deixou os olhos rasos de alegria e tantas frases nas mãos! Lembras-te das entrelinhas daqui até à lua? Era o nosso caminho feito de cassiopeias mágicas e mantos sagrados de tantos segredos. Para nós havia apenas o céu e o brilho das pedras de algodão doce que pisávamos junto à margem entre o sonho e a realidade. Sim, havia um sonho. Só não me recordo se o sonhei sozinha ou sonhávamos ambos em cores diferentes. A música permaneceu sobre a trovoada e a toada dos versos continua a encantar-me os sentidos. Ah! Agora sim, lembro-me que foram versos que me cantaste na tua voz de arco-íris, enquanto eu olhava o poente pleno de mel por trás da barragem. Se a memória não me falha, disseste “adoro-te” e beijaste-me até que escureceu. Como poderia esquecer-me do tema da conversa? Falámos sobre o universo. Aquele que conspira a favor de um amor muito maior. O meu sorriso é para ti.

Rosa Alentejana Felisbela
18/10/2017
(imagem da net)