domingo, 15 de outubro de 2017

Cidade de pedra


Na cidade vestida de frescor
procuro o caminho
de outrora

e a neblina
devagarinho
vai mordendo cada pedra

cada poro do meu corpo
- os meus olhos -
hora a hora

passo pelas pontes
acariciadas pelas mãos
do antigo escultor

e na lembrança
a fonte que não medra
perante tanta dor

descubro que a raiz
do orvalho nos meus olhos
és tu – pensamento sonhador

Rosa Alentejana Felisbela
14/10/2017
(imagem da net)

sábado, 14 de outubro de 2017

Tons corretos


Não me fales na música
acuada de tantos orgasmos
na lombada do livro

fui eu que li
foste tu que escreveste
e ambos a escutámos

de um lado a morte
dos sentidos febris

do outro a queda
dos abismos pueris

e o banco do jardim
incomparável poema
que sorri

albergue dons tons
corretos
que devias colocar no lugar

e aquela voz
que sempre sugere o beijar…

Rosa Alentejana Felisbela
11/10/2017
(imagem da net)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Nascente


Sempre foi doada
a amorosa paciência
às palavras

e à lentidão das searas
olvidadas a dolência
sem voz

sempre foram
abraçadas as pausas
excessivas

e serenados
os dias de sofreguidão
atroz

mas sublimaram-se
as cores dos cardos
e apagou-se o odor dos nardos

e atravessaram-se no azul
os negros pássaros
como um esboço de sorrir

e o fulgor fatigado
das filas dos eucaliptos
como abraços elevados ao porvir?

Ainda é tão cedo
para ceder ao degredo
à beira do poço dormente…

só é preciso uma sombra
onde adormeça a pomba
na paz da fonte a correr…

12/10/2017
Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Tempo de outono


Neste outubro
caiado e duro
que jorra ao fundo
do muro…

dobra-se o tojo do orgulho
em sombras secas
de saudades

sobem heras
de demoras
e trepadeiras
equivocadas
na brandura das manhãs

e os lírios enroscados
choram sobre a doçura
por um futuro orvalhado
para as romãs

e nem os ouriços
se esforçam
pela queda dos fatos
numa certeza temporã

existem frutos
amendoados
nos olhos tristes
e cansados
no mosto da sorte órfã

e não há vinho mais puro
que aquele que é bebido
dos lábios maturos
de um amor sincero

mas se o outono se esconde
como pode o verão sair
e a frescura voltar
a confluir para o rio?

Rosa Alentejana Felisbela
12/10/2017
(imagem da net)

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

vinho


"e não há vinho mais puro
que aquele que é bebido
dos lábios maturos
de um amor sincero"

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Meia-luz


A razão perdeu os lábios
na beira da estrada
danificada

e a saudade vive
nas asas do pássaro morno
agonizante de solidão

foram voos sem justiça
rasando as searas brancas
de girassol

e o ciclo sazonal
não foi concluído por falta
do sol

abre a barra e acende o farol
e por um momento
embarca na verdade

ou não há palavra
capaz de conduzir um poema
nem que seja a meia-luz?

11/10/2017
Rosa Alentejana Felisbela

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Mágoa


Se a mágoa falar mais alto,
grita o teu silêncio
e aguarda o murmúrio da lágrima.
Depois, antes de dormir,
sonha cada palavra.
Só depois deves falar...

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)