quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Da crueldade do verso


Procuro
o verso perfeito
sonoro
em jeito de rondel
mas sobressai
o punhal
que sangra
o ventre
e me sussurra
na mente:
tu és cruel!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Brilho

As cores de um vendaval


Prometo-me o banco de jardim
invisível na amargura verde das árvores
e a cegueira do azul do céu
bem como o ponto infinito
na finitude do futuro

desisto do delito da palavra
porque a carrego decepada pela saudade

nunca um espelho foi tão falso
refletindo uma paisagem

fraca condição humana
a de pintar com as cores de um vendaval!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Noiva na lápide


Contínuo de luz acesa ao vento e no cimo do outeiro mais uma estrela procurando a manhã
O “até já” inscrito no branco do lírio roxo assinala um passado tão perto que me fere as têmporas
Um choro bravo, um caminho curto e uma luta limitada nos pés calçados com sapatos brancos
Enquanto me recordares não deixo de ser sonho de voltar ao abraço apertado
Enquanto me recordares terei o coração a bater e os meus ossos serão de vontade férrea
Serei sempre a noiva na lápide, o primeiro beijo, a primeira namorada
E a noite será sempre o meu guia de saudade lamentando o tímido adeus
O tempo será de verdade e, à minha maneira, voltarei sempre para ti
Sobrou-me o cabelo negro ondulando à brisa do teu olhar e uma oração por rezar nas nossas bocas
Rosa Alentejana Felisbela
21/08/2017
(imagem da net)


https://www.youtube.com/watch?v=JvHg0eJjFp8

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Beco


É no beco que passas
e cheiras o cheiro
a urina
do chulo
da puta
da sina
dia inteiro
que assina
o preço
e que faz
o serviço
- a cadeia -

É no beco que passas
e cheiras a “passa”
do fumo
do charro
e vês a seringa
do chuto
que singra
nas veias
e odeias
odeias!
a vida
e a sida
- a cadeia -

É no beco que passas
e te assustas
com a rusga
da noite
do bafo
a bagaço
e a bófia
de um salto
assalta
o beco
e leva
a liberdade
p´rá cadeia!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

apenas um pouco de ousadia


quando estás para chegar o desassossego marca pontos nas borboletas do meu ventre como se um caçador atirasse a rede e deixasse sair o ar

é então, que os sonhos brancos sobem as paredes do quarto e fica tudo tão claro

até a janela se enche de palavras pequenas enquanto as cortinas
sussurram saudades

enfeito o chão com pétalas rosas que se abrem como lábios sedentos dos teus passos

uma jarra ajeita as tulipas brancas misturadas com sinceridades ansiando o teu olhar

a colcha de tecido macio do pêssego abre os braços para que o teu corpo, em flor, incendeie o tato

o meu vestido perde-se da pele dourada como abelha procurando os favos de mel da tua boca

e quando a porta se abre deixas a ausência presa no trinco do lado de fora: não incomodar

e tu…entras na minha fome de pão ázimo com a faca afiada num suplício manso investindo p’la noite dentro…

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Tirano


Vens com a força
que tem a trapaça
do mar

recolhes-te à duna
à doca à escarpa
e beijas com a espuma
as cordas do cais
âncoras
areais
ânsias
ais

recolhes-te ao fundo
negro
do cetro de Neptuno
onde és rei
e arrastas as metades
solitárias
num gesto profano
que nada
tem de humano
mas de vil monstro
tirano!

Rosa Alentejana Felisbela
12/08/2017
(imagem da net)