quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Relicário


Cava a fertilidade da terra
-mornos lábios
que encerram segredos-
e semeia grão a grão

desejos voluntários

com a tua própria mão
colhe o vento e desfaz
as nuvens - gota a gota-

que a sede é colo
-precário- para as hastes
verdes de ilusão

ilumina o orvalho
com o sol do teu calor
e recebe o fruto desse amor

num terno abraço
- eterno relicário!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem Vincent van Gogh - 'Le Moulin de la Galette')

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

metamorfose


Asas que o céu encerra
em prantos
tamanhos

protegem e acarinham
os imberbes sonhos

Metamorfose silente
no coração paterno

- corre a lágrima do crente…

Luz em voo singelo
tatuado na lembrança
do sorriso eterno.

Rosa Alentejana Felisbela
23/01/2017

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Alentejanices...


Lembri-me agora duma coisa p’ra contari…isto quondo agenti nã tem que fazeri, enventa! Quondo é era moça, gostava de m’assentari à roda do lumi com’ás ôtras, porque tava entenguida com frio, e nem mangando é qu’ria sairi. E quondo a minha mãe mal se precatava já é lá tava, nã qu’ria saber de moengas! S’eu gostava de mangar com as minhas tias e comeri o panito torrado e buber o chcolate da ch’clolatêra! Até me esgadanhava por aquilo! Nunca gosti cá de descabeches, mas os meus primos faziom as minhas avós andarem em fezes…elas até d’ziom qu’eles deviam andar à pergunta do siso em vez d’andarem atrás das moças, que isto “quem faz uma panela, faz um testo p’ra ela”, mas eles…faziom-nas assomar à janela e bradar do rijo “Oh Maneliiiiiiiii, oh Antóinoooooo, venham cá (moços dum cabrão)!!” Até eu d’zia “É tléi, isso diz-se??”, e era uma barrigada de rir, tava o balho armádo! E eles ali perto, no pial da v’zinha, mandando bêjos às maganas, à espera duma melhadura ou qu’elas mostrassem um cadinho quanto mal das alpercatas…parvalhões! Às vezes d’ziom “nã me moias, vai-t’embora”! E eles lá voltavom, como se viessem d’emplão, todos envergonhados! E à hora da ceia lá estávamos todos juntos à mensa, comendo uns caces de sopa e eu mangando com eles. Mas depois ia-me dêtari cedo mond’a escola no ôtro dia e já tinha à vondo de tanto riri…
Que sódades destes tempos!

Rosa Alentejana Felisbela
19/01/2017

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

Lareira de contos


Quando o dia termina de mansinho e a escuridão se instala nos cantos da cal e nas concavidades das paredes salitrosas, a cadeira de bunho suspira pelo meu corpo cansado. As costas de madeira, já puída pela quantidade de vezes que aconchegou as minhas costas, rangem a sua saudade. As labaredas produzem o calmo crepitar da cozedura do jantar (único perfume acolhedor que se espalha pela casa) e o fumo tisna a parede e a panela que o ferro forjou, enquanto os meus olhos demonstram a sua pequenez. As minhas roupas gastas, porém limpas, acariciam-me a pele enrugada da velhice. Tenho as mãos trémulas sobre os joelhos, segurando o livro de contos (oferta da minha nininha, que morreu vítima da idade que o tempo amarrotou). Em tanto procuro a sua voz e entanto vou perdendo a capacidade de a ler e encontrar nas letras…Solitário da luz do candeeiro a petróleo, como as sopas que as horas amargam e deito-me com a doce lembrança das rimas que os olhos da minha nininha me declamavam. E a saudade adormece-me agasalhado por mais um poema, quente com a manta da noite.

Rosa Alentejana Felisbela
(van gogh farmer)

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

noturno de Chopin


Mágoas marginalizadas percorrem caminhos imaginários através das vidraças da janela, numa azáfama desorganizada por um vento a soprar sem parar. O gato enrosca-se junto à janela, aborrecido e sonolento, mas levanta a patinha para tentar agarrar alguma gota distraída. É ele o prisioneiro da solidão, o carente de afago, o pária do amor. Através da janela demarca o seu território de pensamentos, por vezes perversos, de versos libidinosos, mas sabe que não passarão de palavras sem pelo a roçar noutro pelo, sem o bafo quente de outro bafo no seu. Daquele lugar ele sonha o cio concretizado no olhar felino de outro olhar, mas sabe que a semântica será sempre metafórica, exacerbada, um pleonasmo sem par. Lambendo os pelos, consome as feridas abertas do amor-próprio convertido em autossatisfação, como se a língua rugosa pudesse lavar o seu melífluo coração, coberto de insígnias de saudade. Apenas Chopin insinua um trilho de lua, um noturno triste como banda sonora aos seus ais miados. Mas, ainda assim, mantém-se na sua clausura de tormentos onde os membros não podem dar asas à sua vontade, onde as articulações continuam presas virtualmente e as garras recolhidas para não melindrar ninguém. Por fim, o gato adormece e sonha. Sonha com a liberdade de bigodes ao vento, criando poemas de sol, palavras de chuva, comendo sentimentos sem morrer de fome, mordendo solfejos de amor e dormindo ao relento. Sonha…ainda.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Meninice


Olhar garço e moço
tem esse teu rosto
-menino do povo-

De caracóis teimosos
e coroa emaranhada
-bosques faustosos-
meu “príncipe do tojo”
do reino da sorte
tão endiabrada!

Tens aventura na boca
com sabor a mosto
dos cachos das uvas
que guardas nos bolsos
-essa sede mata?

Tens a camisa rota
presa na ternura
que o arame rasga
e os calções marotos
não tapam a ferida
de correr p’los campos
travando batalhas
que a imaginação pressente
e a alegria desata

Meu menino d’agosto
que afogas no rio
o rubor da fuga
que a traquinice afaga…
guarda em ti a prata
que a meninice
-valioso tesouro-
é fogo fugaz
que num repente apaga!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

domingo, 15 de janeiro de 2017

(a)mar(te)


Quisera eu ser do mar
enganador

a espuma

beijando a amurada
plena de alvor

-a delicadeza-

E do azul ser princípio
e fim

dedicando aos teus olhos
toda a singeleza!

Rosa Alentejana Felisbela
(foto minha)