terça-feira, 12 de abril de 2016

Agruras da Terra


Fustigada pelo fausto
vento que do Norte
sopra, rodando
e rodopiando

manifesta-se Terra

ela em seu protesto
como predisposto
em pousio humano

confinada ao silêncio
tanto e tão funesto
como confidente
ela carrega a cruz

inspirada e incapacitante

d’angústia penitente
arada na procura
do adubo bom
composto p’lo juízo
perdido na negrura
das palavras vãs

Oh! Terra deslumbrante
aguarda a colheita
sagrada e rarefeita
de um solo abundante

que amacia a raiz
e brota tão feliz
como fruto farto
e revigorante!

Rosa Alentejana Felisbela
(foto tirada por mim)

domingo, 10 de abril de 2016

Ode à escrita


Foi uma quente heresia nos dedos
Que acordou o brilho de um poema
Como palavra salivando, blasfema
Na oração sagrada dos segredos

E despertou a tal métrica no regaço
Decassilábico de límpida inspiração
E trouxe ao sol a verdadeira ilusão
Que canta em cada canto o abraço

Contemplando os versos germinando
Como flores no jardim alado, suspenso
Demonstra como esse amor imenso
Te ilumina esses sábios lábios, rimando

E no milagre matutino do sacramento
Silencioso de folhas já tão fatigadas
Acorda a bonança das espigas doiradas
No trigal das ilusões feitas de alento

Alumia essa clara claridade glamorosa
Emprestada à tua pele magnificente
Nessas mãos de poeta omnipresente
Que enleva em odes a envergonhada rosa.

Rosa Alentejana Felisbela
(foto minha)

sábado, 9 de abril de 2016

Temporal


Longínqua se sagrou essa louca maresia
de lábios remotos, anódinos e até mansos
que adentrando a terra foram mais amargos
e mostraram lamentos numa vera hipocrisia

jurando profundidade na forma de segredos
brotando da sinceridade que afinal não existia
revelavam um mundo com imensa harmonia
e encerraram o tal istmo sem explicar enredos

ah! Vento agreste que mordeste a doçura
de cada torrão ressequido da morna saliva
temporal que fizeste e a tornaste cativa

volta! Devolve o ensejo e a mordaz ternura
que incendeia a planície e a torna expressiva
ou extingue as gotas que a tornaram criativa!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Equívoco


Os olhos sobre a mesa
e o livro ainda incrédulo
repousando, como quem parou
na página errada

tempo gasto de entrega
e um vazio gigante
girando nos calcanhares
e prometendo uma chegada

- Prometo que não vou
sem ranger a porta – disseste.

Mas o ruído foi um passo
delicado de algodão no soalho,
uma pluma lenta

uma queda absurda e surda
espalhada sobre as mãos

de passagem

e a boca que pousa louca
desvairada
na letra da música, confinada
ao espaço exíguo
que a lágrima ocupou

a pomba emergindo a medo
num ritual de acasalamento
evocando a gravidez das palavras
nas nuvens vagas do poema
no livro
à janela

lacunas breves
no silêncio das páginas

bater de asas rumo ao infinito
da frigidez violentíssima
das sílabas

e um suspiro equivocado!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Perduro


Hoje sei que o teu nome
é sombra e sol
na minha alma.

Esse teu nome é o mistério
que a beleza ocultou
nas páginas dos Maiores Segredos
que o “sagrado baú” guardou.

Esse nome habita-me
como manuscrito
gravado na minha ansia pura,
e embevece-me
como um lótus azul
brilhando no silêncio
do meu olhar.

Esse nome é magia e fome
que me arde na saliva…
Ah! Se te pudesse trazer à boca
como pão a levedar
no âmago da solidão,
repartir-te-ia
pelo corpo
até me entranhares as veias
e chegares ao coração!

Esse teu nome é como
luz do farol aceso
no meio da tempestade,
um “templo solene”
nas mãos
da, já gasta, serenidade,
indicando-me o caminho
que percorro sem passos
sem tempo
sem idade…

E mesmo que a chama
estremecesse ao vento,
eu
sempre preservaria
a filosofia pagã
do teu nome entre os meus lábios,
desesperadamente,
porque procuro
o abismo do futuro
na sabedoria dos sábios.

Esse teu nome cativa-me
a carne no som abstrato
que me converte em estátua,
esculpida pelo cinzel da renúncia
do destino,
tremulando
na brandura de um beijo anónimo,
marmóreo,
onde perduro.

Rosa Alentejana Felisbela

(Esculturas de Marie-Paule Deville-Chabrolle)

domingo, 3 de abril de 2016

Encoberto


Quando a distância era de somenos importância
Havia os grafemas e fonemas em ligações nuas
Em paletas de poemas sobre as pedras das ruas
Formando arco-íris belos de flores em abundância

Depois vieram as sombras concomitantes da ansia
Escurecendo os segredos guardados pelas luas
Trazendo tristezas mergulhadas nas amarguras
Saboreadas com o fel na textura dessa ganância

Que encobre os gestos numa tosca mentira impune
Cravada em alguns versos soltos e algo debilitantes
Escritos nas margens das folhas do negro negrume

Como pérolas lindas e talvez até mesmo luxuriantes
Mas também imperfeitas tal como um extinto lume
Em cinzas vagando como lamentos, toscos meliantes!

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

sábado, 2 de abril de 2016

Quadros incompletos


Quantos quadros
quase pintámos
pelas mãos do luar?

Medito momentaneamente
na metamorfose de cada ocaso
e no deleite das cores
leitosas
derramadas no horizonte
cremoso do nosso abraço.

Ele foi o recorte imaculado
na branca espuma,
o logro que serenou a sombra
de nós
por entre as nuvens.

Depois veio a lua
vertendo estrelas sobre as pestanas
que exalavam mornas sensações
entre o sonho e a realidade
rumorejante das águas.

Ainda houve a flor
da frondosa laranjeira
rejubilante de perfume
na nossa pele

e os gomos de amor
sorvidos de tanto sabor
e sapiência por entre o azul
lascivo das auroras…

Também aconteceu o milho
amarelo regado de instantes
inscritos na voz murmurante
das abreviaturas

um quase marasmo
na brandura das planícies
trigueiras e suaves
dos nossos corpos…

Tantas lonjuras, meu amor,
tantas procuras e tanta sede
pintada em quadros

que nunca
ficaram completos.

Rosa Alentejana Felisbela
(foto tirada por mim)