domingo, 18 de outubro de 2015

Desflorar de nuvens



Existe uma quase-morte
nos beijos que o vento deposita
nas folhas alaranjadas

Existe um quase-amor
na valsa que a chuva mima
em torno dos ramos da árvore

Existe um quase-gemido
no ranger do tronco nodoso
forte, como os braços amados

Existe uma quase-excitação
na raiz de cada árvore
pela água que purifica a seiva

Existe uma quase-carícia
no perfume da terra
quando a chuva cai sem dó

E existe uma quase-tentação
de voar com raízes rumo
às nervuras do sol quando
as nuvens se desfloram…

Rosa Alentejana Felisbela
18/10/2015
(imagem da net)

sábado, 17 de outubro de 2015

Voo comum


Chove nesta manhã de sábado. Mas chovem alegrias de regressos ao lar que o coração engendrou para nós. Somos o fado abençoado pela música que a chuva canta sobre as vidraças. O hino que o parapeito sopra ao tamborilar desenfreado pelo vento. O chapinhar que se move ao ritmo das rodas dos carros ao longo da rua deserta de transeuntes. O destino que brilha em cada gota na metade que deixou de nos pertencer. E sabes a razão? O meu abraço reflete o teu quando o frio chega. O meu sorriso completa-se na tua boca ainda trémula da saliva comum. Os meus lábios têm o sabor dos teus sabendo o mesmo segredo. A minha pele respira na tua há tanto tempo que a sudação sabe os locais certos por onde deve correr. E o meu olhar tem a hora exata de convocar o teu para a familiaridade, pois obedecemos ao mesmo impulso de estar juntos. Somos o novelo colorido a duas cores que a fortuna enovelou e que a vida desenrola nas mesmas mãos, qual Penélope, no sentido do relógio. Porque este amor reclama o seu jardim secreto, qual tapeçaria na parede do nosso quarto, exposto às bátegas desta chuva de carinhos e saudades. E o perfume…ah! O perfume pousado na pele abre as asas no voo que tão bem conhecemos!

Rosa Alentejana Felisbela
17/10/2015
(Imagem da net)

sábado, 10 de outubro de 2015

Água


Estou consciente da chuva que cai serenamente
No meu chapéu negro, negro como a noite cega
Mas, são essas mesmas gotas sinónimas da rega
Que a vida necessita para brotar da sua semente

Aquela água que a tristeza encerra e até carrega
Também transporta o fruto farto na sua corrente
Ela mata a fome e a sede aos seres tão-somente
Enquanto o Homem, eterno descobridor, a navega

Já eu carrego as galochas vermelhas e lustrosas
Símbolo de alegria e divertimento contagiante
Pois adoro correr pelas ruas e saltar nas poças

Sou só criança pura no meu ritmo alucinante
Tão preso à pressa da certeza das mariposas
De quem vive a vida e devora cada instante!

Rosa Alentejana Felisbela
10/10/2015
(imagem da net)

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Vinho


Mansamente te recordo
por entre as sombras das parras
maduras
pelo sol a pino

sobre a pele, acelerando-me o sangue
carregado de ternuras
inspirando perfumes
e poemas
deleitando-me os sentidos
em doces branduras

marejando-me a língua
com o teu português
de delícias
nas uvas dos teus lábios
que vou mordiscando suavemente
embriagada
pelo álcool pleno de carícias

nos dedos a sensibilidade
dos magos
colhendo os cachos sapientes
matando e morrendo de saudades
nos bagos ainda
quentes

Recordo-te de olhos vendados
na minha vida, minha sina
és a cepa mais robusta
que tocaram, alguma vez,
as minhas mãos de menina

casta guardada em tonéis
de esperança adocicada
pronta a verter no meu cálice
moldado

poema
prestes a explodir da garrafa
no som abafado
do meu fado

tu inspiras-me
só tu me invades
e me fazes
sorrir!

Rosa Alentejana Felisbela
07/10/2015
(imagem da net)

domingo, 4 de outubro de 2015

Poeta: rei no jardim do seu castelo de ilusão


Atrai-me sobremaneira o malabarismo que as palavras assumem nas mãos do poeta. Elas deixam um perfume a sândalo e inspiração sem quebra de margens no vagar das folhas, como se a condução se devesse ao vento arruaceiro e não às mãos sábias e transformistas do homem! Amo o “flirt” entre o seu acento grave, atónito com a chuva de corações cor de romã madura, e o sorriso indecente na boca amada, como a doce marmelada das frases copiosas com as cores do fim da tarde! São efeitos visuais que o poeta, prestidigitador dos sonhos próprios e dos que o leem, consegue através da sua voz de jogral, empunhando a sua “Excalibur” feita de letras… Apenas ele destrói as armaduras de muros omissos, mais duros que o metal, e sobe os degraus como um conquistador destemido das mentes e grita: amor! Quantas vezes o poeta reúne as suas vivências em torno da Távola Redonda da sua maestria e rasga verbos proibidos ou acaricia a saga das consoantes como animais de estimação… Ele é rei que liberta a pontuação do jugo dos interlocutores, mas também alberga debaixo dos seus tetos o respeito pela “pirofagia” dos críticos de rostos carrancudos! Admiro esse poeta, saltimbanco de ideias, que caminha entre sonetos, quadras, versos soltos ou textos poéticos, tratando-os com a calma que o deleite de uma meia-lua insinua no seu peito…Ele é o eterno amante que não faz refém a palavra, mas que a liberta como pássaro no azul da simbologia. O poeta é o Eco de um turbilhão de ideias consecutivas no jardim do seu castelo de ilusão.

Rosa Alentejana Felisbela
04/10/2015
(imagem da net)

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

É outono


Subestimei a árvore
que se desnuda inteira
por um rodopio de vento…
dei-lhe o benefício do rubor
colhido pelo tronco
numa fase de lua vermelha
e na dúvida
acertei no regato que corria
ali ao lado
desenfreado
por uma raiz astuta…
saltou-me o colorido das rochas
ao âmago dos olhos
e assim brotou o outono
de uma folha
a que chamei trovoada
no amarelo
que desbotava
o tempo!

Rosa Alentejana Felisbela
01/10/2015
(imagem da net)

Promessa de outono


Combinemos o preâmbulo, pouco ético, entre a chuva e a terra molhada deste outono. Na verdade, todo ele será poético, uma vez que se sente o aroma das madressilvas impregnado do hálito de Pã, enquanto Chronos converte o tempo em fénix renascida. Sabemos que, enquanto houver uma romã, os lábios serão o alvo frágil do mosto proposto por Baco. E que as uvas amadurecem a inquietação no sangue, e os trovões obrigam o céu a relampejar incessantemente perante as letras do nosso dicionário. Tudo o que observamos tem a forma de uma castanha ainda refugiada no seu ouriço, com o receio do contágio das gotículas que caem nas folhas abertas às cores do arco-íris. Também elas caem agora, perante as propostas indecentes de Éolo, murmurando a ladainha do vento que arrepia a alma, trazendo consigo o mesmo olhar e o presságio do doce de abóbora que combate as desilusões espalhadas pelo chão. O único consolo são as vidraças da janela, de olhos marejados pela chuva e encantados com o arrulho das pombas no fio dos telefones, apesar do pranto dos céus. Na certeza, porém, de que o Oráculo da natureza será preservado enquanto as minhas mãos puderem escrever uma única palavra de apreço ao prazer de beber um chocolate quente. Não existe caudal mais lindo e puro do que esse preâmbulo aberto às palavras de um poema por nascer…uma promessa!

Rosa Alentejana Felisbela
02/10/2015
(imagem da net)