quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Queria que fosses a chuva


Chove no pedaço de chão
a que chamo meu.

Se fosses tu…

Quem dera que fosses o vento
que hoje despenteou os meus cabelos
e amarfanhou as minhas roupas,
revirando-me inteira,
tirando-me o ar
como se um temporal de prazer
ficasse aninhado por dentro de mim!

Mas não foste tu…

Como eu queria que as nuvens escuras
que toldaram o céu
fossem a tua sombra
e me abarcassem o corpo até à alma…

Mas não…não foste tu…

Que bom seria se me chovesses
desfeito em gotículas de carícias…
se te entranhasses na aridez da pele
e me hidratasses os poros
enternecidos por te receberem!

Mas não és tu…

E, por isso, fiquei ali…no meio da rua,
perdida,
a sentir o barro nas entranhas,
frio de nevoeiros
de tempos passados
e presentes ainda…

E o meu presente não foste tu…

E foi então que te pedi:
desfaz-te na borrasca
dos sonhos que sonhamos
e deita-me novamente no leito
do rio…
e que o ciclo recomece
num romance
que é meu
e teu
tão doce
e bravio.

Rosa Alentejana Felisbela
16/09/2015
(imagem da net)

domingo, 13 de setembro de 2015

Na cápsula do tempo


Penso

que me fugiram as palavras da ternura
para parte incerta…

perdidas entre a língua e o palato

ficou a saliva
do desejo
que não vês
nem te importa

e agora

olhando as mãos tristes
e cansadas
da tua ausência

despreocupada

perpetuo a sede
que sinto
num último poema de amor.

Rosa Alentejana Felisbela
(imagem da net)

Sonho na realidade


Amanheceu e hoje não me importam as palavras sobre a mesa do café, porque a manhã partiu sem um “amo-te”, nem deixou um beijo a arrefecer. Mas nem a mágoa certeira de quem a chora me faz molhar as mãos, simplesmente porque já não sinto. Sequer me vou martirizar pelo simples afago nos cabelos que não se ajeitou à pobreza do meu pequeno-almoço. Já não ouço as notícias da vizinha do lado colada à janela a pisar as folhas ainda brandas das lembranças. Nem me importa o cão que ladra ao meu lado, por causa das magras gotas de água que caíram no quintal. Apenas vou sorrir. Vou sorrir à flor perfumada que me doaste através das pontas dos dedos soltos à brisa da minha esperança, tantas vezes perdida. À chama que inventaste na minha boca, como dilúvio quente penetrando na minha realidade de veias intrínsecas ao coração. À suavidade que entrou abruptamente na loucura da minha pele. A esse derreter exausto de tanto evitar querer…mas que cedeu vagarosa e ternamente à maravilha das palavras ocultas no dicionário de nós. Ao suspiro que a boca arquejou quando o fogo do teu sonho abriu caminho entre vales suspensos há tanto tempo, que a língua igualava a rocha muda do chão que os forrava. Ao entendimento que suportou o discurso anelando as paredes caiadas de tristeza e que as pintou com as cores do arco-íris, de todas as vezes que imaginávamos uma ponte. Às tardes e noites em que não me vendaste o brilho, mas que tanto queriam transbordar de quimeras… Ao banho quente com pétalas de rosas emaranhadas nas nossas vontades inquietas por um sopro de amanhecer… E volto a sorrir ao dia que vive em mim, por tua causa, e à energia que não desiste de um dia…um dia…acontecer!

Rosa Alentejana Felisbela
13/09/2015
(imagem da net)

sábado, 12 de setembro de 2015

Perfume a rosas


Dedilhei o espaço entre as linhas escritas pelos teus dedos quando penetraste a folha de papel num arriscar de tinta e loucura…e suspirei. Por não haver espaço para inspirar o tempo entre uma sílaba e outra, ganhei palavras e despendi-as nesse arrulhar próprio das frases criadas com o propósito escondido, sufocado, do nosso amor. Amarfanhei o compromisso do acordo ortográfico, porque ele já não me basta para te dizer o que sinto. Que se calem os olhares dos poetas. Que os rios de filosofias derretam sobre as ruas das nossas vidas, num confesso medo acolhido pelos nossos corações, de mãos abertas pela generosidade. Saciemos a fome do espírito, em letras inventadas, em refrões banais que nos comovam as almas, de asas leves e soltas, beijando o céu das nossas bocas. Que a promessa da prosa se rasgue numa miríade de pérolas que te ofereço nestas singelas linhas que te escrevo com o perfume das rosas entre os meus dedos…amo-te.

Rosa Alentejana Felisbela
12/09/2015
(imagem da net)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A pureza do nosso abraço


Nada é tão puro quanto o nosso abraço. Nada é tão perfeito, porque apenas as nossas dermes possuem um mesmo latejar, uma simultaneidade impregnada de certeza no desejo do outro que transcende as cores das auroras. E são elas que levantam os véus do silêncio entre as nossas bocas num compasso terno de entendimento. Só os pássaros voam o nosso voo de liberdade nos gestos, porque é deles a vontade de pousar ali e não noutro lugar. Como se esse fosse o pacto mais correto a assinar pelos nossos corpos nessa eterna capacidade que têm as nuvens de desabrochar o perfume a eucalipto de dentro das nossas lembranças. Porque elas são feitas daquele algodão imaculado com que se tece a magia, bordando os lábios numa perfeita sintonia. E depois…existe o contacto perturbante das nossas faces e o estio que reverbera no remanso das searas das nossas mãos, como se o vento acariciasse as espigas da nossa voluptuosidade e nos arrastasse para a cor de que são feitas as papoilas. Certamente haverá uma tempestade a romper do abismo do nosso amor…é uma questão de segundos até que o sol incendeie definitivamente o nosso beijo e o leito da nossa existência abra definitivamente as portas do nosso dia. E será certamente um belíssimo dia.

Rosa Alentejana Felisbela
11/09/2015
(imagem da net)

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Balanços mal calculados


Fraca é a vontade
que se agarra àquela mão
volátil e mensageira da verdade
de um lúgubre senão…

Vestígios de insanidades e manhas
remoem as antigas alegrias
insalubres e estranhas
feitas penas, fantasias…

Cálculos de desejos roubados
em folhas de balanços mal calculados,
sentimentos de duplas entradas
assinalados em cruzamentos de estradas
onde o risco do abandono
é hediondo, é tamanho…

Que mesmo no ajustamento
de curvas, nos assolam o pavimento
urdido e gasto pela mão
sinónimo de análise de correlação…

Mas fina linha de associação ilusória
onde se gasta e agasta a nossa história
pela barreira absorvente
da probabilidade inexistente
do coeficiente de confiança…

Que se tornou numa lembrança
motivada pela curva de regressão
onde deixamos a solidão
ou seria apenas erro de amostragem
de um fraco e fino fio de coragem?

No fundo faltou a filtragem
por uma parca hipótese nula
onde a independência rotula
o limite de confiança…

Afinal, bastaria um nível de fiabilidade aceitável
perante a sensibilidade tolerável
e emergiria sem falhas…

Mas estas existem e ardem como palhas
num campo quente de estio…
E agora, o campo é estéril ou de pousio?

Rosa Alentejana Felisbela
08/09/2015
(imagem da net)

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Num só


Cada razão é abrigo para as nossas vozes,
como se fossemos capazes de interditar
o tempo numa magia venerada
pelas nossas mãos!

Só assim me sinto feliz,
daquele tipo de felicidade intacta,
inteira e bela…como um escrito teu!

Cada sorriso é um marco
que o mundo jamais conhecerá
por ser só nosso,
por sermos dois
a utilizar as bocas numa só,
por sermos os únicos
solitariamente febris
pelos beijos
extasiantes na distância
de um poema meu!

Cada abraço é a tela pintada
pelo por do sol alentejano
numa ponte qualquer,
enquanto o rio percorre
o seu curso
num suspirar irregular de tanto amor,
de tanto amar…

Cada olhar é a roupagem
que veste o sangue
da ternura sem par,
daquele desejo ímpar,
daquela pressa
que invade a mente
quando o toque começa a despertar…

E existes tu na minha prosa,
existo eu nas letras
contaminadas
pelas fases da lua no seu brilhar
contínuo sobre os amantes…

Rosa Alentejana Felisbela
04/09/2015
(imagem da net)