quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Paixão


Ainda há pouco abriste
a porta
do quarto arrumado
a pés silenciosos,
e já o abraço se soltava
como vacilo de mar
embatendo
na deriva dos braços amados.

Na troca de olhares
subscreveste anseios,
desvendaste mistérios
e entregaste palavras
na bandeja da saliva
que misturaste
em forma de coração
para matares a sede.

Ostentavas a maciez
da pele madura
e não escondias
os sinais marcados
pelos caminhos menos
felizes
percorridos com acidez.

Soltaram-se segredos revelados
e partilhados
na medula da consciência,
sem pausa para respirar,
porque o tempo urgia.

Levantaste o escudo
e esboçaste a frescura
na pintura dessas ganas
expressas em poemas
rimados
com as cores do dia
e tanta ternura…

Mas, foi quando inclinaste a cabeça
e mostraste a inocência
do grito rouco
que a energia
do ponto fulcral se espalhou
qual pedra caída no centro do lago,
em longos círculos
até às margens
e se espelhou a franqueza
da realização
concêntrica do prazer.

Ainda as sombras se alongavam
na frescura das paredes
e já o perfume se entranhava
nos poros aveludados
pelas frestas das janelas
e as cortinas não chegavam
para cobrir o dia.

Foi-te devolvida a vida
em segundos mágicos…
como sentimentos clássicos
de amor permitido
entre as aspas platónicas
do vosso olhar.

União sublime
entre o espírito cultivado
e a cultura sonhada
pelo encantamento
expresso num diálogo
subliminar
presente nas entrelinhas
de uma paixão.

E todos os dias
repetirias a lenda
ao filho que breve
nasceria…

Rosa Alentejana Felisbela
06/08/2015
(imagem da net)

sábado, 1 de agosto de 2015

Não é um adeus, é um voo livre


Por favor silencia
a proibição no teu olhar

Não lhe dês visibilidade
para o retrovisor
colocado propositadamente
no local estratégico,
à beira do coração

Não a escutes,
não te tornes Narciso
nas esperas,
nem olhes nos olhos
a Medusa do passado,
porque o teu caminho
é agora

Se necessário for
alberga os sonhos
no baú da esperança
e não os deixes voar
sem tentar colocá-los
no estendal da vida

Deixa-os agarrar os raios de sol,
interiorizar os pingos da chuva,
acolher a brisa do vento
e rasgar as dúvidas
em miríades
de estilhaços

Porque o momento é a lua azul
enfeitada
por colares de estrelas
formando um caminho
de amor-próprio…

Vês o menino que brinca
com a varinha mágica?

E os sorrisos coloridos
de berlindes
em forma de bolas de sabão?

Ele construiu um sopro
de pura liberdade,
a magia da vida
na escrita pela tinta
dos dedos
de um poeta
numa folha de papel
como recordação!

Por isso migra
as partidas
atravessa pontes
vive o que a ilusão
te deixar voar
e sonha.

Rosa Alentejana Felisbela
01/08/2015
(imagem da net)

terça-feira, 28 de julho de 2015

Conquistador de sonhos


Ah poeta! Só tu entendes a fome que em mim trago,
essa fome de versos, fome inquieta, que me dilacera
nos poros dispersos, adormecidos na pele da espera
onde me refaço, qual fénix, emergindo no doce lago

Ah poeta! Só tu me mordes cada sílaba qual náufrago
e me conduzes ao Olimpo desse prazer que desespera
e me fazes desabrochar a deusa e tantas vezes a fera
que te mata e morre nas letras do poema em suave afago

Só tu regressas ao âmago das palavras gastas e encantadas
e amadureces a forma das lavras em caminhos ternos de amor
perfilando os abraços nas reticências quentes (ainda que veladas)

sulcando os gestos como brisas navegando ao sabor do rimador
e imaginando as metamorfoses que consegues consagradas
ao ritmo das mãos que me ofertas como alado conquistador…

Rosa Alentejana Felisbela
28/07/2015
(imagem da net)

domingo, 26 de julho de 2015

Há pessoas assim...


cujo olhar se afigura com o fundo do rio
ultrapassando as rochas de águas
revoltas ribombando verdes sentimentos
ou transparecendo calma
nas margens da serenidade

cujo abraço se assemelha ao do mar
quando se enleia nos corpos amados
dos seres que o habitam e com relutância
os deixa chegar à areia das praias

cujo beijo se parece com o aflorar
do bico do beija-flor, uma e outra vez,
estimulando os grãos de pólen
e nutrindo os lábios de tanto
e tanto amor

cujas mãos imitam asas de borboletas
roçando as entranhas, colorindo
as veias num remanso cálido
afogueando o corpo sem espaço
para conter as gotas de orvalho
da manhã

cuja pele se compara ao solo
macio de uma terra fértil
e quando se une a outra
se transforma em vulcão desordeiro
dos sentidos, num transbordar
de bem-querer

cuja voz imita o som da flauta
que derrama sussurros sobre as campinas
num arrolhar de carinhos
sobre os ninhos de palavras
criados em desvelos
para serem versos soltos
versos puros
voando livres
ao abrigo das rimas

Há pessoas assim…que se amam
na lembrança de um sonho
percorrido pelos dedos
no poema.

Rosa Alentejana Felisbela
26/07/2015
(imagem da net)

domingo, 19 de julho de 2015

Janela de magia

XIV Mote
'...preciso de magia...não consigo viver em preto e branco.'
Nietzsche

Janela de magia

Nesta tarde onde a madorna
impera nos sentidos envolvidos
na evocação de te ter, não resisto…

fecho os olhos e ouço a cor
da buganvília rosa
na prosa que não me vieste trazer…

mas ainda sinto os lírios
alvos das palmas das tuas mãos
na pele, com calma,
rogando-me o mar num olhar
a derreter…

ainda o verde das folhas
em esperança
se deita no leito do beijo molhado
e a laranjeira relembra-me a dança
dos corpos em forma de lua cheia
subindo ao céu do pecado!

Reabro os olhos e apago
o preto e branco da distância
enquanto as mãos me ardem
na lembrança
de um amor-perfeito
que vem colorir
o meu peito…

num andamento de flauta
soprada por ti junto à janela
onde me deito.

Rosa Alentejana Felisbela
19/07/2015
(imagem da net)


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Aconteceu

MOTE XIII
"A língua girava no céu da boca
Girava
Eram duas bocas, no céu único"
Carlos Drummond de Andrade

Aconteceu

No instante antes do beijo
só sentia sol e desejo
e fagulhas específicas
fulgurando da pele

Enquanto isso, a natureza
embrenhava-se no perfume
a melaço resguardado
no significado do abraço…

Ainda as estevas floriam
desabrigadas da sombra
e abriam os gestos vagos
próprios do encanto
do início do dia…

Como doces afagos
à solidão…à melancolia

Depois os lábios adocicados
naquele toque simples e inteiro
de quem quer mais mas receia
que seja…o derradeiro…

Mais tarde o encontro
das línguas
na devassidão do oceano
numa explosão de prosas
de ondas a embater nas rimas
numa escrita de rosas
confiadas ao altar profano
da praia plena de ousadia

E subtilmente
surge o céu
único
e deslumbrante
azulando a fantasia
e o beijo…aconteceu!

Rosa Alentejana Felisbela
15/07/2015
(imagem da net)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Autorretrato


Atrevo-me a colocar-te
nas entrelinhas
ruborizadas
do meu poema

E cubro-te de musselinas
perfumadas de alfazema...

Porque te encontras deitado
seminu
no silêncio implícito
que te murmuro ao ouvido

Descrevo-te plácido
abraçado a cada
fonema
que se entranha no prazer
lânguido

Tão lânguido
como a suavidade da gema
encostada à pele
quente de cada letra

E as palavras reverberando
de imagens metafóricas
criadas em tua homenagem,
meu Apolo pleno de magia,
de poesia…

Trajo as sílabas da cor da maçã
e incorporo os sentidos
em tons de pastel
meu…poema de rondel…

E só me importa a rima
escrita sobre a folha
de papel

E no teu corpo desnudado
na seda das entrelinhas
beijo-te no mote
flamífero do desejo
caligrafado
de mel

Sou eu teu espelho
rosado
o autorretrato lavrado
a poema de amor
em literatura de cordel.

Rosa Alentejana Felisbela
13/07/2015
(imagem da net)