domingo, 19 de julho de 2015

Janela de magia

XIV Mote
'...preciso de magia...não consigo viver em preto e branco.'
Nietzsche

Janela de magia

Nesta tarde onde a madorna
impera nos sentidos envolvidos
na evocação de te ter, não resisto…

fecho os olhos e ouço a cor
da buganvília rosa
na prosa que não me vieste trazer…

mas ainda sinto os lírios
alvos das palmas das tuas mãos
na pele, com calma,
rogando-me o mar num olhar
a derreter…

ainda o verde das folhas
em esperança
se deita no leito do beijo molhado
e a laranjeira relembra-me a dança
dos corpos em forma de lua cheia
subindo ao céu do pecado!

Reabro os olhos e apago
o preto e branco da distância
enquanto as mãos me ardem
na lembrança
de um amor-perfeito
que vem colorir
o meu peito…

num andamento de flauta
soprada por ti junto à janela
onde me deito.

Rosa Alentejana Felisbela
19/07/2015
(imagem da net)


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Aconteceu

MOTE XIII
"A língua girava no céu da boca
Girava
Eram duas bocas, no céu único"
Carlos Drummond de Andrade

Aconteceu

No instante antes do beijo
só sentia sol e desejo
e fagulhas específicas
fulgurando da pele

Enquanto isso, a natureza
embrenhava-se no perfume
a melaço resguardado
no significado do abraço…

Ainda as estevas floriam
desabrigadas da sombra
e abriam os gestos vagos
próprios do encanto
do início do dia…

Como doces afagos
à solidão…à melancolia

Depois os lábios adocicados
naquele toque simples e inteiro
de quem quer mais mas receia
que seja…o derradeiro…

Mais tarde o encontro
das línguas
na devassidão do oceano
numa explosão de prosas
de ondas a embater nas rimas
numa escrita de rosas
confiadas ao altar profano
da praia plena de ousadia

E subtilmente
surge o céu
único
e deslumbrante
azulando a fantasia
e o beijo…aconteceu!

Rosa Alentejana Felisbela
15/07/2015
(imagem da net)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Autorretrato


Atrevo-me a colocar-te
nas entrelinhas
ruborizadas
do meu poema

E cubro-te de musselinas
perfumadas de alfazema...

Porque te encontras deitado
seminu
no silêncio implícito
que te murmuro ao ouvido

Descrevo-te plácido
abraçado a cada
fonema
que se entranha no prazer
lânguido

Tão lânguido
como a suavidade da gema
encostada à pele
quente de cada letra

E as palavras reverberando
de imagens metafóricas
criadas em tua homenagem,
meu Apolo pleno de magia,
de poesia…

Trajo as sílabas da cor da maçã
e incorporo os sentidos
em tons de pastel
meu…poema de rondel…

E só me importa a rima
escrita sobre a folha
de papel

E no teu corpo desnudado
na seda das entrelinhas
beijo-te no mote
flamífero do desejo
caligrafado
de mel

Sou eu teu espelho
rosado
o autorretrato lavrado
a poema de amor
em literatura de cordel.

Rosa Alentejana Felisbela
13/07/2015
(imagem da net)

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Na memória


Contornos sorridentes
do casario de paredes brancas
largas e frescas
acomodadas pelo azulejo
timbrado a azul

Relâmpagos de saudade reluzem
na penumbra do quarto
feito de eternidade

Restos de ternura caminham
a passos lentos nos poros atrevidos
das extremidades dos dedos

Murmúrios de caminhos
secretos
entre a língua lasciva
e a pele afogueada

Olhares cruzados entre a fome do beijo
e a onda do desejo implantado
a versos escritos
na caligrafia perfeita
que têm as pétalas da rosa
perversa de solidão

Promessas veladas
no silêncio das almofadas
do branco mais puro
que o algodão
conversam com o tempo
esquecido e gasto pelas estradas negras,
longe do cimento e do betão

Alvos são os gemidos
roçando a carícia que brinca,
atrevida,
no morder dos lábios,
no hálito quente sobre a orelha,
no arfar desconcertante
entre a covinha do queixo…
mais perto do êxtase
e da sofreguidão
dos minutos em contagem decrescente

E as laranjeiras ainda segredam
o perfume da aventura
encoberta pelo sol de verão,
enquanto o telefone toca
e perde-se no som que a rega do milho faz,
molhando os sonhos,
as prosas e as mãos

Rosa Alentejana Felisbela
09/07/2015
(imagem da net)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Louca eu?


Sim, louca pelos dias que nascem floridos
na inconformidade das planícies, enamoradas
pelas papoilas rubras de vida!

Sim, louca pelo perfume do por do sol
enroscado aos montes grávidos de Vénus
e pelo nascer embargado no orvalho
das madrugadas de mel!

Sim, louca pelo som dos chocalhos do gado
plantado nos prados da minha imaginação
quando a chuva de março me idolatra
num plano elevado de Olimpo, em submissão!

Sim, sou louca pelos campos de algodão
cultivados na tua pele, onde me rendo, enlevada
e me derreto de tanto, tanto bem querer!

Sim, sou louca pelo sorriso da criança refugiada
no colo quimérico antes do anoitecer, pois
sem sonhos, ninguém consegue viver!

Sim, sou louca pelo abraço puro da pureza
da amizade…lugar emblemático,
que modifica o mundo num simples engrandecer!

Sim, sou louca pelas ações acopladas aos sorrisos
onde não resta lugar prisioneiro,
beijo como o primeiro,
nem água sem leito para correr…

Sim, sou louca pela luz desse sol que segreda
magia às folhas verdes e adoradas,
enquanto poliniza as aves e as raízes
dos sonhos que voam em debandada
das mãos dos poetas…a cada poema
a acontecer.

A loucura cresce a cada hora
em segundos de palavras tentadas
pela saudade, pela solidão, pela liberdade
escrita e sublimada à potência infinita
da nossa criatividade…todos somos
música vinda do coração!

Rosa Alentejana Felisbela
01/07/2015
(imagem da net)