sexta-feira, 29 de maio de 2015

Origem


Sinto o pulsar das palavras
com pressa de parir o poema
numa convulsão plena
de vontade de partir

sufocam-me as veias
alisadas pelo tempo
em verbos de cefaleias
no occipital âmago do existir
em gemidos, desalentos
que brotam da viola
campaniça, num certo
dedilhar, mesmo que a fingir

amargam-me as palavras
de licor
embebido em conchas
soltas no doce sabor
desse amor vadio
empestando as vielas de Lisboa
quando a saudade é fado
convencionado a rigor

e quando sinto as palavras
enrugadas nas mãos
constato que são rendas
dos bilros retorcidos
na colcha cintada das fazendas
acetinadas em dobras admiradas
pelos olhos em comunhão

mas são as palavras ensanguentadas
expulsas pelas contrações
ainda a flutuar no líquido amniótico
das mãos
que se transformam nas rimas
amarrotadas, imberbes
que fazem nascer o poema
hipnótico
de um poeta que, em tempos,
fez suspirar o seu próprio
criador

Rosa Alentejana
16/05/2015
(imagem da net)

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Versatilidade


És palavra
seminua em lua cheia
deitada no mar do pensamento
cavalgando ondas, abrindo vagas
como quilha
de barco
emproado de sentimentos

És palavra
enconchada em praia quente
plena de areias amareladas
pelo sol poente
traçando formas aladas
numa profusão de versos
emparelhados, fulgentes

És palavra
escrava vergada à dor
prisioneira do regime cru e cruel
a que te votaram nessa
folha simples de papel
mas que se ergueu bandeira
da República de Mel

És palavra
livre e ligeira pela madrugada
acordando cândida mas
despindo os seus véus como
serpente despudorada
tocando com a língua
a maçã
encantada…

Num dia és tudo
nas mãos do poeta
noutro dia
és nada!

Rosa Alentejana
15/05/2015
(imagem da net)

terça-feira, 26 de maio de 2015

Poema-mais-desejado


Nasceste num ninho de palavras
colhidas ao chão
colhidas aos beirais
colhidas ao parapeito da janela
colhidas às mãos cobertas de pão
com manteiga
de crianças tagarelas

Alimentaram-te as aves
vestidas de penas e arrulhos
vaidosos
com os bicos galantes
coloridos e agitados
numa ânsia de te saciar a fome
de vogais e consoantes
num cíclico soneto
tornado fado

Foste o ovo novo

o começo

e num aconchego de asas
do calor quente de mãe
chocado

surgiste tu

frágil foco de luz
a quem elevaram ao azul
máximo

de poema-mais-desejado.

Rosa Alentejana
15/05/2015
(imagem da net)

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Amo-te


Restaram-me poucas palavras
para te dizer
que te amo

e esta doçura…

Apenas o pólen trazido pelas abelhas
na monotonia do voo
regressa sempre
aos lábios cobertos de letras e mel…

Eu só suspiro e passo as mãos,
como asas a roçar o papel,
e num pousar de sílabas, sereno,
pronuncio o teu nome…

Rosa Alentejana
21/05/2015

quarta-feira, 20 de maio de 2015

A sul


Foi no sul dos meus olhos
que depositaste a entrega serena,
a palavra sémen
com que fecundaste o poema.

Vieste acordar-me o mar
marulhando letras adormecidas
há muito
nas minhas entranhas e,
mergulhando,
mesclaste de anil
a concha das mãos
cobertas de manhas.

Ah! Foi no sul da minha nuca
que enfrentaste a guerra solta
dos meus cabelos e, docemente,
murmuraste
a ladainha das sílabas,
suave novelo
das minhas emoções.

Vieste aconchegando
a tua voz nos meus ouvidos
como se a sul me rondasse a alegria
como borboleta dos sentidos
e me estimulasse a magia
do pólen presente nas rimas
dos tempos perdidos.

Foi no sul, no meu sul
que abriste a janela suspensa
no limbo do sonho de carinho
onde marcaste a diferença
quando fizeste do meu colo
o ninho
do nosso amor.

Rosa Alentejana
20/05/2015
(imagem da net)

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Das searas


Eu nasci do gérmen do trigo, tenho a pele trigueira de quem trabalha à sombra do sol, esse que morde e fustiga a seara inteira e enfeitiça a corola do girassol.

Tenho nos lábios a cor vermelha da papoila no meio da seara encerrada, enquanto na terra mato o fastio e no estio floresço só e abandonada.

Carrego o perfume da flor-da-laranjeira nos cabelos longos, negros e ondulados, como searas sopradas pelo vento, em dias tempestuosos de céu escuro e amargurado.

Seguro nas mãos o cheiro da terra quando fica molhada, e da flor-da-amendoeira o branco imaculado, cúmplice com a luz quando o sol fica a pino na seara por trás do silvado.

Sustento nos olhos o verde das folhas miúdas das oliveiras, quando enamoradas pelo castanho do barro guardado perto da eira, e numa dança serena, que a seara ondeia, se envolvem num jogo de cores amenas.

Bebo com avidez o som das cigarras recortando o verão, enquanto atento no restolhar das searas, descobrindo os ninhos de palavras pequenas de onde eclodem poemas, simples mistérios com letras claras.

Sob o olhar cuidadoso das estrelas abraço a seara, e em pontas dos pés estico-me e dou um beijo na lua, mas invento o seu hálito enamorado, porque este Alentejo percorre-me as veias, mas é de mel moreno o tema que escolho para escrever o meu fado.

Rosa Alentejana
18/05/2015

domingo, 10 de maio de 2015

Quero-te assim: feliz


Adoro quando lês
borboletas
no meu pensamento...
mal o poema começa
e já o voo faz cócegas
nas letras...

Já o sorriso
é primavera
nos lábios em botão…

Já o pólen vicia
a rosa com o néctar
das palavras
convidando à vida…

Já recolho as asas
sobre pétalas em “v”
enquanto o brilho aviva
a caligrafia…

Já o medo
se transforma
na sorte
dos trevos
com quatro folhas…

Já o verde
imagina o sonho
a cada frase
terna e apaixonada…

Já evoco
o amor nas entrelinhas
enquanto a seiva
doce
me escorre pelos dedos…

E na profusão
mágica das asas
que te liberto
pouso enfim
no azul:

É assim que te quero:
feliz!

Rosa Alentejana
10/05/2015
(imagem da net)