quarta-feira, 20 de maio de 2015

A sul


Foi no sul dos meus olhos
que depositaste a entrega serena,
a palavra sémen
com que fecundaste o poema.

Vieste acordar-me o mar
marulhando letras adormecidas
há muito
nas minhas entranhas e,
mergulhando,
mesclaste de anil
a concha das mãos
cobertas de manhas.

Ah! Foi no sul da minha nuca
que enfrentaste a guerra solta
dos meus cabelos e, docemente,
murmuraste
a ladainha das sílabas,
suave novelo
das minhas emoções.

Vieste aconchegando
a tua voz nos meus ouvidos
como se a sul me rondasse a alegria
como borboleta dos sentidos
e me estimulasse a magia
do pólen presente nas rimas
dos tempos perdidos.

Foi no sul, no meu sul
que abriste a janela suspensa
no limbo do sonho de carinho
onde marcaste a diferença
quando fizeste do meu colo
o ninho
do nosso amor.

Rosa Alentejana
20/05/2015
(imagem da net)

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Das searas


Eu nasci do gérmen do trigo, tenho a pele trigueira de quem trabalha à sombra do sol, esse que morde e fustiga a seara inteira e enfeitiça a corola do girassol.

Tenho nos lábios a cor vermelha da papoila no meio da seara encerrada, enquanto na terra mato o fastio e no estio floresço só e abandonada.

Carrego o perfume da flor-da-laranjeira nos cabelos longos, negros e ondulados, como searas sopradas pelo vento, em dias tempestuosos de céu escuro e amargurado.

Seguro nas mãos o cheiro da terra quando fica molhada, e da flor-da-amendoeira o branco imaculado, cúmplice com a luz quando o sol fica a pino na seara por trás do silvado.

Sustento nos olhos o verde das folhas miúdas das oliveiras, quando enamoradas pelo castanho do barro guardado perto da eira, e numa dança serena, que a seara ondeia, se envolvem num jogo de cores amenas.

Bebo com avidez o som das cigarras recortando o verão, enquanto atento no restolhar das searas, descobrindo os ninhos de palavras pequenas de onde eclodem poemas, simples mistérios com letras claras.

Sob o olhar cuidadoso das estrelas abraço a seara, e em pontas dos pés estico-me e dou um beijo na lua, mas invento o seu hálito enamorado, porque este Alentejo percorre-me as veias, mas é de mel moreno o tema que escolho para escrever o meu fado.

Rosa Alentejana
18/05/2015

domingo, 10 de maio de 2015

Quero-te assim: feliz


Adoro quando lês
borboletas
no meu pensamento...
mal o poema começa
e já o voo faz cócegas
nas letras...

Já o sorriso
é primavera
nos lábios em botão…

Já o pólen vicia
a rosa com o néctar
das palavras
convidando à vida…

Já recolho as asas
sobre pétalas em “v”
enquanto o brilho aviva
a caligrafia…

Já o medo
se transforma
na sorte
dos trevos
com quatro folhas…

Já o verde
imagina o sonho
a cada frase
terna e apaixonada…

Já evoco
o amor nas entrelinhas
enquanto a seiva
doce
me escorre pelos dedos…

E na profusão
mágica das asas
que te liberto
pouso enfim
no azul:

É assim que te quero:
feliz!

Rosa Alentejana
10/05/2015
(imagem da net)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

O brilho ténue que se lê no poema


Segurei no poema
como quem segura o sol
entre as mãos
e com todo o cuidado
acendi as palavras, uma a uma,
só para mim.

Ateei-lhe sons ternurentos
e apaziguados, numa calma aparente,
como cálida lua refletindo
sonhos de marfim.

Adornei-lhe as margens com pérolas
já gastas
de tantas metamorfoses levianas,
e aconcheguei-lhe o lençol de ideias
ao leito quase transbordante
de viagens soberanas,
ainda por fazer.

Foi quando o poema se inundou
de luz
pelas leituras à flor da pele
e foi mais fundo,
num movimento intenso,
que abarcou todo o meu mundo,
preso apenas pelos teus dedos,
essência que degusta os meus segredos
sempre que me vens resgatar.

E transformou-se
em barco de papel alado,
cobiçado em outros planos,
flutuando ao ritmo cadenciado
que têm os sentidos
que tantos lhes querem ler,
mas apenas tu existes no centro,
leal navegador
para o compreender.

E o poema brilhou
até se tornar vaga-lume
na alma de quem o leu,
e mordendo as vogais saboreou
o que eu realmente quis dizer,
todavia desfez-se em saliva
no céu da boca
e simplesmente…evaporou
quando em amor se rendeu!

Rosa Alentejana
04/05/2015
(imagem da net)

domingo, 3 de maio de 2015

Somos nós


Ainda agora
bebi
do cálice de sol das tuas mãos
o néctar embriagado das tuas palavras
e já me sinto lava

uma sede
abrasada pela combustão
quente que trazes na voz
inunda-me os lábios

porque sinto-me
fímbria da metade do beijo
moldado a fogo veloz
nas veias

e sou
ponto equidistante
da junção dos corpos
enamorados pelo roçar
vibrante
das dermes ardentes

o princípio inquieto do ato
de acender sensações nos olhos
quando os poros
incendeiam lareiras
lentamente

sou brasa
quando és fim vulcanizado
pelos desejos escaldantes
que iluminam o espaço
tão longe e tão perto
dentro de nós!

Rosa Alentejana
03/05/2015
(imagem da net)