sexta-feira, 13 de março de 2015

Esse poema



Sinto o sabor do sol
nas papilas gustativas
do meu coração.

Tem o aroma acre e doce
do som da tua voz.

Esse poema escrito
no pergaminho rugoso
que me arranha o olhar
sempre que as tuas palavras
se afastam
em pesados passos largos.

Esse poema dissimulado
que me enlouquece as veias
em azuis de saudades e lágrimas.

Esse poema que me ensanguenta
os vasos compostos de flores abertas
como abetos que crescem rumo ao céu,
dando-lhes o tom arroxeado
das neblinas que sufocam
o meu respirar.

Esse poema solitário de tão só,
no meio do nada que é o dia,
ilha deserta ancorada
junto à tua pele.

Esse poema que navega a loucura
de te esperar,
em ondas abissais
no abismo
do absurdo oceano da minha ilusão.

Qualifico esse poema
como marulhar indeciso que me mói
e me emaranha os pensamentos,
que os cobre da areia bronzeada
pela fantasia…
mas transforma a noite em dia.

Rosa Alentejana
12/03/2015

quarta-feira, 11 de março de 2015

Imenso como o mar


Ouço-te por entre as ondas,
ao sabor do ruído
que faz o pensamento
a embater nos rochedos da vida.

Incapaz de distinguir se és tu a rocha
ou se sou eu a personificação
e do medo da mágoa que se espraia
sobre o meu entardecer
concedo-te o benefício da dúvida.

Recebo-te mar
nas minhas mãos em concha,
como água salgada
que purifica a alma.

E gosto-te maré agitada
ao encontro
das muralhas
do meu castelo.

E gosto-te vaga doce e serena
marejando
nas minhas entranhas.

E gosto-te mar alto e profundo
inundando o meu país
mais íntimo.

Emergiste-me sereia
em mar proibido.

E ergueste-me princesa
nos corais
espiralados
dos meus sonhos.

E agora, continuo amarando
ao largo da tua pele
que me cativa e mantém cativa
nesse imenso areal.

Rosa Alentejana
11/03/2015

sexta-feira, 6 de março de 2015

Este sol é meu!


Espreito por entre a porta e soltam-se cartas de mãos cuidadas, revestidas de materiais impermeáveis, duradouros, como o próprio ouro nos bolsos dos fatos comprados por medida na Europa, ali tão perto…
O cheiro a couro vem impregnar-me os sentidos e o chão, bem limpo e encerado, não demonstra a sujidade acumulada nos sapatos de marca que brilham sem precisarem de polimento.
Vergo-me à lei. Decalco vénias nas narinas das amizades compradas por tesouros que desconheço, mas que admiro com os olhos raiados de raiva e fome…É ela que me paga as contas.
Gritam-me polémicas nas ideias veiculadas nos jornais. Como-as com o pão do dia anterior. Bebo-as nas entrelinhas do leite doado pela instituição de caridade do meu bairro. Não as suporto…vomito-as a seguir, para não ficarem a envenenar-me a bílis!
Separo a mesada para a bomba de gasolina, para a empresa que fornece a luz, para a que fornece o gás, para a que fornece a água, meticulosamente, e adio as férias (mais uma vez) porque não mereço a felicidade do descanso.
A culpa é do preço do barril de petróleo, que torna as tendas de campismo caras demais para o meu orçamento! E ainda fico a lamber os lábios pela caminhada que vejo os estrangeiros fazerem pela minha rua…Se aguento? Ai aguento! Claro!
E vou para a rua, todos os dias, a morder as lágrimas e a evitar as bactérias que os Centros de Saúde transmitem (Deus nos livre!), que o trabalho é certo! E se for certo já é uma benesse!
Por isso, odeio o chão polido. Por isso, caminho com dignidade. Por isso, pago honradamente as minhas contas. E vivo uma vida miserável. Mas, com este sol maravilhoso que ninguém pode roubar porque é muito meu!
Rosa Alentejana
06/03/2015
(imagem da net)

quinta-feira, 5 de março de 2015

Estórias


Quando deito os olhos sobre a seara de trigo que avisto da janela do meu quarto, toco com a memória no horizonte e as ideias rodeiam-me, num redemoinho sem lógica e doem-me as sequelas.
Visto-me de recordações com o pano-cru das vivências onde te encontro sentado ao meu lado. Sobre a mesa há a vibração dos beijos matinais, que mordo nos lábios, numa saudade demorada…
Ainda sinto aquele abraço morno com o calor da hortelã-pimenta entre os dedos agradecidos.
Depois…não sobrou mais nada, somente o escuro e doloroso silêncio.
Mas ainda tenho o sol a embriagar-me a melanina no corpo.
Ainda tenho a brisa da madrugada fria a acordar-me os sentidos.
E ainda tenho o dicionário dos sentimentos pronto a abrir-se sobre o meu colo, mesmo aqui ao lado, e as palavras soltas nos cabelos…
Talvez te escreva mais um poema…
Talvez nunca mais leias o abismo entre nós…
Talvez eu morra e enterre os meus restos no baú das minhas mágoas!
Restaram-me as prosas rente aos olhos e algumas sílabas debaixo das pálpebras como pó arrastado para debaixo do tapete…
Restaram-me algumas hipérboles que nunca compreendi e a lagarta dos meus pensamentos com raiva a querer tornar-se mariposa.
Não sei onde colocar as ações! Ao lado do monte de papéis que inundam o chão? Ou entre as mãos do tempo para que ele me baste? No meio da crise financeira onde todos adulam a inteligência para fugir com elegância? Já me sinto enferrujada para colocar o pé direito no chão a empurrar os dias, enquanto o esquerdo fica a tentar manter o equilíbrio a cada hora...
Sobrou-me o sonho repleto de vogais e consoantes matizando-me as frases e as faces de lágrimas e do vento que me seca a garganta!
Arrisquei a minha sanidade mental num lusco-fusco vago onde as cores se esboroaram…
Falhaste-me a dignidade enquanto eu acordava…
A vida tem formas certas de contar estórias e eu tenho formas erradas de as completar.

Rosa Alentejana
05/03/2015

quarta-feira, 4 de março de 2015

Violino de sonhos


Sob o junco amarelecido
pela sede desse amor,
enconchado na penúria do ser,
verto poemas nesse leito
vestido do teu corpo, meu rio.

Como se o meu estivesse rendido à seca,
repleto de seixos secretos,
repleto de silêncios discretos,
repleto de areias esquecidas pelo tempo.

E é tal a delicadeza
amalgamada na concavidade
das minhas mãos,
que transborda de pureza,
espelhada e espalhada nos versos…

E canta nas águas um violino de sonhos,
como se o murmúrio da corrente resvalasse
e recolhesse
aos olhos de perfeita tentação.

Agora
pendem-me gestos indecisos dos braços,
pairando como aves de arribação
sobre esse rio,
buscando o calor dos abraços…mas,
tenho nos dedos gastos
somente palavras imprecisas,
indecisas,
aglomeradas nas margens
que habito sem autorização.

Sou fonte
desajeitada
correndo por entre pedras
e árvores
e terra
num retrocesso
de volta ao monte
da minha imaginação!

Rosa Alentejana
04/03/2015
(imagem da net)

terça-feira, 3 de março de 2015

Tanto


Já te desfiei tantos colares
de prosas
em meigos versos…

Tantas contas caíram
perto do teu chão,
e nem uma floriu
ou aflorou beijos dispersos
dessa boca tão longe
e tão perto de mim!

Será que contaste com os sonhos
cobertos de pétalas coloridas
que desabrocharam da minha mão?

Ou contaste as contas
espalhadas nas expressões
de pensamento
regadas pela minha emoção?

Será que os versos plantados
ao rigor dos tempos
se tornaram colheita fecundada
da tua estação?

Imagino os campos onde escreves
ramos e ramos de eloquência…
e mói-me
a saudade corrosiva da dependência
acreditando
que todo o adubo
do dicionário se tornou leve
para quem, como eu,
esperava tanto…

Rosa Alentejana
03/03/2015
(imagem da net)

domingo, 1 de março de 2015

Refazer


Enquanto me instigam
esquecimentos
capazes de moer a mágoa
as minhas mãos alisam
o coral das memórias
e ainda seguro o cristal
do hálito das tuas palavras
como se a sua pureza
fosse intocável

e ainda sinto
a maciez das almofadas
onde as penas fizeram o ninho
dos sonhos que costumo viver
enquanto o dossel coberto
da tranquilidade do tule
protege o estofo da cabeceira
onde se enredam os pensamentos

e seguro nos lençóis
com perfume de alfazema
e debruço-me sobre o dia
para o refazer…

Rosa Alentejana Felisbela​
01/03/2015
(imagem da net)