sexta-feira, 13 de junho de 2014

Pessoa

Fernando Pessoa faria hoje 126 anos...em sua homenagem tomei a liberdade de escrever este texto que vos deixo:


Quem sou…sou uma mistura sem vergonha
de “horas absurdas” onde me revejo
no ímpeto dos versos que o sono sonha
ou no trejeito dos lábios quando beijo

Talvez eu “cante sem razão”
Trovas de um amor que sabe a nada
ou queira, na verdadeira aceção
da palavra, um amor-perfeito,
que nunca acaba

Mas é de “flores transparentes”
cultivadas no meu coração,
este “pórtico partido” nos montes,
que nasce esta imensidão
cheia de luz, e “de repente
todo o espaço pára”
ao redor do meu “desassossego”…

E a “chuva oblíqua” não se equipara
ao fundo profundo do meu medo!
Sou eu o verso que passa e ressoa
na boca de toda a gente
“o menino de sua mãe”, o Pessoa
que na “inocência de não pensar”…sente!

Rosa Alentejana
Embora a frase não esteja correta...

terça-feira, 10 de junho de 2014

Aprisionada


Presa na armadilha
da amargura
a um passo
sem partilha
que dura
dura...

Separa-me um passo
do muro
branco da inexistência
e na mão repousa
o verso laço
de pura
penitência

Toco a frieza
com os dedos
profanados
pelo silêncio
e escorre-me a tristeza
pelo âmago
da solidão
que não venço

Vergastada
pelo universo
de cada palavra
fogem fragmentos
dispersos
em sílabas
de histórias

Cada história
é um mundo
em extremos
de fôlegos
profundos
e lugares
imundos

Cicatrizes incrustadas
em peles envelhecidas
enganadas
foragidas
de vidas
jamais amadas

Obituários de emoções
nos olhos reticentes
onde a dor se encolhe
e a cor morre
para sempre

E os tambores?
Rufam pelo tempo perdido
na lógica sem lógica
do peso de amores
que voam...
fio de luz
no horizonte
distante

E eu regresso
à armadilha
sem nexo
como ave
perdida
em gaiola dourada
e se há pouco
era pouco
agora sou nada

Rosa Alentejana
10/06/2014
(imagem da net)

domingo, 8 de junho de 2014

Até...


Chega sem promessas
(que as guarde quem faz orações)
sem medo do dia
sem saber das horas
ou se a ousadia
contempla a dor dos corações…

Mas chega...nas asas
da tua vontade
com um par de beijos
no olhar
e um bolso repleto
de liberdade
só…para nos guiar!

Mas vem sem cobranças
com o abraço apertado
e atira as semelhanças
do passado
para qualquer lado!

Que o momento seja
só nosso…prolongado
até que a gente queira!

E vem sem exageros
acender a fogueira
das dermes com a combustão
que tens nos dedos
e não pares antes
de demonstrarmos
os sentimentos sinceros
e delirantes
que assim fluirão!

Traz a brincadeira
no rosto travesso
e nunca presumas
que eu não queira
o que não te peço…

Vem com o desejo
de ser feliz
preso na tua atenção
e que o sabor da vida
não passe do sopro
que tudo foi em vão…

Se a oportunidade existe
vamos fazer dela
um naco de felicidade
tornando-a mais bela
em vez do cinzento triste
saboreando-a
até termos vontade…

Rosa Alentejana
(imagem da net)

sábado, 7 de junho de 2014

Reconstrução


Escuto o som vazio da tua voz
e invades-me solidão
na foz do meu grito
ilusão
atroz

Concebo-te esperança
no dia encoberto
como se a lembrança
desanuviasse
a saudade
nuvem
no deserto

E eu, nua de palavras,
recebo-te hábito
em arcaísmos
e gírias
descritos em fados
como
hálito
benemérito

Mas castigas-me
com o roçar decrépito
das falanges
espumosas
na brisa perdida
das rosas
onde me perco
a versejar

E tudo é vácuo
e vago
e triste
e não existes
nem nos versos
nem nas verdades

Albergo-te
ainda
sonho
nas asas
das farsas
do abandono
e eu
abismo
do grito
solidão
te recomponho

Rosa Alentejana

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Sorrisos


Há um desejo bem guardado
entre a minha boca e a tua
escondendo o beijo selado
numa noite à luz da lua

Tal como o lápis e aquela folha
namorando a escrever poesia
ambas traçaram a tal batalha
do amor descoberto um dia

E entre versos apaixonados
nossas bocas loucas se uniram
em suspiros quentes e arrepiados

E todas as dúvidas se diluíram
nesses quereres consolados
e como num poema…sorriram!

Rosa Alentejana
5/6/2014
(imagem da net)

quarta-feira, 4 de junho de 2014

No teu abraço


Eu sonho contigo todas as noites em cada momento dos dias risonhos.
E sonho cada pedaço de ti, como se o céu te tomasse e voasse sem ser possível sentir o calor do teu sol.
E sonho cada beijo, como se as nuvens te aconchegassem em campânula de afetos e te roubassem de mim.
E sonho cada olhar, como se a noite te lembrasse e me escondesse o teu brilho…
E sonho o teu corpo, como se fosse o templo que idolatro e a quem rezo orações de devaneios mundanos…
Queria murmurar-te todos os desejos no olhar…
Queria caber no teu abraço e preencher cada espaço com sabores vindos de mim…
Será possível? Diz-me que sim…
14/5/2013
Rosa Alentejana
(imagem da net)

domingo, 1 de junho de 2014

Opressão


Tenho esta verdade crua
no meio das mãos caladas
e solta-se uma lágrima nua
na ausência das palavras

São pecados tão meus
moldados no barro dos dias
e nos farrapos de tantas luas
que me voam das fantasias

E as mensagens timbradas a sal
inscritas nas teclas soterradas
são flocos de bem...ou mal
em noites de angústias torturadas

E na escalada pedregosa de betão
e de arame farpado cingido
em torno do corpo e do coração
brota este fogo escondido

Levo o marasmo dos pesadelos
coberto de desajeitados pedaços
de fios emaranhados de novelos
envolvendo os meus passos

E os sulcos escavados de gritos
na penumbra da escuridão
vão encurralados nos ouvidos
sangrando p'los nós da mão

E as memórias do sabor do sol
gastas no ébano noturno
vão mergulhadas no copo do álcool
no estuário do dia taciturno

E esse encontro fugaz de vida
no fervilhar prazenteiro das vielas
sinto-o regra ordeira transgredida
no constante pulsar das janelas

Abrem-se as mãos de borboletas
manipuladas por um Deus fanfarrão
transformadas em mariposas radiosas
aguardando o assombroso sermão

Verga-se-me o corpo tenebroso
ao peso da angústia medonha
e o sabor acre e virtuoso
insulta a esperança da vergonha

Tocam os sinos à desgarrada
na pequena igreja ali ao lado
e percorre-me a madrugada
num acordar triste e cansado
Rosa Alentejana
01/06/2014
(imagem da net)