quinta-feira, 13 de março de 2014

O azul do sol


Não se passa um só dia
sem que o passado
me passe pelas mãos
de percalços enfeitados
a papel e laços!

Desembrulho cada segundo
com a avidez de uma criança
e aguardo o desenlace,
como um vício
que não me cansa!

Numa dessas oportunidades,
saíste-me na quermesse
ofertada pelo olhar,
com novidades nas mãos e eu…
fiquei encantada,
neste inebriado admirar…

Com toda a delicadeza,
acariciei o meu presente,
com receio que a incerteza
te esfumasse da minha frente…

Hoje leio-te em versos
feitos de luar,
embriagada pela noite serena
que se deita no teu belo olhar
e sinto uma gula desmedida
por viver os momentos
vestidos de futuro
nas nossas vidas!

Lambuzo-me da tua ternura
e amarroto o tempo
na folha de papel madura…
um dia,
a nossa hora
irá determinar o instante
em que o azul do sol
irá brilhar!

Rosa Alentejana

terça-feira, 11 de março de 2014

Perfume a rosmaninho

Quando encosto a cabeça
ao luar cálido do fim do dia,
fico pensando em letargia
no teu rosto, sem pressa…

E na forma como a promessa
desse olhar de pura poesia
marca a desejos a minha alegria
e mais nada me interessa!

És pedaço de mau caminho
na estrada da minha vida
perfume doce a rosmaninho

embrenhado na pele comovida!
E desse odor renasce o carinho
pela tua boca tão terna e querida!

Rosa Alentejana
(imagem da net)

segunda-feira, 10 de março de 2014

Um pouco de magia


Todos precisamos de um pouco de magia
feita por encomenda no jardim colorido da vida,
em canteiros de sensações brandas
de harmonia cálida,
como numa oferenda!

Ah! E do corte da relva mundana,
onde favos de fel cobrem de capim
o mato bravo que bebemos de um só trago,
como se o zumbido dos zangões
não ferisse a cinzel a pele dos restos
de ti e de mim…

Todos precisamos de um pouco daquela magia
lavrada em sementes de amor,
e que sem saber,
foi usurpada por braços alheios ao seu suor…
como se o vento polinizador se encarregasse
das nossas entranhas entranhadas
na terra robusta de um dia de Estio,
onde a palavra encarna
nas línguas de mar bravio…
tão perto, mas tão longe do fim!

Todos precisamos daquela magia
tocada, perfumada, inventada
no quarto crescente em delírios de paixão,
confinada a desejos de beijos
no colchão de chão,
pincelado de rosas tingidas de sal e verão,
onde o cheiro a gaivotas é girassol
em luar claro na noite de escuridão!

Pressinto a magia em cada filigrana de céu
que é nota da nossa canção
porque o sol começa a aquecer
a primavera do tempo
que guardo dentro de mim
e sinto-te madrugada
a despertar em festim!

Rosa Alentejana
(imagem da net)

domingo, 9 de março de 2014

Sem sorte


Não me escondas o sonho,
abre-me a porta da alma
que eu segredo-te
na palma da mão
o perfume dos meus
ais…

Cheiram a desejos
e a beijos não consumados
na pele das manhãs
que querem
demais!

São passos
sem som
que escurecem
os dias
perdidos nos abraços
a caminhar
sem norte.

Sou corpo sem sorte
navegando à deriva
sem, sequer,
se importar…

Olho-te nos olhos
e sonho-te
pela porta entreaberta
segurando, com toda
a ternura, a tua alma
na palma da minha mão…

Sei que és um sonho,
mas ainda murmuro
o sabor a querer
no meu acordar!

Rosa Alentejana
(imagem da net)

quarta-feira, 5 de março de 2014

Razão e coração


Coloca as flores
sobre a mesa
despe o coração
que eu abro o olhar

Já não me confortam
as cores
nem é suficiente
a fraqueza
do teu abraçar
ausente

Preciso do som
preciso do riso
e desse dom
da intenção
presente

Já não quero a letra
dessa canção
inócua e indecente

Preciso do calor
estridente
no interpretar
dos sentidos

Já não tenho lugar
para a amargura
da dor que levo
aos lábios
e me escorre dos olhos
em migalhas
de dias,
em fantasias…

Preciso do cheiro
preciso da alegria
e do primeiro
verso da nossa poesia!

Coloca-me as flores
sobre as mãos
despe a alma
que eu continuo
a escutar
com o coração!

Rosa Alentejana
(imagem da net)

segunda-feira, 3 de março de 2014

Carência


Comportam-se perante o pêndulo
do relógio doido do tempo que passa
E como aves a quem cortaram a asa
vão voando naquele voar incrédulo

Aguardam o dia langoroso vindouro
em que o vazio de corpos afastados
num côncavo e convexo, encaixados
será o prazer original e duradouro

Então, voarão pelo céu vermelho fogo
numa dança condenada à inocência
nessa pureza arrebatada, nesse jogo

onde esquecerão, perdidos, a coerência
libertando cada gemido no epílogo
do final dessa desmedida carência…

Rosa Alentejana
(imagem da net)

domingo, 2 de março de 2014

Escandaloso desejo

Acordo na serena serenata
de palavras
que não gastas
salivas
sussurras
e nunca afastas

Almejas
na minha manhã
o sabor desse beijo
coberto do afã do meu deserto
de sorriso aberto
e depositas o tesouro
coroado de escandaloso desejo
nas minhas mãos,
como pérolas redondas
rolando pelo chão
dos afetos misteriosos,
envoltos na meia-luz
destes dias chuvosos
e nesse som sibilante
do roçar da pele nua

Respiro a magia
do início do dia
voluptuoso
refletido no teu olhar
e no meu a borbulhar
sem tréguas,
nem que isso nos custe léguas
e léguas
de jardim perfumado
de sensações em ti,
entornadas em mim,
nesse quarto
de lua
posta nesta manhã
coberta
apenas pelo lençol de cetim!

Rosa Alentejana
(imagem da net)